Em ‘O Drible’, futebol é tema e personagem. Um golaço

O Brasil, pródigo em produzir excelentes jogadores de futebol, tem uma carência diametralmente oposta na produção de literatura sobre o esporte

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México, 17 de junho de 1970, semifinal da Copa que consagraria o Brasil como o primeiro tricampeão do mundo. O adversário era o aguerrido time do Uruguai e o jogo já estava definido, 3×1 para o Brasil. Porém, o momento mais famoso do embate ficou reservado para os minutos finais. O lance todo, do lançamento do Tostão à conclusão do Pelé, não dura mais que 10 segundos, mas é tempo suficiente para caber muita coisa. Para o cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, coube uma interessante teoria futebolística, invejada e citada até hoje, do futebol-poesia dos brasileiros em contrapartida ao futebol-prosa dos europeus. Já para o escritor Sérgio Rodrigues, blogueiro de VEJA, o drible mais espetacular e improvável da história serve de espetacular partida para a construção do seu terceiro livro, O Drible (Companhia das Letras, 224 páginas, 38 reais).

Murilo Filho é um cronista esportivo aposentado que vive num sítio no Rocio, região serrana e ainda ocupada pela Mata Atlântica perto de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Consciente de que a morte se aproxima, ele decide registrar seu último canto do cisne em forma de livro e se reaproximar do filho, Neto. Murilo procura em sua obra encontrar o amálgama que nos une; os traços que nos definem como brasileiros. Para isso, narra a história do fictício Peralvo, um ex-jogador de talentos paranormais que deveria ter sido “maior que Pelé”, caso uma tragédia não o tirasse de campo. Junto com a fantástica história de Peralvo, o ex-cronista nos conta também a própria biografia, partindo da pequena cidade mineira de Merequendu para o estrelato na então capital federal, Rio de Janeiro.

Neto é um revisor de livros de autoajuda que dirige um estiloso Maverick e divide seu tempo entre a curtição nostálgica da cultura pop e namoricos rápidos com jovens de classes sociais mais baixas, que conquista com aquilo que chama orgulhosamente de “O Método”. Órfão de mãe ainda garoto, Neto foi criado pela empregada Conceição e sofreu nas mãos de um pai agressivo e autoritário. O tratamento que Murilo Filho dispensa ao garoto beira o sadismo. Neto sofre pressão para se tornar um jogador de futebol mesmo sem demonstrar talento ou o menor interesse – a insistência do pai, ele vai concluir mais tarde, só poderia ser vontade de vê-lo mal, o que de fato acontece. Do pai, sofre ainda a opressão de sua sombra de homem famoso. E sofre por se considerar feio, fisicamente diferente de Murilo Filho, um galã e garanhão das noites cariocas.

o_drible_capaApesar dos rancores e das péssimas memórias de ambos os lados, e devido à morte que parece se achegar ao pai, os dois passam a se encontrar todos os finais de semana no sítio de Murilo Filho. Entre pescarias, sessões de videoteipe, croquetes e peixes na brasa, o pai relembra jogadores e personagens do passado de glória do futebol brasileiro. Heleno de Freitas, Almir Pernambuquinho e Didi convivem com Mário Filho, Nelson Rodrigues e Armando Nogueira e muitos outros. O pai conversa sobre o passado do futebol e tenta dar o laço final nos fios soltos de sua vida. O filho mais ouve do que fala, ansioso por ouvir do paio pedido de desculpas de que ele julga ser credor.

O esforço de Murilo para explicar o Brasil através do futebol, ele mesmo reconhece, não é novo. Ele cita Mario Filho, que em seu livro O negro no futebol brasileiro chegou perto disso. Cita também o instigante ensaio de Pasolini. Por meio das divagações do personagem, Sérgio Rodrigues nos coloca diante de um problema clássico sobre a construção da identidade brasileira: quem somos nós e por que somos assim? Gilberto Freyre, Raimundo Faoro, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Candido e, mais recentemente, José Miguel Wisnik – este também através do futebol – tentaram nos explicar. Todos tiveram seus êxitos, parcelas de contribuição e falhas. Nenhum deu conta de nossa totalidade. Eis aí um drible bem brasileiro em nossa vã filosofia (ou ainda nas vãs sociologia, antropologia, história…).

