Canja de papagaio

A filha de D. Pedro I, que casou com um príncipe francês e foi morar em Paris, assustou os europeus ao pedir esse prato brasileiro

Os reis, imperadores, príncipes e nobres da Casa de Bragança, originária de Portugal, eram loucos por galinha. Deliciavam-se com a carne dessa ave cosmopolita, domesticada na Ásia há mais de 4.000, feia e esquisita, de pernas escamosas, andar desengonçado, bico pequeno, crista carnuda e asas curtas, mas com uma carne deliciosa. Comiam-na assada, frita, cozida ou ensopada, recheada, em pedaços, guisados, desfiada e como ingrediente enriquecedor de arrozes e sopas.

Quando falamos em galinha, referimo-nos ao grupo galiforme formado por ela, da qual fazem parte o galo, o frango ou galeto, o pinto ou pintinho. A Casa de Bragança reinou em Portugal de 1139 a 1910 e governou o Império do Brasil de 1822 a 1889, através de um ramo colateral. A ela pertenceu nosso rei D. João VI, provavelmente o mais renomado traçador de galiformes, que entre 1816 e 1822 governou o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Em um dos três volumes de “Rio Antigo”, (Editora Rio Antigo, Rio de Janeiro, 1960), o memorialista Charles Julius Dunlop conta que Sua Majestade comia três frangos no almoço, sem molho, acompanhados de fatias de pão torrado, sem manteiga. Fez isso enquanto permaneceu no Brasil, entre os anos de 1808 e 1821, à frente da corte lusitana que escapou das tropas de Napoleão Bonaparte. À tarde, depois de um passeio pela cidade na carruagem real, D. João VI repetia o cardápio. Na merenda, voltava a comer três frangos, conforme Dunlop. Como todos os Bragança, porém, apreciava galinha preparada de todos os jeitos.

No Rio de Janeiro, a predileção do soberano indiretamente responsável pela independência do Brasil, ao patrocinar os melhoramentos que a viabilizaram, causou transtornos públicos. Os comerciantes reclamaram que a mantearia (casa onde se guarda tudo o que pertence à mesa real) e a ucharia (despensa, especialmente para carnes) arrematavam todos os galiformes disponíveis na cidade e prejudicavam o abastecimento dos demais fregueses. Mas, ao fazerem a crítica, não levavam em conta que a Casa Real também destinava as aves ao consumo dos criados e soldados a seu serviço, bem como às ordens religiosas, orfanatos, asilos e hospitais.

A predileção dos Bragança pela galinha valia até como prova de DNA. Quem não apreciava sua carne, ficava sob suspeita de não ser um puro-sangue. Foi o que aconteceu com D. Miguel I, rei de Portugal e Algarves entre 1828 e 1834, filho de D. João VI com a infanta espanhola D. Carlota Joaquina de Bourbon e irmão mais novo do imperador Pedro I do Brasil. Em 1802, o jornal inglês “London Observer” escandalizou a Europa com uma notícia referente ao seu nascimento. Afirmou que D. João VI não se considerava pai da criança, pois estava separado há dois anos da mulher, aliás vivendo em outro palácio. Não por acaso, Dom Miguel I não seria fã de galinha.

Essa história maledicente, difícil de comprovar, corria na boca do povo. Cochichava-se que cinco dos nove rebentos de D. João VI com D. Carlota Joaquina, entre os quais D. Miguel I, não eram filhos dele. Uma das quatro exceções seria Dom Pedro I. Aliás, D. João VI demonstrava carinho paternal por ele. Embora a dieta quotidiana de D. Miguel I, filho predileto de D. Carlota Joaquina, incluísse carne de galinha, ele não a apreciaria.

D. Miguel I comeria a ave somente por ter uma carne julgada imprescindível na prevenção das doenças, sobretudo da temida tuberculose, conhecida por tísica pulmonar, e também na dieta dos convalescentes e das parturientes. Portanto, o povo suspeitava que ele não era um Bragança. Para completar, parecia-se mais com a mãe, oriunda da Casa Real de Bourbon, fundada no centro da França, que ocupou o trono da sua Espanha e de outros lugares. Paradoxalmente, D. Miguel I era moço bonito e D. Carlota Joaquina muito feia. Chamava atenção pelo queixo grande, olhos pequenos, nariz avermelhado, dentes péssimos, pele grossa, temperamento difícil “e os impulsos do sexo alvoroçados”.

Coincidentemente, o prato obrigatório no cardápio dos Bragança era a canja, nem sempre de galinha. Tratava-se de comfort food, aquela comida capaz de nos remeter à infância e resgatar a memória gustativa. D. Pedro II, que a tomava inclusive quando ia ao teatro, entre o segundo e o terceiro ato, preferia a de macuco. Na falta, ia de jacu ou jacutinga. Já a sua irmã, D. Francisca de Bragança, também filha de D. Pedro I e da arquiduquesa austríaca D. Maria Leopoldina, apreciava a de papagaio.

