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Ricardo Piglia

02/05/2014

às 11:08 \ Livros da Semana

Ricardo Piglia explora o outro lado do ‘american dream’

Ricardo Piglia

O escritor argentino Ricardo Piglia

Diego Braga Norte

Com 74 anos e duas dezenas de obras publicadas – entre livros de ficção e ensaio –, o escritor argentino Ricardo Piglia costuma ter sua carreira literária quase sempre descrita com a presença da palavra “maturidade”. Ele não reclama. A julgar por sua idade, larga experiência nas letras e na academia ou simplesmente pela extensão e solidez de sua obra, é difícil encontrar outro termo mais preciso. Piglia é, de fato, um excelente escritor maduro. Em seu último romance, O Caminho de Ida (Cia. das Letras, 248 páginas, 39,50 reais a cópia física ou 27,50 o e-book), o escritor retoma em sua narrativa um fio condutor que lhe é caro: a mescla de romance policial com análises psicológicas e sociais de pessoas e situações. A fórmula já tinha sido usada com muito sucesso em títulos como Dinheiro Queimado (Cia. das Letras, 1998) e Alvo Noturno (Cia. das Letras, 2011), ambos romances bem-sucedidos.

Além da mesma estrutura, Piglia também resgata outro personagem familiar aos seus leitores, o professor e escritor Emílio Renzi – o alter-ego do autor, que já tinha aparecido em outros livros. A nova história se passa na década de 1990, e o lugar é costa leste americana, mais especificamente numa prestigiada universidade privada. Ricardo Piglia sempre conciliou sua carreira acadêmica com sua profissão de escritor. Ele morou por 15 anos nos Estados Unidos e deu aulas de literatura nas universidades de Harvard e Princeton, onde é professor emérito. Renzi é um professor convidado pela universidade Taylor que vai ao país americano para dar um curso sobre o curioso escritor William H. Hudson – filho de ingleses, nascido e criado na Argentina, que produziu uma obra em inglês tendo os pampas como cenário e os gaúchos argentinos como personagens.

O Caminho de Ida copyNo ir e vir do burocrático cotidiano universitário, entre reuniões, relatórios e as aulas com seus alunos, Renzi acaba se envolvendo com sua colega Ida Brown, uma estrela em ascensão da crítica literária americana, muito bonita e sedutora. Nesse contexto, Piglia aproveita-se de sua experiência e de seu saber para tecer comentários sobre a obra de Hudson e para reproduzir as discussões literárias que ele tem com seus alunos e colegas. São especialmente bons seus comentários sobre os americanos e o estilo de vida local, com algumas formalidades e ritos bem diferentes para um latino-americano. E quando o romance de Renzi com Ida – escondido dos demais colegas – começa a engatar, ela morre em condições misteriosas. Abalado e intrigado, Renzi inicia uma investigação pessoal para saber a verdade por trás da morte. E é aqui que a maturidade e autoconfiança de Piglia afloram. Escritor experimentado, reconhecido e multipremiado, ele não precisa provar mais nada a ninguém. Piglia não é adepto das longas descrições, das cenas de ação desnecessárias ou dos diálogos efusivos. Ele faz da economia de elementos a força e precisão de sua narrativa.

Escritor ‘à moda antiga’, Piglia constrói narrativas lineares e não usa os pulos no tempo, reminiscências e outros artifícios do romance contemporâneo fragmentado. Também como antigamente, o autor prefere o bom e velho travessão para redigir seus diálogos ao invés das aspas, tão amadas pelos escritores americanos e ingleses, que passaram a ser moda na literatura produzida deste lado ao sul da Linha do Equador. Piglia é direto e muito efetivo. Não perde tempo com sintaxes e construções acrobáticas, tampouco com metáforas rocambolescas. Narra e descreve de uma maneira objetiva, dando fluidez e agilidade à história – dois elementos imprescindíveis em um bom romance policial. Avesso às experimentações, o argentino Piglia faz com muita competência a ponte entre uma literatura latina com um pendor erudito – tão presente em seu conterrâneo Jorge Luis Borges – e o ágil romance policial anglo-saxônico, de escritores como o americano Dashiell Hamett e o britânico Graham Greene. As pontes erigidas por Piglia unem ainda elementos de épocas e contextos bem diferentes. É prazeroso ver a banda independente californiana Weezer ou o cineasta Martin Scorsese mencionados num mesmo livro que também cita James Joyce, Joseph Conrad e Herman Melville.

A investigação acaba conduzindo Renzi para Nova York e Califórnia e lhe revela outro lado dos Estados Unidos, um mundo escuro, de sombras e incertezas, com personagens enigmáticas e pessoas que vivem à margem da lei, bem distante do “american dream”. Em sua aventura, entre agentes do FBI, detetives particulares e outras figuras, emerge um tipo claramente inspirado em Theodore Kaczynski. Mais conhecido como Unabomber, Kaczynski era um matemático brilhante que abdicou sua meteórica carreira universitária por um ideal utópico e amalucado. Ele se refugiou numa cabana sem luz, telefone ou qualquer forma de conforto para viver longe da sociedade de consumo. Entre 1978 e 1995, Kaczynski enviou mais de quinze bombas a alvos específicos, incluindo renomados cientistas e professores de universidades, matando três pessoas e ferindo 23. Seria Ida Brown uma vítima ou uma colaboradora do terror? Essa é um das muitas perguntas que Renzi tenta responder enquanto investiga a morte de sua amante. Suas dúvidas lhe levam além e Renzi passa a questionar as origens e a causas da violência no seio da elite da sociedade americana. As respostas podem não ser fáceis, tampouco definitivas, mas Piglia conduz a história com muita elegância e consegue manter o leitor hipnotizado.