No trecho abaixo há uma breve descrição da teoria defendida por Murilo Filho. O interessante é que no romance o futebol serve de fio condutor do tenso diálogo entre pai e filho, matéria-prima do livro que o ex-cronista escreve e, ainda, como cenário e marcação do tempo da narrativa. Peralvo, jogador fictício inventado por Sérgio Rodrigues, nesse contexto, aparece como exemplo paradigmático da teoria de Murilo Filho: o pobre mestiço filho de mãe de santo com marinheiro norueguês que, sabe-se lá por quais conjunções celestes, joga o fino da bola. E é por meio do seu talento que Peralvo galga posições sociais, passa a ser aceito e a circular em outros círculos, conquista amigos, admiradores e mulheres. O futebol de Peralvo como um meio de ascensão e coesão social, e a fama como crachá que abre portas e fecha preconceitos.

O velho estava tomado de uma agitação maior que a do domingo anterior. Logo discorria sobre o papel desempenhado pela conjugação do futebol com rádio na história do Brasil, tal mágica tendo consistido, segundo sua teoria, na fabricação de toneladas de argamassa necessárias para colar os cacos de um país gigantesco que até aquele momento não era bem um país, mas uma vastidão de terra dividida entre uns poucos proprietários que se distinguiam em partes iguais pela ganância e pela indiferença às condições de vida das multidões que trabalhavam para eles, pouco lhes importando que estudassem ou deixassem de estudar, que tivessem casas com redes de esgoto ou cagassem no mato, que tivessem ou morressem – no caso dos pretos, que teimavam em se reproduzir feito ratos de esgoto, os donos da terra achavam melhor que morressem mesmo, o que certamente fariam se tivessem um mínimo de autorrespeito.

“Agora me diz, Tiziu”, disse Murilo, “como fazer dessa suprema sacanagem, desse puteiro a céu aberto, um país? Impossível, você me diz? Parecia mesmo, parecia. Aí alguém arranjou uma bola, foram onze para cada lado, outro maluco pegou um microfone e logo estava embelezando as jogadas mais toscas com umas retumbâncias ridículas de retórica. Pronto: metade futebol, metade prosopopeia, estava feito o Brasil.”

[…]

“Esse foi o único erro do meu amigo Mario Filho, aquela doce figura”, dizia o velho, “não perceber a importância do rádio na equação. Logo ele que era jornalista. Aquele livro dele é um monumento, me ensinou quase tudo o que eu sei. Você não leu O negro no futebol brasileiro, leu? Claro que não leu. Devia ser obrigatório em todas as escolas, mas pouca gente leu”.

[…]

“O Mario conta como o futebol vai se abrasileirando à medida que o século XX avança e os bugres e crioulos começam a ser admitidos dentro dos clubes. Esmiúça de forma brilhante o processo social cheio de conflitos que acabou dando na invenção de uma nova gramática, uma nova sintaxe. Aquilo que o Pasolini chamou de futebol-poesia em oposição ao futebol-prosa dos ingleses. Eu ia adorar ter tido esse saque, mas quem sacou foi o puto do Pasolini. Hoje é tão evidente que virou lugar-comum e ficam aí uns idiotas suspirando e falando em futebol-arte, futebol moleque, uma bobajada sem fim. O jeito brasileiro de jogar bola tem mesmo uma dívida impagável com a cultura negra, mestiça, sensual, infantil, esculhambada que é a cultura do Brasil, se houver uma.”

A narrativa oscila hábil e saborosamente como um pêndulo entre o presente e o passado, a história atual do pai e filho e a biografia de Peralvo. Some-se ao caldo da memória uma poderosa reconstrução de época – da deliciosa bossa nova à tenebrosa ditadura –, e pitadas generosas de cultura pop – dos desenhos dos estúdios Hanna-Barbera aos seriados National Kid, Perdidos no Espaço e Vigilante Rodoviário.

