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Miranda, a Mulher Maravilha de William Shakespeare

A inocente personagem de A Tempestade, derradeira peça do bardo, traz no próprio nome o dom de se maravilhar com a humanidade

É um Fla-Flu, ou, mais que isso, um Grenal da cultura pop. De um lado, associada à Disney, está a Marvel, gigante dos quadrinhos e do cinema que tem o Capitão América e o Homem-Aranha no seu variado e poderoso cast; de outro, temos a DC do Batman e do Super-Homem, que até agora vinha apanhando da concorrente nos cinemas mas está dando a volta por cima com Mulher Maravilha – 450 milhões na bilheteria mundial, e contando. A Marvel, que não quer ficar atrás, anuncia para 2019 seu primeiro filme protagonizado por uma super-heroína, Capitã Marvel. O nome dessa personagem não costuma ser traduzido; se o fosse, a opção óbvia seria Capitã Maravilha. E assim teríamos duas mulheres maravilha, uma delas com patente militar. O falante de inglês nem perceberá essa banalíssima coincidência porque as duas heroínas tem nomes diferentes no original. A  Mulher Maravilha é Wonder Woman, e esse wonder vem das profundezas germânicas da língua inglesa, enquanto marvel tem raiz latina em mirabilia, origem também do nosso “maravilha” e de equivalentes em outras línguas latinas.

Essa trivialíssima curiosidade etimológica me leva a uma terceira mulher, não tão “empoderada” quanto a amazona da DC ou quanto a capitã da Marvel. A filha adolescente de Prospero em A Tempestade, de Shakespeare, chama-se Miranda, nome cujas origens latinas são relacionadas àquelas que conduziram até o nosso “maravilha” (e também até “admirável”, palavrinha marcante na fala mais conhecida da personagem, e quiçá de toda a peça).

A etimologia, eu sei, é ligação demasiado débil entre a heroína de gibi e a personagem secundária de Shakespeare. Mas o blockbuster da DC foi o pretexto que encontrei para o post desta semana em Intervenção. A verdade é que, torcedor da Marvel no Grenal pop, não tenho nada de relevante a dizer sobre Mulher Maravilha, que achei meio chatinho (você encontrará considerações mais sólidas sobre o filme e sobre as razões de seu sucesso no blog de Isabela Boscov). Confesso, portanto, que a foto da realmente maravilhosa Gal Gadot só aparece acima – ao lado do grande John Gielgud e de Isabelle Pasco como Prospero e Miranda em A Última Tempestade (Prospero´s Books), de Peter Greenaway – para atrair a sua atenção, leitor cafajeste, meu irmão hipócrita.

Qualquer pretexto, afinal, é válido para falar de Shakespeare. Ou para reciclar textos antigos: os dois excertos abaixo vem (com adaptações) de um ensaio meu publicado em 2014 no número 16 da revista Amarello. O tema é Miranda, a maravilha.

 

I

A expressão foi sequestrada por Aldous Huxley: quando o leitor médio ouve falar, hoje, em “admirável mundo novo” (“brave new world”), de imediato pensa em alguma distopia tecno-eugênica. Mas o admirável mundo novo original seria, na verdade, o Velho Mundo. Seus representantes não viviam em metrópoles higienizadas e pacificadas pelo condicionamento psicobiológico, mas na suja e bagunçada Itália do início do século XVII. Naquela que é a última das peças escritas por William Shakespeare (a rigor, a última que ele terá escrito sozinho, sem um dramaturgo parceiro), cabe à jovem Miranda, criada desde a primeira infância em uma ilha isolada da civilização, exaltar em termos elevados a confusa e humilhada entourage do rei de Nápoles:

How beauteous mankind is! O brave new world,
That has such people in´t!
(Como é a bela a humanidade! Oh, admirável mundo novo,
Que tem tais pessoas nele!)