09/10/2011

às 9:59 \ Entrevista

A carpintaria de Ricardo Piglia

Ricardo Piglia não parece ter a idade e a altura que tem. Quando fala de literatura, o baixinho de 70 anos mostra estatura e agilidade de raciocínio notáveis. Entre um aperto e outro que dá com uma das mãos no dedo mindinho da outra, cacoete que o acompanha sempre, ele fala com desenvoltura e prazer de seus temas diletos, o livro que está divulgando, o gênero detetivesco, Jorge Luis Borges, o alter-ego Emilio Renzi, a experiência de viver nos Estados Unidos, Jorge Luis Borges. O mestre argentino não precisa ser invocado pela reportagem: Piglia trata de trazê-lo à discussão, deixando clara a sua perfilhação ao estilo intelectual, ao mesmo tempo fantástico e cerebral, que fez escola a partir de Buenos Aires. Outros assuntos surgem na conversa, também, caso da sua relação com a arquitetura e as artes plásticas e de seu gosto por séries de TV. Nada escapa à observação do escritor, hoje um dos mais importantes da Argentina, onde voltou a morar em setembro, quando se aposentou da Universidade de Princeton (EUA).

Piglia conversou com VEJA Meus Livros por cerca de uma hora. Na primeira parte da entrevista, logo abaixo, ele fala das transformações que vê a internet provocar na literatura, da sua relação com outras formas criação — como artes plásticas e arquitetura — e do bom momento que vive a TV americana, que acompanhou de perto nos anos em que lecionou em Princeton. Mais abaixo, ele conversa sobre Alvo Noturno, seu último romance lançado no Brasil, e do livro de contos em que está trabalhando, Histórias Pessoais.

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Na Flip deste ano, a argentina Pola Oloxairac foi classificada como cerebral – um adjetivo que valeria para boa parte da literatura argentina. O senhor considera seus livros cerebrais? Sim, eu tendo a pensar meus livros usando a noção de arte conceitual. Me parece que certa literatura contemporânea está em diálogo com as experiências de arte conceitual, que não sei se podemos definir como cerebral ou como maneira de acessar o mundo artístico. Me parece que isso passa com Pola e também com Borges. De todo modo, romances se escrevem com palavras, e palavras têm cargas múltiplas, sentimentais e racionais, estamos lidando com materiais que são ao mesmo tempo uma coisa e outra. No caso de Pola, me parece que há uma intriga sobre as mulheres e o pensamento, porque as mulheres estão sempre associadas com a sexualidade e a emoção. Pola põe aí personagens femininos muito conectados ao mundo emocional, mas ao mesmo tempo iguais aos homens nas discussões teóricas. É lindo isso. No caso de Alvo Noturno, a questão que me interessava era a da aparência: que algo parece outra coisa, é um problema conceitual. Sempre há algo disso, no meu caso.

As artes plásticas o interessam como fonte criativa?
Sim, eu tenho muitos amigos artistas e me inspiro muito neles. Tenho a sensação que a arte experimenta com maior intensidade que a literatura, depois de Duchamp, talvez, e Duchamp também era um escritor. Então, por um lado, a arte contemporânea tende a se cercar de certas questões que já estavam presentes em Borges e Valerie, entre outros. O que eu vejo é a possibilidade de definir uma obra antes de fazê-la, como um projeto. O mesmo se dá com os arquitetos, que projetam um objeto ficcional que logo será uma casa.

Mas o senhor vê semelhanças entre o seu modo de criação e o de um arquiteto ou o de um artista plástico?
Sim, me parece que há um momento prévio à materialidade. A arte tende à desmaterialização e cada vez mais se aproxima da vida no sentido de produzir efeitos artísticos sem precisar de um objeto.

Mas esse é um projeto difícil…
Sim, claro. É como se fosse o horizonte utópico da arte.

É como se, ao terminar de escrever um livro, ele já não lhe fosse palpável. Como saber se ele vai funcionar?
Essa é a grande questão. Num determinado sentido, me parece que se trabalha no cruzamento da arte com a vida, da ficção com a realidade, do projeto com o objeto mesmo. E que se trabalha nesse limite. Não se deixa de lado o objeto ou a experiência real, mas essa reflexão se sobrepõe. No caso do romance, me parece que ele avança sobre o jornalismo, a não-ficção, sobre fatos reais, como se tratasse de estabelecer uma conexão entre a arte e a experiência real.

Dar aula o ajudava a escrever?
Não muito. Eu ensinei em Princeton de 1997 ao ano passado. Desde setembro deste ano, estou aposentado, como um boxeador aposentado (risos). Foi uma experiência linda dar aulas, mas agora preferi voltar a Buenos Aires. Eu não escrevia tanto nos EUA como gostaria, dar aulas tomava muito tempo. Além disso, dar aulas lá pressupunha viver nos Estados Unidos por longas temporadas, mudar minha vida. Durante um tempo, nos anos 1960, fui editor de uma coleção de livros policias, fiz crítica de cinema. Mas prefiro trabalhar com calma, sem urgência.

