Mentirosos contumazes

Os caciques nunca falavam de modo explícito em dinheiro com os doadores justamente por saberem as implicações ilegais decorrentes das negociações

Deve-se cobrar da Justiça um ritmo mais adequado às demandas da sociedade. Disso ninguém discorda. Mas é preciso compreender também que um esquema de corrupção sistêmica montado e aperfeiçoado ao longo de três décadas não se desmonta do dia para a noite. É preciso cautela para não gerar nulidades frustrantes nem dar margem a que os envolvidos aleguem cerceamento de defesa e agressão ao devido processo legal. Já vimos esse filme no processo do mensalão quando o Supremo foi acusado de funcionar como “tribunal de exceção”. Muita gente boa abraçou a tese.

A Lava Jato não tem deixado brechas nesse aspecto, como também não tem dado folga nas investigações, com a revelação praticamente semanal quando não diária de fatos novos. Os vazamentos tão criticados têm sido todos confirmados pela divulgação oficial de depoimentos, a despeito da alegação dos acusados de que são mentiras inventadas pelos delatores interessados em entregar qualquer coisa às autoridades em busca de uma redução de danos. Como se o Ministério Público, policiais federais e juízes estivessem dispostos a engolir  lorotas em troca dos benefícios. Se mentirosos há, estão do outro lado do balcão.

Mentiram ao país anos a fio e continuam tentando convencer a população de que são inocentes, embora não se tenham visto desmentidos contundentes. Vimos, isto sim, as repetidas evasivas: toda doação foi feita de maneira legal é a mais comum. Os caciques cujas campanhas foram financiadas por dinheiro de origem suspeita (seja caixa dois ou propina) alegam que jamais trataram de valores com seus mantenedores. De fato, contavam com prepostos para isso. A própria forma de conversar com eles agora revelada em detalhes por empresários e executivos, em linguagem cifrada, evitando propositadamente falar em dinheiro de modo implícito, é o indicativo cabal de que sabiam perfeitamente quais eram as cláusulas implícitas no contrato.

Afinal, se fosse tudo legal, não teriam razão para contornar o assunto, falariam normalmente das doações, uma vez que eram permitidas por lei.

 

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  1. Rsrsrsrsr , já que essa Corrupção desembocou para a Seara dos répteis, gostaria de saber se o bando que roubou tudo , é de jacares ou de crocodilos.

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  2. Pelo visto campanhas políticas nunca foram financiadas com grana privada. Sempre com grana do povo. As empresas cobravam a mais do governo, esse a mais era dividido por 2, a campanha ficava com a metade e os caciques com a outra metade. Fico imaginando o que o Lula arrecadou para o próprio bolso se o total de doações foram mais de 450 milhões.

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  3. Jorge Mineiro

    texto conciso e de formidável clareza. Dora neste artigo você expõem toda verdade que estes canalhas tentam esconder ao utilizarem o subterfúgio de sempre. Com conivência de parte da imprensa que já está a vender-nos a ideia que caixa dois é crime de menor monta, que não vai gerar prisões. Canalhice , pura canalhice.

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  4. Paulo Bandarra

    A VEJA é incompetente com os comentários. Já devia ter colocado um sistema honesto e decente.

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  5. Jorge Iório

    A verdade e que o pais esta tendo a chance de vivenciar uma grande renovacao do quadro politico nacional com a exposicao da podridao que impera e que sempre foi a tonica de se fazer a velha politica. Temos que apostar em novos nomes de uma geracao, principalmente de empresarios bem-sucedidos como Doria e Marcelo de Carvalho que nao precisam da politica para enriquecer. Chega de politicos profissionais!

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  6. Marco Antonio Antunes

    BRILHANTE TEXTO, ENSINA O REINALDO AZEVEDO A PENSAR PARA DEPOIS ESCREVER

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  7. Alex de maveris

    artigo para imprimir e GUARDAR ! alhais,como todos os artigos da Dora !

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  8. Anônimo Paulistano

    Exatamente, todos usam e abusam do método do preposto, em linguagem popular: do laranja. Hoje, sintonizado em uma emissora da região de Ribeirão Preto, ouvi notícias sobre vários prefeitos e políticos regionais também envolvidos em falcatruas e achaques, pareceu-me que as lava jato municipais também começam a dar frutos, que se torne uma epidemia nacional, são os meus votos.

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  9. Antonio Antunes Rodrigues Junior

    Cara Dora Kramer,

    Seu texto é claro, direto. Não podemos acreditar que os líderes partidários estavam alheios aos financiamentos ilegais de campanha, e pior, deveriam saber também das contra-partidas que seriam exigidas. Assim, as eleições já estariam decididas antes do pleito. Para mim, fica claro que a fraude subverte qualquer desejo do cidadão interferir no desejo e vontade dos empresários e partidos. Apenas legitimamos um esquema.

    Mas minha pergunta interroga o papel da mídia. Seria possível que a mídia, vocês jornalistas, também estivessem alheios a esse esquema? A imprensa perdeu seu papel social de alertar a sociedade e serviu como apoio ao esquema, mantendo uma narrativa, retórica maniqueísta entre ideologias e partidos, hoje claramente escancarada como apenas cortina de fumaça… já que todos beneficiaram-se do esquema?

    Na minha opinião, uma reforma política ampla é a única solução… mas acho que a mídia e a imprensa também devem explicações aos cidadãos!

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