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Seu gosto exótico assustou os europeus. Ela solicitou a preparação pouco antes de desembarcar em 1843 da fragata La Belle Poule, no porto de Brest, costa da Bretanha, depois de casar no Rio de Janeiro com Francisco Fernando Filipe de Orléans (1818-1900), Príncipe de Joinville, filho de Luís Filipe I, soberano do país onde foi viver – e se tornando, portanto, Princesa Consorte de Joinville. Como sentia frio a bordo, queria se aquecer “com um remédio da terra natal”. Os europeus já conheciam o papagaio, ave nativa do Brasil, Bolívia e norte da Argentina, famosa pela capacidade de aprender a falar como o ser humano. Sabiam ser de animal estimação e não lhes passava pela cabeça levá-la à panela.

A propósito do casamento de D. Francisca de Bragança, só os interesses políticos e diplomáticos explicam o enorme dote dela, oferecido pelo Brasil. Segundo o contrato nupcial, levou para a França, onde fixou residência, “um milhão de dinheiro em espécie, 150.000 francos de renda sobre 6% do tesouro brasileiro e vinte e cinco léguas quadradas nas férteis planícies da província de Santa Catarina”. Tratava-se de um dote muito superior ao habitual na época. Mais tarde, com dificuldades financeiras, o casal negociou a propriedade catarinense com a Companhia Colonizadora Alemã, que fundou a Colônia Dona Francisca, onde surgiu a importante cidade de Joinville.

D. Francisca de Bragança era uma moça alegre, descontraída, brincalhona e adorava se comportar de maneira divertida. Certa vez, tomou a refeição ao contrário: primeiro o café, depois os doces e finalmente uma costeleta. Entretanto, a Canja de Papagaio foi um pedido sincero. Trouxeram-lhe Soupe au Poulet et Riz, ou seja, feita com frango, arroz, um molho no qual entram manteiga, farinha de trigo, gema de ovos e creme de leite. Enfim, uma preparação aparentada com a Canja Brasileira, mas em grau distante.

Com o passar do tempo, os franceses esqueceram da esquisita Canja de Papagaio e se renderam à D, Francisca de Bragança, que os conquistou pela ousadia e espontaneidade. Ganhou inclusive o “petit nom” de “Belle Françoise”, correspondente ao apelido de “Bela Chica”, recebido em família, no Rio de Janeiro natal. O Barão de Langsdorff, embaixador que o rei Luís Filipe I encarregou de articular o casamento do filho no Brasil, descreveu-a favoravelmente em carta enviada à futura sogra da moça.

“A princesa é alta e muito elegante; a sua expressão é amável e a vivacidade da sua fisionomia nada fica a dever à sua dignidade”, afirmou. “A princesa tem cabelos louros, olhos muito escuros e ligeiramente afastados, e um olhar muito agradável. A sua fronte talvez seja proeminente em demasia, mas toda a parte inferior do rosto e da boca possui uma impressão sedutora”. Isso está documentado no livro “Diário da Viagem de D. Francisca de Bragança” (Alétheia Editores, Lisboa, 2006), sobre a mudança da princesa para a França, escrito pela Baronesa de Langsdorff, que a acompanhou na viagem como dama de companhia.

D, Francisca de Bragança adorava sopas. Seu sogro e sogra demonstravam o mesmo gosto. No inverno ou no verão, era prato obrigatório no jantar privado da família real francesa, servido entre as 16 e 17 horas. Precediam todos os outros, junto com as entradas quentes ou frias. Acredita-se que a princesa introduziu ali a Canja Brasileira. O príncipe acompanhava a mulher nessa afeição gastronômica e em muitas outras atividades.

A autora do “Diário da Viagem de D. Francisca de Bragança” testemunhou a grande identidade entre ambos. O casal se divertia bastante na França. Pela manhã, galopava no Bois de Boulogne, o conhecido parque público de Paris. À noite, ao contrário da maioria dos integrantes da família real, ia aos cafés, restaurantes e teatros da capital do país. Bom aquarelista, o príncipe retratou a mulher montada a cavalo. Os príncipes de Joiville tiveram um casal de filhos e, como nos contos de fadas, foram felizes para sempre, mesmo sem a Canja de Papagaio.

NOTA: Não publicamos receita da Canja de Papagaio por tratar-se de animal protegido pela legislação brasileira, ficando o infrator sujeito à lei de crimes ambientais (Lei 9605 de 12 de fevereiro de 1998). A simples posse dessa ave se encontra regulamentada. É permitida desde que o papagaio venha de criadouros autorizados pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), com a necessária documentação de origem.

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