O senhor trabalhou por anos em Princeton. Acompanhou o bom momento da TV americana, que parece estar deixando o cinema para trás?
Uma das coisas mais interessantes de viver nos Estados Unidos foi descobrir esse mundo da TV paga e das séries antes da Argentina, onde elas só chegariam depois. Havia muita oferta na TV americana. Fiquei logo fascinado pelos Simpsons, era época do Reagan, e aquela família tão contrária à lógica do estado era extraordinária. Também adorei Os Sopranos, Twin Peaks, de David Lynch. Me parecem que os melhores roteiristas estão agora escrevendo séries. São muito criativos. E me parece que o cinema corre atrás disso. O cinema ficcional está em certo sentido atrasado em relação a dois aspectos: o primeiro é esse, das séries de ficção, e depois me parece que há um grande desenvolvimento do documentário, que está como que na vanguarda da indústria.

Das séries mais recentes, alguma chamou a sua atenção?
Também gostei muito de Lost. Me parece muito próximo de Lucrécia Martel, uma diretora fantástica da Argentina. Há elementos de literatura fantástica nessa série tão popular, se pensarem na ideia de uma ilha onde se chega e da qual não se pode sair. Há elementos de alta cultura que se cruzam com outros de cultura popular. Também gostei do Arquivo X, era ótimo, e também fantástico. Havia liberdade e experimentação, coisas que estão muito menos presentes no cinema, hoje mais estereotipado. A cultura americana é um grande acontecimento. A política de estado incomoda a todos, mas a cultura é muito poderosa e livre, uma cultura muito ativa. Digo em Nova York, em São Francisco. Há aí uma atitude, nas ruas, nas roupas das pessoas, que não corresponde ao modelo político do estado. De modo que essa se trata de uma sociedade complexa e muito interessante.

O senhor tem uma teoria já antiga sobre a obsolescência das mídias: que, quando uma mídia se torna obsoleta, adquire liberdade criativa. Fazendo o raciocínio inverso, as novas plataformas, como os tablets, podem rejuvenescer o romance?
Acho que o gênero que está se renovando hoje é o conto, a forma breve, que se adapta mais facilmente à circulação rápida da internet, mesmo em redes sociais como o Facebook. Há uma poética da brevidade na internet, mas o Twitter já seria um exercício extremo. Essa poética influencia a produção atual. Os contos tendem a ficar cada vez mais curtos e a se tornar mais populares entre os jovens. Em paralelo, o romance tende hoje a trabalhar com materiais reais. Mas a maior popularidade do conto não proporciona experimentações. Não há um Joyce nos contos. O mais perto de uma experimentação seria Borges, mas ele é um contista muito clássico. Todas as histórias têm um final claro. No meio, sim, ele inova, coloca coisas que não eram usadas nos contos, mundos imaginários, países estranhos, mas na forma o conto de Borges é bastante clássico.

Por falar em Borges, e já de olho em Alvo Noturno, seu romance lançado há pouco no Brasil, vocês têm em comum o gosto pelo detetivesco, comum a muitos escritores argentinos. Por que esse gosto pelo policial na Argentina?
Borges contribuiu muito para a difusão da literatura policial na Argentina. Ele começou a defender o gênero nos anos 1930, quando era considerado bastante secundário. Fazendo uma brincadeira, eu poderia dizer que a Argentina se aproximou do gênero policial. É uma sociedade, como muitas sociedades modernas, que fazem do crime uma janela, um modo de ver a realidade.

Continua aqui.

Maria Carolina Maia

08/10/2011

às 9:42 \ Entrevista

Em ‘Alvo Noturno’, conexões entre Brasil e Argentina

Ricardo Piglia é um dos maiores escritores da Argentina, onde voltou a morar em setembro, quando se aposentou da Universidade de Princeton (EUA), e agora trabalha em um livro de contos, Histórias Pessoais. É sobre esse projeto e o último romance que escreveu, Alvo Noturno, lançado neste ano no país pela Companhia das Letras, que Piglia fala abaixo. Em passagem por São Paulo, o escritor conversou por cerca de uma hora com a VEJA Meus Livros. Na primeira parte da entrevista, logo acima, ele fala das transformações na literatura que vê a internet provocar, da sua relação com outras formas criação, como artes plásticas e arquitetura, e do bom momento que vive a TV americana, vista por ele de perto nos anos em que lecionou nos EUA.

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Em Alvo Noturno, Emilio Renzi é um jornalista que investiga um crime. O jornalismo policial é o mais próximo da literatura? É um gênero que admiro, o do jornalismo policial. É feito por gente que investiga, que vai ao lugar onde as coisas acontecem, que tem relação com os dois lados, policiais e criminosos. Renzi começou como crítico literário do jornal onde trabalha e, quando jovem, teve de cobrir um crime, coisa de que gostou. Em Alvo Noturno, ele se demora no povoado onde ocorreu o crime porque se enamora de uma das gêmeas ligadas ao morto. Seu papel aqui é o de observador, de alguém que vem de fora e vê as coisas com distância.

