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Delírio da vida real: o elo entre filho de Trump e Julian Assange

O jogo dos espelhos - e das manobras de espionagem - fica mais espantoso ainda com revelação de contatos do homem da WikiLeaks e a turma de Trump

Eleição nos Estados Unidos, independência da Catalunha, plebiscito que deu no Brexit, movimentos de extrema-esquerda e de extrema-direita. É longa a lista de manipulações pendurada na conta do serviço de espionagem da Rússia.

A mais grandiosa, evidentemente, é a tentativa de interferência na eleição presidencial americana, cheia de reviravoltas, algumas críveis, outras suspeitas. As revelações mais recentes merecem ser desdobradas:

FILHINHO DE PAPAI

Donald Trump Jr. chegou muito perto de “combinar com os russos” algum tipo de estratégia eleitoral.

Recebeu uma emissária altamente suspeita que pretendia abrir segredos sobre Hillary Clinton. Agora, espetacularmente, a revista The Atlantic revelou que ele trocou emails com o WikiLeaks, ou seja, com Julian Assange, durante a campanha presidencial e depois da inesperada vitória do pai.

“Adoro o WikiLeaks”, escreveu num deles.

ÍDOLO CAÍDO

Em todo o planeta e talvez até fora dele, Assange foi cultuado durante anos como o ícone da transparência com a criação do WikiLeaks, o lugar onde todos os podres podiam aparecer.

Autoexilado na embaixada do Equador em Londres, ele recebe expoentes da esquerda mundial, mas sua total falta de apetite por revelações sobre a Rússia já havia despertado suspeitas até nos mais crédulos corações. Quando os emails do comitê do Partido Democrata foram divulgados através do WikiLeaks, os corações crédulos ficaram partidos.

Agora, o golpe final. Assange, através do WikiLeaks, falava com Trump Jr. Don, para os íntimos. Assuntos: contestar o resultado da eleição se Hillary ganhasse e pescar informações valiosas, como a declaração de renda de Trump, até hoje sigilosa.

Os interesses de Vladimir Putin e as atitudes de Julian Assange vão ficando cada vez mais coincidentes.

AUDÁCIA, SEMPRE

Esta é difícil de acreditar: um dos emails da WikiLeaks propõe que Trump, à época presidente eleito, sugerisse à Austrália mandar Julian Assange como embaixador dos Estados Unidos.

Até pelos padrões de Assange, que é cidadão australiano, é uma proposta de dimensões alucinantes. Ele foi o transmissor de informações sigilosas, muitas comprometedoras, sobre militares, diplomatas e espiões americanos.

Só para lembrar: ele está enfurnado na embaixada equatoriana para não ser enviado à Suécia, onde seria interrogado sobre acusações esquisitas de estupro (uma das acusadoras disse que ele fez sexo sem camisinha com ela enquanto dormia, na cama dividida de comum acordo).

Uma hora, Assange alega que pode ser extraditado da Suécia para os Estados Unidos e enfrentar até pena de morte – alucinação total. Outra, trama para ser embaixador no país que o executaria. Será que é alguma coisa na comida que chefs famosos de Londres mandam por simpatia para a embaixada do Equador?

CABRA DA PESTE

Tudo o que se refere a manipulação da opinião pública e contatos suspeitos entre políticos americanos e agentes russos está sendo investigado pelo durão Robert Mueller, ex-diretor do FBI. Já indiciou três pessoas do entorno de Trump durante a campanha por motivos não diretamente relacionados a ela.

Outras virão. Na lista, o próximo deve ser o general da reserva Michael Flynn, que escondeu contatos com a Rússia e a Turquia antes de se tornar o brevíssimo conselheiro de Segurança Nacional de Trump.

O filho Trump Jr. e o genro, Jared Kushner, também terão que dar explicações convincentes. Os contatos de Júnior com o WikiLeaks engordam o dossiê.

SUJOS E MALVADOS

O mundo opaco da espionagem e o jogo duplo das campanhas de desinformação formam uma combinação estonteante. Um exemplo: a mesma empresa encarregada de levantar a ficha de Trump com os russos, prestando serviços ao Partido Democrata durante a campanha eleitoral, também ajudava os russos em outro caso de seu interesse nos Estados Unidos.

Outro exemplo: Tony Podesta se afastou de sua empresa de lobby em Washington assim que Paul Manafort foi indiciado. Podesta e Manafort faziam exatamente a mesma coisa: prestavam serviços a políticos ucranianos alinhados com os interesses de Moscou.

Manafort dirigiu, por curto período, a campanha de Trump. John Podesta, irmão de Tony, era o chefe de campanha de Hillary Clinton. Seus emails foram vazados pelo WikiLeaks. Existe uma convicção generalizada de que a fonte original vinha de Moscou.

E tem mais um detalhe circulando nos meios especializados: os russos estão plantando a ideia de que existem muitos vídeos íntimos de Trump. Alguns parecem falsos, como o citado no dossiê que mencionava atos heterodoxos num hotel de Moscou. Outros podem ser verdadeiros. Todos, evidentemente, são sujos.

Donald Trump, Julian Assange e Vladimir Putin agindo em conjunto, cada qual com seus interesses e convencidos de que são mestres da manipulação, sugerem um mundo de conspirações no qual os maiores adeptos do conspiracionismo parecem tolinhos inocentes.

Para quem gosta de enigmas, tudo fica cada vez mais interessante.

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