O Brasil, pródigo em produzir excelentes jogadores de futebol, tem uma carência diametralmente oposta na produção de literatura sobre o esporte. Salvo a honrosa exceção A Saída do Primeiro Tempo, romance de Renato Pompeu, temos, de literatura de qualidade, apenas crônicas sobre futebol. Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade deixaram páginas antológicas sobre o jogo e seus personagens. Em O Drible, o autor usa o futebol concomitantemente como pano de fundo e personagem da história principal, a emocionante disputa de uma vida entre pai e filho. O resultado, mesmo para quem não entenda ou não goste do jogo, surpreende. Golaço de Sérgio Rodrigues.

PS: Para quem, assim como o personagem Neto, não acompanha futebol e não se lembra do lance citado no primeiro parágrafo, vale a recordação: após o inusitado e mítico drible sobre o coitado do goleiro uruguaio Ladislao Mazurkiewicz, Pelé perdeu o gol. E o mundo continuou a girar em seu eixo habitual. Ou, nas palavras do autor ditas pela boca de Murilo Filho: “Pelé desafiou Deus e perdeu. Imagine se não perdesse. Se não perdesse, nunca mais que a humanidade dormia tranquila”.

O que restava daquela longa história de ódio já não era ódio, foi sua primeira conclusão, para a qual deviam contribuir as cervejas do jantar e a atmosfera irreal que tinha baixado sobre o Rocio na forma de uma neblina que o Maverick cortava com facilidade enganosa, saindo mais molhado de cada nuvem do que se atravessasse uma cachoeira. Então era o quê?

Neto sabia desde criança que Murilo era mais frio e autocentrado do que o Dr. Spock. Sabia também que à sombra frondosa de babacões brilhantes como ele nenhuma planta podia crescer direito. Quando encontrou a imagem botânica num artigo sobre criação de filhos lido na sala de espera do dentista, talvez fosse uma “Seleções”, devia ter nove ou dez anos -cedo para saber que se tratava de um clichê barato. Aquilo foi uma revelação. Passou o resto da vida sentindo pena de si mesmo, planta subdesenvolvida, pondo a culpa na sombra do pai. Agora que se aproximava dos 50 anos e Murilo ia morrer, o que sentia era mais parecido com vergonha.

O pai devia ser ainda um babacão, essas coisas não mudam fácil, mas era um babacão velho. Desde que se internara no mato não escrevia em lugar nenhum e, se escrevesse, teria pouco a dizer sobre um futebol-indústria sem nada em comum com o de sua juventude. Seus amigos e colegas tinham morrido ou se afastado, seus livros estavam todos fora de catálogo. Ninguém mais lia Murilo Filho. Aliás, quem era mesmo Murilo Filho? Só quem tinha mais de 35 anos -o que, na paisagem cultural do novo século, era quase um crime inafiançável- já ouvira falar de seu nome.

Nesse caso, o mais provável é que se recordasse primeiro da fama de reacionário, preço alto cobrado pela chancela do MEC a seus livrinhos ufanistas dos anos 1970. O homem havia deixado de ser um jequitibá frondoso para virar uma árvore seca, desfolhada e solitária. Uma árvore patética. Exatamente como você, Neto falou em voz alta, lançando um olhar para o retrovisor e rindo para disfarçar a gravidade do que dizia. Pensou no velho desenho animado em que o Esquilo Louco se encrespava diante da própria imagem toda vez que encontrava um espelho: Quem é você? O que faz aqui?

Ele sabia que se chamava Neto -não estava tão perdido assim. Sabia também que Neto não era bem um nome: era um marcador geracional, quase um número. Quem era o Neto sem o Filho? Quanto ao que fazia ali, acreditava começar a entender. Estava ali para dar a Murilo a chance de lhe pedir perdão por ter sido o pior pai do mundo e assim morrer em paz. Relutaria a princípio, mas acabaria perdoando. Então se jogariam nos braços um do outro como numa cena piegas de “Os Waltons”. Boa-noite, Murilo. Boa-noite, Neto.

Lá fora, os faróis do carro tentavam inutilmente furar a neblina densa.

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