Muita gente ficou em dúvida se devia chamar Alvo Noturno de livro policial ou não. Como o senhor o define? Eu tampouco sei. O livro começa com características do gênero policial. Há um comissário que investiga o crime. Mas o relato muda a sequência clássica do gênero. Porque eu gosto muito de pensar no romance policial depois do final. Às vezes, acabo de ler um policial e sinto vontade de que ele tivesse continuidade. Parece que a história termina no ponto em que fica interessante. O interessante não são apenas as causas do crime, mas também suas consequências. Em Alvo Noturno, procuro avançar com a realidade logo após o crime.

Essa realidade que se passa logo após o crime mostra uma Argentina muito parecida com o Brasil. Um país racista, em que campo e cidade constituem realidades bastante distintas, com diferentes tipos de relações sociais. Os argentinos são de fato racistas? Não é algo que se percebe claramente como em países com uma tradição africana muito forte, como os Estados Unidos ou quem sabe o Brasil. Na Argentina, a tradição africana se foi dissolvendo, mas restou um racismo social, com aversão a determinada cor de pele. Não há um racismo explícito, mas uma discriminação latente muito forte. No romance, a chegada de um mulato a um povoado argentino produz um efeito ao mesmo tempo de aversão e atração. Até porque é um mulato com dinheiro, que chega dos Estados Unidos com muito prestígio. Assim, pude trabalhar essa coisa bastante presente na América Latina, as pequenas comunidades em busca da industrialização e do progresso e o mundo rural como um lugar que dificulta esse tipo de acontecimento.

No Brasil, se fala que quem enriquece embranquece. Na Argentina se dá o mesmo? Sempre me intrigou muito a capacidade de diferenciar a cor da pele no Caribe. Há como trinta formas diferentes de cor, do branco ao negro, matizes e matizes, que têm a ver com onde está a raiz genealógica. Eles têm com a cor da pele a mesma atitude que os esquimós com a neve (diz-se que os esquimós têm duzentas formas de nomear brancos). Essa ideia do Caribe estava na minha mente, sempre me interessei pelo Caribe como mundo narrativo e imaginário. Um lugar de encontro entre Europa e América, onde se deu o primeiro encontro com os colonizadores espanhóis, que ao chegar acharam que estavam no paraíso. E o conflito entre os impérios e as zonas mais ricas das colônias, que cediam suas riquezas à Europa, dava espaço para a atuação de piratas ingleses e franceses. Então, há hoje um Caribe holandês, um Caribe francês, é uma região com muitas línguas, tradição africana fortíssima e riqueza literária. É como um laboratório de questões sociais.

É verdade que o personagem Luca Belladona é inspirado em um primo seu? Sim. Um primo de que eu gostava muito e já está morto. O romance reproduz em linhas gerais a vida do meu primo. Ele era muito criativo, um inventor. Criou uma fábrica que começou a crescer e a ter problemas, inclusive familiares. Quando a fábrica praticamente para de funcionar, ele não se resigna, se tranca lá, obstinado com a salvação e a volta à boa forma da empresa. Eu o visitava quando pequeno, ele era mais velho e criava brinquedos. Quando ele passou a ter problemas, começou a ter uma relação conflitiva com a realidade e a me visitar, porque precisava falar da situação. E eu sempre pensei em usar essa história, agora saiu. Luca Belladona tem efetivamente muitas conexões com o meu primo. Uma das características do personagem que parecem inventadas, seu fascínio por Jung, por exemplo, é algo que meu primo tinha. Meu primo era obcecado pela ideia jungiana de que os sonhos são contínuos, têm uma lógica entre si, e anotava os seus sonhos nas paredes. Os elementos que parecem mais fantasiosos no livro são às vezes os mais reais – a realidade tem às vezes umas coisas que não se podem imaginar.

Alvo Noturno traz de volta Emilio Renzi. E ele está novamente jovem. Por que ele nunca envelhece? Às vezes, penso que o melhor é mantê-lo sempre jovem adulto, trabalhar com ele nessa faixa de idade, mas às vezes penso que seria melhor dar a ele um trato realista, deixar que os anos passem. Mas também me dei conta de que os personagens de ficção que nos encantam são jovens – salvo Rei Lear, digamos. É um momento rico, uma fase de transição, em que não se é jovem nem velho.

Um período rico do ponto de vista narrativo. Eu acho que sim, porque há muitos conflitos e há alternativas. Não se está frente a um mundo já vivido, é preciso tomar decisões.

Tanto Alvo Noturno como Respiração Artificial se passam nos anos 1970, época de ditadura. Por que esse período é recorrente na sua obra? Escolhi este ano porque era um ano com fronteira. A realidade política poderia tomar uma direção ou outra – se discutia então se Perón voltaria ou não. Na vida real, a experiência vivida pelo meu primo se passaria um pouco depois. Mas a decisão sobre a época não é apenas uma decisão sobre a intriga, mas também sobre o relato, mas sobre as limitações, as contingências da época.