Miranda tinha apenas dois anos quando seguiu seu pai, Prospero, duque deposto de Milão, em seu exílio em uma ilha mágica do Mediterrâneo. Lá, teve contato apenas com um pai que, pode-se supor, era austero e emocionalmente frio — e além de tudo um mago de poderes quase ilimitados, capaz até de levantar os mortos — e com o deformado Caliban, criatura meio anfíbia que tentou estuprá-la. Miranda, aos 14 anos, só conhece, portanto, o super-humano e o sub-humano. Compreende-se que a moça veja tamanha beleza no grupo de nobres náufragos que se apresenta diante dela no quinto ato. Huxley apropriou-se de suas palavras com distorção irônica, mas Miranda parece demasiado inocente para a ironia. É uma adolescente de olhos infantis, descobrindo um mundo que está ali desde sempre, mas que para ela resplandece de ineditismo. Prospero responde ao entusiasmo da filha de forma lacônica: “´tis new to thee”. “É novidade para ti” — entenda-se: essa gente só é nova (e, por extensão, bela) para a ingênua garota que nada sabe de crimes velhos e feios. Estão ali, afinal, todos os que condenaram pai e filha ao exílio: Antonio, o irmão traidor que usurpou de Prospero o ducado de Milão, e Alonso, o rei de Nápoles, ativo participante da conspiração. Prospero perdoou seus malfeitos — e as razões para tal ato de despreendimento serão talvez o mistério central dessa peça cheia de mistérios —, mas certamente não os esqueceu.
Miranda, é verdade, conhece boa parte dessas tramas sórdidas. O pai lhe contou toda a história logo na segunda cena do primeiro ato, em uma passagem de caráter meio didático (o crítico canadense Northrop Frye diz que é uma cena “tecnicamente desajeitada”). Mas a menina já está apaixonada por Ferdinand, filho do rei Alonso, e não tem a disposição de alimentar ressentimentos. Ela obedece aos ditames de seu nome: etimologicamente, “Miranda” está relacionado a “maravilha” (o nome tem, aliás, a mesma raiz latina do “admirável” com que se costuma traduzir “brave” no título da ficção científica de Huxley). Miranda causa admiração — a Ferdinand, e também, obscuramente, a Caliban —, e ela mesma se admira.
Não só Miranda. Nesta peça final, o bardo não mobiliza o indisputável talento para tramar intrigas palacianas e desencontros amorosos que o espectador conheceu em Macbeth ou Sonho de uma Noite de Verão. Há só um fio de enredo aqui, e um resenhista mal-humorado talvez pudesse resumir A Tempestade a um desfile de personagens embasbacados. Miranda maravilha-se com Ferdinand, Ferdinand maravilha-se com Miranda, e o casal maravilha-se com o espetáculo mitológico que Ariel e os espíritos da ilha encenam sob as ordens de Prospero. Alonso e seu séquito encantam-se com os truques de Ariel; até os pinguços Stephano e Trinculo, responsáveis pelos esquetes cômicos da peça, maravilham-se, ou pelo menos se espantam, com o monstro Caliban; e o próprio Caliban mostra-se sensível às maravilhas musicais da ilha (“cheia de ruídos, sons e doces árias, que dão prazer e não nos ferem”), em uma das falas de mais profunda poesia na peça.


II

Decerto um dos mais indevassáveis personagens de Shakespeare, Prospero não parece se maravilhar com coisa alguma. Não poderia mesmo se surpreender com nada: é ele, afinal, o grande titereiro da peça; os seres fantásticos que povoam a ilha, com o elusivo Ariel à frente, são seus comandados. Frye observa que A Tempestade leva ao extremo o expediente da peça dentro da peça que Shakespeare empregara, de forma mais pontual, em Hamlet ou Sonho de uma Noite de Verão. Tudo o que se vê no palco é, em última instância, uma encenação de Prospero, e quando ele pede nosso aplauso, no monólogo final, estamos ouvindo um dramaturgo (o dramaturgo?) que se despede de seu público. Prospero não dá título à peça em que atua, mas A Tempestade é a sua peça. Macbeth não é a peça de Macbeth, nem Rei Lear a peça de Lear — não na mesma extensão.

Poderoso como é, Prospero, porém, não tem o poder de calar os demais personagens. Eis aí, como prova, Caliban, que aprendeu a linguagem articulada para ofender os que o ensinaram. E eis aí Miranda: o arrebatamento da menina não sai invalidado pela reticência do pai. Por um momento, ao menos, nós, leitores ou espectadores,  desejamos ver o mundo como ela vê.

Desejamos acreditar, tal como Miranda (e, por que não?, tal como a Mulher Maravilha do filme), que a humanidade merece admiração.

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