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Arquivo de 23 de fevereiro de 2012

23/02/2012

às 6:00 \ Imprensa, Síria

Curtas & Finas (Marie Colvin)

Ao lado do fotógrafo francês Rémi Ochlik, a lendária repórter americana Marie Colvin, a serviço do jornal britânico The Sunday Times, morreu na quarta-feira enquanto cobria o conflito na Síria. Ela foi vítima, talvez intencional, de um bombardeio das forças de Bashar Assad na cidade de Homs. Horas antes de morrer, Marie Colvin, que já tivera sua tragédia pessoal ao cobrir a guerra civil em Sri Lanka, onde perdeu a visão de um olho, comparou Homs a outros palcos de tragédia, como Sarajevo e Srebrenica (na Bósnia dos anos 90). Para o editor do Sunday Times, John Withrow, Marie Colvin acreditava profundamente que reportagens como as dela poderiam “diminuir os excessos de regimes brutais e fazer a comunidade internacional prestar atenção”.

Marie Colvin, de fato, fazia a sua parte. Na noite de terça-feira, ela relatava em televisões nos EUA e Grã-Bretanha coisas horríveis, como a morte de um bebê em uma clínica improvisada de Homs. Eram relatos acompanhados de imagens de ativistas contrários a este brutal regime de Bashar Assad. O mundo, portanto, presta atenção. Mas as indicações não são de diminuição dos excessos. Existe uma escalada da brutalidade do regime sírio (que não discrimina entre civis e rebeldes armados), que resultou em ações de uma oposição que se militariza e na qual grupos como a rede Al Qaeda pegam carona.
No ar, estão os apelos por uma intervenção estrangeira por razões humanitárias e também para ajudar rebeldes que não são páreo para as forças governamentais. Existe uma escalada da brutalidade do regime Assad, mas também sua hesitação tática e estratégica para usar o seu arsenal, a todo vapor, a todo calibre. Para dar uma medida, em pouco menos de um ano, morreram oito mil pessoas no conflito na Síria, mas até agora a resposta tem sido calibrada (não existe ironia na expressão). Papai Assad (Hafez), matou talvez cinco vezes mais apenas na cidade de Hama, numa insurreição da Irmandade Muçulmana em 1982. A operação durou 26 dias.
E por que a diferença? Em parte, tecnologia. Viva, sim, a geração Facebook ou YouTube. Ela contribui, assim como Marie Colvin fazia, para reduzir excessos dos regimes brutais como o de Bashar Assad. Por esta razão, eles matam repórteres incansáveis e cidadãos-jornalistas como o vídeo blogueiro sírio Ramy al-Sayed.

O regime Assad, no seu cinismo, acredita que se controlar a brutalidade, mesmo com uma escalada como a que está em curso, a comunidade internacional irá tolerar a violência sem recorrer a envolvimento militar direto. As forças governamentais até agora, ao contrário de 1982, ainda não recorreram a bombardeios aéreos ou mísseis balísticos. Marie Colvin chamava a atenção, portanto, apenas para uma carnificina temperada. Eu espero que sua morte não tenha sido em vão, a morte de mais uma vítima deste regime brutal e venal.

***
A colher de chá vai mesmo para os jornalistas que, como Marie Colvin, cobrem conflitos como o da Síria, apesar dos riscos pessoais.


 

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