O japonês de Alvo Noturno me lembrou o de Cidade Ausente: ambos trabalhavam em um hotel. (Risos.) Sim, sim, é como um duplo. Mas é uma coincidência, na realidade: algo em que eu não penso quando estou escrevendo um romance. Dinheiro Queimado também tem uma semelhança com Alvo Noturno: dois personagens que parecem gêmeos. São como obsessões minhas, de que não tenho consciência. E novamente a questão racial: no Brasil, há uma migração japonesa muito forte, na Argentina, os japoneses ou descendentes são poucos, e sofrem um racismo soft.

No ano passado, o senhor disse que tinha planos de fazer uma biografia de Renzi. Ainda tem esses planos? Essa ideia sempre vem à cabeça. Ou uma biografia ou um diário – porque Renzi tem um diário. Mas agora estou escrevendo contos. Em alguns ele aparece, em outros, não. Estou num processo de trabalho que envolve várias histórias que vou anotando ao longo do tempo e num momento me sento para escrever. A princípio, o livro se chama Histórias Pessoais, e tem a ver com a discussão que tivemos sobre conceito. A questão aqui é saber o que são as histórias pessoais – se as que nós vivemos ou as que estão em volta de nós e nos afetam. Dessas últimas, tenho uma porção de histórias para contar.

O senhor trouxe esse livro a São Paulo, está trabalhando nele aqui? Não trabalho quando viajo. Há uma contradição entre viajar e escrever, entre viver e escrever. Para trabalhar mais, preciso viajar menos (risos).

Saiu este ano no Brasil Borges, uma Vida, a biografia escrita pelo britânico Edwin Williamson, lançada no ano passado nos EUA. O senhor chegou a lê-la? Sim, e achei um pouco ingênua, por ter uma ideia um pouco esquemática da experiência emocional de Borges e também por ler a sua obra de uma maneira mecânica, tentando achar conexões com a sua vida. As biografias sempre têm elementos que são interessantes de ver, mas o modo como o biógrafo imagina a vida da personagem que está narrando influi na qualidade.

O senhor já pensou em escrever uma autobiografia? Não (risos). Gostaria que pensassem que a minha vida é a de Renzi (risos). Mas me parece que a vida não é o central, numa biografia. Conta a relação da personagem com a época em que vive e com o que faz, que pode ser arte ou qualquer outra experiência. Isso é algo que me interessa na narração: como escrever histórias de pessoas que vão além da nossa experiência média? Não contar as mesmas histórias que vivemos, contar histórias que tenham outro horizonte, que sejam um pouco mais amplas. Por isso, me atraem personagens como o meu primo, que estão fora da experiência mais imediata.

Maria Carolina Maia

27/08/2011

às 10:30 \ Sem categoria

‘Alvo Noturno’, o mais – e menos – policial de Ricardo Piglia

Uma coisa é certa: Alvo Noturno (tradução de Heloisa Jahn, Companhia das Letras, 256 páginas, 45 reais), romance do argentino Ricardo Piglia que acaba de chegar ao Brasil, é o mais policial de todos os seus livros. Outra coisa é igualmente correta: a obra, recentemente agraciada com o Prêmio Hammet de romance noir, não é um livro policial.


Vídeo: Ricardo Piglia fala a VEJA Meus Livros sobre Alvo Noturno

Não se quer aqui entregar o final, mas basta citar o que se desenvolve antes dele para compreender. O livro tem início com a história de Tony Durán, um alto e belo porto-riquenho radicado nos Estados Unidos, de onde embarca para a Argentina após conhecer as irmãs Ada e Sofia. São as gêmeas e ruivas filhas do patriarca dos Belladona, clã que fundou e comanda um povoado na província de Buenos Aires.

O envolvimento de Tony com as gêmeas choca a cidade, que valoriza mais as próprias notas do que o noticiário do país, mergulhado numa ditadura militar – o período é 1970, época dileta de Piglia. O choque é logo substituído por outro, no entanto: poucos meses após desembarcar no povoado, Durán é assassinado no quarto do hotel onde está hospedado. O segurança noturno do lugar, um japonês que remete ao segurança do hotelzinho de A Cidade Ausente, é logo apontado como suspeito, pela grande amizade criada com o morto. Em seu quarto, encontram emoldurada uma foto de Tony seminu. Yoshio é preso, acusado de crime passional.

Mas, assim como a imagem que na cidade se tem do campo, visto como lugar pacato, tedioso e atrasado, e na verdade um composto de “camadas geológicas”, como anota Piglia, a história rompe a superfície e se desdobra. Um novo assassino, um crime contratado, um esquema de lavagem de dinheiro e de empresas, corrupção, intrigas familiares, sexo e drogas são componentes que surgem especialmente a partir do ponto em que o honesto mas amalucado detetive Croce cruza com o repórter Emilio Renzi, alter-ego do qual Piglia já revelou querer escrever uma biografia.

Enviado de Buenos Aires para cobrir a morte de um gringo no interior da província, Renzi demora um pouco a chegar. Sua entrada acontece por volta da página 40. Mas, quando chega, passa a rivalizar com o narrador – boa parte dos capítulos terminam com anotações do jornalista, destacadas em itálico – e com o investigador Croce pelo papel de protagonista da história. Seja qual for o narrador ou o protagonista do trecho, Piglia mantém o humor irônico que pontua todo o romance e compensa o fato de ele ser menor que, por exemplo, Respiração Artificial, do mesmo Piglia e do mesmo Renzi.

