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Alberto Manguel

15/11/2010

às 18:40 \ Entrevista, Eventos

Entrevista exclusiva: Piglia faz pergunta a Manguel

Alberto Manguel responde a questão de Ricardo Piglia

Com menções a Jorge Luis Borges, ataques a Mario Vargas Llosa e viagens pela literatura universal, os argentinos Ricardo Piglia e Alberto Manguel foram os destaques da sexta edição da Festa Literária Internacional de Pernambuco, a Fliporto. A repercussão da passagem de ambos pelo evento não poderia ser menor. Considerado um dos maiores escritores vivos da Argentina, país que tem forte tradição literária, Piglia é autor de livros já clássicos como Respiração Artificial, considerado um dos mais importantes romances da literatura portenha. Manguel, por sua vez, é um leitor voraz, perfil que foi alimentado por sua convivência com Borges, para quem lia em sua cegueira. E, de leitor voraz, tornou-se tanto escritor como crítico e grande conhecedor de literatura. Aqui, ambos se encontram numa breve entrevista exclusiva. A pedido de VEJA Meus Livros, Ricardo Piglia formulou uma pergunta para Manguel.
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Piglia: Que influência tem a tradição da literatura judaica, com textos como a Cabala e o Talmud, sobre a sua produção?
Manguel:
Eu não sou crente. O que me interessa não é a religião como seguidor, mas sim a literatura religiosa, por diversos motivos. Primeiro, por causa da Bíblia. Penso que, para qualquer pessoa da cultura ocidental, a Bíblia é um livro fundamental, não se pode ser um leitor coerente sem conhecimento da Bíblia. Depois, pela teologia e pela reflexão que há na tradição judaico-cristã a respeito da leitura e do livro. Por fim, esses textos têm algo de literatura fantástica na confecção de argumentos lógicos e em construções linguísticas que são muito interessantes, e que podemos acessar a partir de certos pontos e dogmas nos quais não precisamos crer para que a discussão nos atraia. Por isso, sou de fato um leitor frequente do misticismo judaico e de autores cristãos como Santo Agostinho, São Tomás, Santa Teresa e São Jerônimo, que é o santo padroeiro dos tradutores e brinda o leitor com argumentos e raciocínios de grande utilidade.

Com Maria Carolina Maia

14/11/2010

às 16:37 \ Eventos

Com Borges, devaneios sobre bibliotecas e ataque a Vargas Llosa, mesa do argentino Manguel é a melhor da Fliporto

O argentino Alberto Manguel em um dos telões do lado de fora da tenda de debates da Fliporto. Como a Flip, evento tem espaço pago, completamente fechado, e outro, sem paredes, aberto ao público

A Argentina está marcando pontos na 6a edição da Fliporto, a Festa Literária Internacional de Pernambuco, que acontece no centro histórico de Olinda até a noite desta segunda-feira. Depois de Ricardo Piglia, que comandou no sábado a conferência “O escritor como crítico”, quando arrolou autores segundo suas motivações e visões comuns sobre coisas como o dinheiro, o evento recebeu neste domingo o escritor e leitor aficcionado Alberto Manguel. Ele protagonizou aquela que, até aqui, vem sendo apontada como a melhor mesa da festa – com direito a uma nova estocada em Mario Vargas Llosa, já atacado por Piglia em entrevista a VEJA Meus Livros. Manguel disse que que o peruano, vencedor do último Nobel de Literatura, deveria ler a própria obra para reconhecer seus “erros políticos”. Ex-esquerdista, Vargas Llosa é atualmente um liberal e crítico da esquerda no continente. Seu filho, Alvaro Vargas Llosa, é autor do Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, livro em que se insurge, com outros dois autores da região, contra a mitologia da esquerda local.

Logo no início da conversa na tenda principal da festa, que teve como interlocutor o escritor angolano José Eduardo Agualusa, de passagem no Brasil para lançar o romance Milagrário Pessoal, Manguel falou sobre suas influências. O livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, está entre elas. Para Manguel, o carioca Machado de Assis só não tem a projeção internacional merecida porque, em sua época, o Brasil era um país perdido no mapa, que falava uma língua de poucos. “Machado de Assis é um dos escritores fundamentais de nosso tempo. Se tivesse escrito em inglês, ele teria sido um precursor, e não um herdeiro de determinadas concepções literárias”, declarou em 1999 às páginas amarelas de VEJA, com o mesmo tipo de humor que caracterizou a conferência da Fliporto.

Jorge Luís Borges, de quem foi uma espécie de secretário de leitura – cego, o argentino, leitor insaciável que dizia que bibliotecas eram metáforas do paraíso, pagava para que pessoas lessem para ele -, não é influência porque, segundo Manguel, se o tomasse como inspiração, ele acabaria escrevendo como Borges, mas nunca chegaria a ser Borges. Seria uma cópia piorada. Borges é, aliás, um convidado extra da festa, já que esteve presente tanto na conferência de Piglia quanto na de Manguel.

Sobre o clássico argentino, Manguel forneceu algumas curiosidade, ainda que a contragosto – “Já contei 40.000 vezes como conheci Borges, quando era adolescente e o atendi na livraria em que trabalhava em Buenos Aires”, resmungou antes de contar pela 40.001a vez. Enquanto lia para o autor de Ficções e Livro de Areia, o ainda futuro escritor de livros sobre livros como A Biblioteca à Noite e de romances como Todos os Homens São Mentirosos, era interrompido por comentários instrutivos sobre literatura. “Ele me parava para falar do uso de determinada palavra ou de certas citações, dizia que uma citação poderia ajudar o leitor a acreditar na realidade da ficção e fazer com que ele pensasse que era mais inteligente que o escritor. Eram questões técnicas que ele gostava de observar e depois aplicar em seus contos.”

Já Manguel censurava as próprias observações, por achar que Borges as repelia. “Ele não gostava dos meus comentários. Uma vez, por exemplo, disse que a expressão ‘trompetes da fama’ era um lugar-comum. Ele retrucou, ‘Lugar-comum? Cite-me seis lugares em que ela aparece.’ E eu me calei”, contou, bem-humorado, lembrando o homem que no fim da vida  chegou à conclusão de que as melhores metáforas eram os clichês - cabelo branco como a neve e outras assim. Para escrever, o já cego Borges compunha poemas mentalmente, para então ditá-los, e mais tarde voltaria aos contos, que alguém transcrevia para ele.

Se Borges não fez de Manguel o leitor voraz que é, capaz de refutar o fim do livro impresso classificando a ideia como golpe de marketing da indústria eletrônica com seus iPads e Kindles, certamente alimentou essa voracidade. O argentino, que hoje vive no Canadá, onde diz que a democracia encontra a sua forma mais apurada, possui uma biblioteca de 35.000 livros. A paixão por bibliotecas, por sinal, parece a mesma que a de Borges. Paixão que um dia pode servir de argumento a um livro. “Cada biblioteca é uma autobiografia, porque é feita de escolhas. Eu gostaria de escrever um dia uma biografia de uma pessoa apenas pelos livros que ela tem na estante.”

Dentro do tema produção, Manguel, que poupa das suas resenhas os livros de que não gosta - “Me parece maldade gratuita” -, se tornou mais ácido. Disse que a produção literária contemporânea é difícil de analisar porque não se compõe apenas de literatura, mas de questões econômicas, políticas, de publicidade e de culto a personalidade - esta é a era das celebridades.”Hoje, acontece com frequência de dois escritores subirem ao palco, como palhaços, para conversar e divertir o público”, disse, num palco que ele dividia com o angolano Agualusa.

Maria Carolina Maia

 

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