Compensa também, e muito, o fato de Alvo Noturno ser marcado por um clima noir em que as incertezas se acentuam – daí se ter menos um romance policial que um romance no sentido mais amplo, de possibilidades irrestritas. Clima detetivesco que é caro não apenas a Piglia, mas a toda uma tradição da literatura argentina, que sabe com ele brincar, não apenas incorporá-lo, dando à obra esse formato multifacetado.

O próprio título corrobora com a proposta. Alvo noturno, explica uma nota de rodapé no meio do livro – feito de notas com funções variadas, como a de complementar um dialogo com falas –, eram as lebres com que os motoristas do povoado tinham de tomar cuidado ao dirigir no escuro, e que os ingleses liquidaram sem problemas, na Guerra das Malvinas, por contar com um visor para enxergar à noite. A imagem da faceira da lebre e a oposição entre o local e o estrangeiro e entre quem vê e quem não vê na noite – noir – ajudam não a explicar o romance, mas a ampliá-lo em termos de saídas. Difícil é escolher uma só delas. Afinal, aqui nada é o que parece ser.

Maria Carolina Maia

19/01/2011

às 0:27 \ Leituras cruzadas

William Wilson, 198, e o duplo na literatura

Nesta quarta, 19 de janeiro, William Wilson completaria 198 anos. Aliás, William Wilson e seu sósia de mesmo nome, que como ele é personagem e batiza o conto de Edgard Allan Poe sobre a experiência fantástica de se ver refletido em outra pessoa. Apropriado, esmiuçado e reinventado em teses acadêmicas e em textos de romancistas do porte do russo Fiódor Dostoiévski e do argentino Ricardo Piglia, William Wilson (1839), o conto, é considerado um dos textos mais importantes sobre a figura do duplo na literatura.

“Mas, decerto, se fôssemos irmãos, teríamos sido gêmeos: pouco depois de ter deixado a escola do Doutor Bransby soube, por acaso, que o meu homônimo nascera em 19 de janeiro de 1813 – coincidência bastante notável, sendo esse dia, precisamente, o do meu nascimento”, escreve o narrador de William Wilson, enquanto lembra que conheceu seu sósia ainda criança, na escola, e que a partir daí seria copiado e perseguido por ele.

“Wilson dava-me a réplica com uma perfeita imitação de mim mesmo – gestos e palavras – e representava admiravelmente o seu papel. Meu traje era coisa fácil de copiar, meu andar, minha atitude geral, ele fizera seus sem dificuldade e, a despeito de seu defeito constitutivo, nem mesmo minha voz lhe tinha escapado”, continua o narrador, que revela, em seguida, não ter sido imitado pelo sósia em todos os detalhes. O duplo teria um tom de voz e posturas éticas diferentes das suas, não sentiria prazer em dominar ou trapacear – e poderia, dependendo da leitura, ser entendido como o complemento ou a consciência do narrador.

O narrador, aliás, não dá ao leitor o seu verdadeiro nome, que seria também o de seu duplo, por vergonha da história que está contando. Em vez disso, numa brincadeira de Poe, ele adota um pseudônimo que é formado por dois anagramas dotados de significados: William pode ser Will i am (Serei eu?, em português) e Wilson, Wil’ son (Filho de Wil, também em tradução livro).

Explorado de diversas maneiras, com personagens semelhantes, idênticos ou proporcionalmente inversos um ao outro, o tema do duplo tem longa trajetória na literatura. Datado de 1839, William Wilson, o conto, não é o primeiro a abordar o tema do duplo, que, de acordo com Freud, nos acompanha desde os primórdios da psique humana. Ele seria a parte de nós mesmos que estranhamos e relutamos a reconhecer.

Seus primeiros registros, de fato, remetem à antiguidade, ao mito em que Zeus toma a forma de Anfitrião para se deitar com a esposa do grego, argumento retomado no século XVII por Molière, na peça Amphitryon, e aos gêmeos bíblicos Esaú e Jacó, iguais mas diferentes, recriados por Machado de Assis no século XVIII. O próprio William Wilson chegou aos leitores depois de O Elixir do Diabo, texto do alemão E. T. A. Hoffmann de 1815, e antes de O Duplo, de Dostoiévski, de 1846, e da clássica Comédia dos Erros, de Shakespeare, de fins do século XVI.

O argentino Ricardo Piglia, que retomou William Wilson no romance A Cidade Ausente, onde o conto é recriado por uma máquina fazedora de textos como Stephen Stevensen, considera o alter-ego Emilio Renzi o seu duplo literário. “Ele tem semelhanças comigo, mas, principalmente, vive uma vida paralela, que eu não pude viver”, diz, lembrando que o papel do duplo, além de ampliar a leitura de quem se depara com uma obra literária, é o de enlarguecer a experiência do autor.

A vida que Piglia vive através de Renzi vai ser, aliás, experimentada em detalhes. Está nos planos do escritor argentino uma biografia para o personagem – leia mais aqui.

Maria Carolina Maia

16/12/2010

às 8:28 \ Entrevista

“Os personagens são mais importantes que as histórias”, diz Ricardo Piglia

Clique aqui para ver a primeira parte da entrevista com o argentino Ricardo Piglia.

Considerado um dos maiores nomes da literatura latino-americana, o romancista argentino Ricardo Piglia esteve no Brasil em novembro para uma participação na Fliporto, a Festa Literária Internacional de Pernambuco. Lá, o autor do clássico Respiração Artificial concedeu uma entrevista a VEJA em que falou em detalhes da sua produção e do seu processo criativo, além do seu novo romance, Blanco Nocturno, com lançamento no Brasil programado para junho de 2011. Piglia ainda analisou o papel em sua vida do alter-ego Emílio Renzi, de quem – revela na entrevista a seguir – pretende fazer uma biografia.

Clique aqui para ver a primeira parte da entrevista com o argentino Ricardo Piglia.

05/12/2010

às 8:08 \ Entrevista

A literatura latina pelos olhos de Ricardo Piglia: argentino elogia Bolaño e critica Vargas Llosa

A literatura latino-americana vive uma boa fase. Nomes como o do chileno Roberto Bolaño, um querido dos críticos, e do peruano Mario Vargas Llosa, vencedor do prêmio Nobel de 2010, estão recolocando o continente no mapa cultural. Em passagem pelo Brasil, o romancista Ricardo Piglia, considerado um dos grandes nomes dos livros argentinos, faz uma análise do momento vivido pela literatura da região. Com direito a declarações polêmicas. O Nobel Vargas Llosa, por exemplo, não é poupado de críticas. “Ele foi um bom romancista até A Casa Verde“, diz Piglia, se referindo a um livro lançado em 1966. Confira abaixo o melhor da conversa com o argentino.

Maria Carolina Maia

15/11/2010

às 18:40 \ Entrevista, Eventos

Entrevista exclusiva: Piglia faz pergunta a Manguel

Alberto Manguel responde a questão de Ricardo Piglia

Com menções a Jorge Luis Borges, ataques a Mario Vargas Llosa e viagens pela literatura universal, os argentinos Ricardo Piglia e Alberto Manguel foram os destaques da sexta edição da Festa Literária Internacional de Pernambuco, a Fliporto. A repercussão da passagem de ambos pelo evento não poderia ser menor. Considerado um dos maiores escritores vivos da Argentina, país que tem forte tradição literária, Piglia é autor de livros já clássicos como Respiração Artificial, considerado um dos mais importantes romances da literatura portenha. Manguel, por sua vez, é um leitor voraz, perfil que foi alimentado por sua convivência com Borges, para quem lia em sua cegueira. E, de leitor voraz, tornou-se tanto escritor como crítico e grande conhecedor de literatura. Aqui, ambos se encontram numa breve entrevista exclusiva. A pedido de VEJA Meus Livros, Ricardo Piglia formulou uma pergunta para Manguel.
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Piglia: Que influência tem a tradição da literatura judaica, com textos como a Cabala e o Talmud, sobre a sua produção?
Manguel:
Eu não sou crente. O que me interessa não é a religião como seguidor, mas sim a literatura religiosa, por diversos motivos. Primeiro, por causa da Bíblia. Penso que, para qualquer pessoa da cultura ocidental, a Bíblia é um livro fundamental, não se pode ser um leitor coerente sem conhecimento da Bíblia. Depois, pela teologia e pela reflexão que há na tradição judaico-cristã a respeito da leitura e do livro. Por fim, esses textos têm algo de literatura fantástica na confecção de argumentos lógicos e em construções linguísticas que são muito interessantes, e que podemos acessar a partir de certos pontos e dogmas nos quais não precisamos crer para que a discussão nos atraia. Por isso, sou de fato um leitor frequente do misticismo judaico e de autores cristãos como Santo Agostinho, São Tomás, Santa Teresa e São Jerônimo, que é o santo padroeiro dos tradutores e brinda o leitor com argumentos e raciocínios de grande utilidade.

Com Maria Carolina Maia

13/11/2010

às 20:40 \ Eventos

Ricardo Piglia: Nobel Vargas Llosa é ‘superficial’

O argentino Ricardo Piglia, um dos principais nomes da literatura portenha, literalmente suava a camisa, no início da noite deste sábado, pouco após a mesa que protagonizou na Fliporto, a Festa Literária Internacional de Pernambuco – o Porto vem de Porto de Galinhas, antiga sede do evento, que este ano adotou o centro histórico de Olinda. A temperatura local não é fácil para quem vive dividido entre Buenos Aires e Princeton, Estados Unidos, onde é professor. Mas ele diz gostar da troca de clima e, bem à vontade, comenta a entrega do Nobel de Literatura ao peruano Mario Vargas Llosa, este ano, com exclusividade a VEJA Meus Livros.

“É bom para a literatura castellana”, diz, “Mas, bom, eu não quero parecer antipático, mas os livros dele são superficiais. Sua representação da América Latina é esquemática, ele persegue moldes europeus. (Jorge Luis Borges) apresentava uma América Latina muito mais complexa, mas nunca poderia ser reconhecido com um Nobel porque não escrevia romances, fazia contos, que são considerados menores.”

O chileno Roberto Bolaño, o maior sucesso latino da atualidade, também recebeu elogios de Piglia. “É um alívio que entendam que a literatura latino-americana não é apenas Gabriel García Márquez e os idílios sobre o homem do campo.”

Uma das sessões mais cheias do evento, que nunca chega a ficar realmente lotado, a mesa de Ricardo Piglia, no fim da tarde deste sábado, mais parecia um de seus livros, O escritor divagou sobre as afinidades literárias que alinham escritores diversos, agrupando-os segundo tópicos diferentes como a relação entre a carência e a escrita e a forma de entender o dinheiro. Para Borges, por exemplo, o dinheiro era uma metáfora, já que poderia corresponder a coisas tão distintas como uma música de Brahms e uma viagem.

Em junho de 2011, a Companhia das Letras lança Blanco Noturno, primeiro romance de Piglia em treze anos. O escritor explica que não ficou treze anos sem escrever desde Dinheiro Queimado, seu último romance, mas que passou todo esse tempo desenvolvendo o romance, porque inicia um livro com as personagens, que considera os elementos fundamentais dos livros, e as histórias entre elas demoram a nascer. Blanco Noturno é um policial, gênero de afeição do argentino – como também o era de Borges -, e traz o alter-ego do escritor, o personagem Emilio Renzo, de quem, conta Piglia revelando seu próximo projeto, planeja escrever uma biografia.

Maria Carolina Maia

29/10/2010

às 9:12 \ best-seller

Clássicos da prosa universal em formato de bolso

Livro no Brasil não é um produto de feira. Seu preço, definitivamente, não permite que seja adquirido com facilidade no mercado. Mas há opções que, se não baratas, pelo menos oferecem preços mais  convidativos, como os livros de bolso. VEJA Meus Livros selecionou alguns clássicos da literatura relançados em versão mini, no Brasil, neste ano.

  • . Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

(Globo de Bolso, 312 páginas, 13 reais)

Livro de 1931 que mantém a sua atualidade por tratar de perigos que atravessam as relações humanas em todos os tempos: a ambição, a sede de status e o amor ao poder – e a supostas verdades – que fazem com que uns se sintam autorizados a subjugar outros. Considerada a obra mais importante do britânico Aldous Huxley, é uma espécie de fábula futurista em que as consequências funestas de um regime totalitário são levadas ao extremo. Em um sistema científico de castas, a livre vontade perdeu lugar para um condicionamento metódico. Ideologias são inculcadas às pessoas à noite, durante o sono. A servidão humana é bem aceita e compensada com doses de felicidade química contidas no Soma, a droga do futuro.


  • . Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato

(BestBolso, 148 páginas, 12,90 reais)

Um dos últimos romances brasileiros a fazer barulho, pela forma livre como o autor, o jornalista Luiz Ruffato, constrói a narrativa, Eles Eram Muitos Cavalos acaba de ganhar uma edição em formato pocket pela BestBolso, braço do grupo Record. O livro, cuja história se passa toda num único dia, o 9 de maio de 2000, é formado por 69 textos curtos que são pedaços do caos que é a metrópole paulistana. Como uma espiral vertiginosa, o romance envolve o leitor com sotaques e sangues diferentes, conflitos familiares, classes baixa e média e alta e baixa, poluição e sujeira no meio-fio, fés e orações, contos de amor e de ódio. Para não perder o fôlego nesse movimento contínuo, o melhor é sorver o livro num gole só, degustando cada experimentação feita pelo autor: do trato dado às palavras à formatação do texto.

  • . Respiração Artificial, de Ricardo Piglia

(Companhia de Bolso, 200 páginas, 19 reais)

Considerado um dos maiores romances da literatura argentina, foi publicado pela primeira vez em 1981, durante a ditadura militar portenha, cuja tensão ecoa no livro. Conta a história da relação epistolar entre Emilio Renzi, alter ego recorrente de Piglia, e seu tio Marcelo. Renzi é um escritor iniciante, que faz uso, em seu primeiro livro, da versão da vida do tio narrada por sua família. Marcelo lê o romance e escreve ao sobrinho, esclarecendo os motivos de seu sumiço, diferentes daqueles que os parentes alimentam: ele esteve preso não por roubar a ex-mulher, mas por suas posições políticas. A partir daí, Renzi é atirado em uma trama com estilo detetivesco em que política, história e literatura se trançam, gerando suspense e profundidade. Vale a pena atentar às teorias de Renzi para a obra de alguns autores argentinos, especialmente para a de Borges, que, segundo o personagem, encerra a tradição da arte de influência europeia.


  • . Baterbly, o Escriturário, de Herman Melville

(Rocco Jovens Leitores, 96 páginas, 19,50 reais)

Do mesmo autor de Moby Dick, é constantemente comparado a O Processo, de Kafka, por conta de seu personagem principal: um copista que é esmagado pelo cotidiano no escritório. De tanto fazer a mesma coisa, copiar textos jurídicos horas e horas por dia, Baterbly vai se tornando repetitivo. Rejeita qualquer nova função com a mesma frase – “Prefiro não fazer” – e, nesse processo de robotização, vai perdendo as cores humanas e se tornando alheio ao mundo. A história é narrada em primeira pessoa por seu último patrão, um advogado de idade avançada.

Maria Carolina Maia

 

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