Tancredo Neves, lição n° 1: “Fazer visita é bem melhor que ser visitado”

O senador Tancredo Neves batia todo fim de tarde na porta do apartamento do deputado  Thales Ramalho em Brasília. Eram sempre três batidas compassadas, sempre na porta dos fundos. Embora imobilizado numa cadeira de rodas desde o acidente automobilístico sofrido em 1976, Thales fazia questão de atender pessoalmente à chamada em código. E então Tancredo perguntava se havia mais alguém […]

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O senador Tancredo Neves batia todo fim de tarde na porta do apartamento do deputado  Thales Ramalho em Brasília. Eram sempre três batidas compassadas, sempre na porta dos fundos. Embora imobilizado numa cadeira de rodas desde o acidente automobilístico sofrido em 1976, Thales fazia questão de atender pessoalmente à chamada em código. E então Tancredo perguntava se havia mais alguém por lá.

Quase sempre havia: forçado a evitar deslocamentos cada vez mais dolorosos, o secretário-geral do MDB acabou transformando o apartamento 101, Bloco D, SQS 302 numa extensão do gabinete no Congresso. Levemente contrariado, o senador mineiro pedia a relação dos presentes. Se nenhum dos nomes lhe causasse desconforto, juntava-se à conversa por duas doses de uísque com gelo e menos de meia hora.  Tancredo sempre tinha pressa.

Tinha tempo de sobra se podia conspirar longe de testemunhas com o parceiro de quem se tornara amigo quando frequentavam a escola do velho PSD. Nascido na Paraíba, adotado pelos eleitores de Pernambuco, Thales era deputado federal desde 1967. No outono de 1979, o discípulo e o mestre tocavam de ouvido.

─ Tancredo acabou de sair ─ soube ao entrar no começo da noite na sala onde o anfitrião acariciava um copo de uísque.  ─ Conversamos quase duas horas ─ deu outro gole.

Thales bebia bem, sobretudo depois do encerramento de outra maratona de conversas vespertinas.  A agenda andava carregada, assunto era o que não faltava. Um ano e tanto, aquele. O AI-5 foi revogado no dia 1° de janeiro. Em 15 de março, o general João Figueiredo assumiu a presidência da República disposto a concluir o processo de abertura política iniciado no governo Ernesto Geisel. Eram iminentes a decretação da anistia e a volta do sistema pluripartidário. Qual desses temas teria deixado a dupla mais excitada? Nenhum deles, surpreendeu-me a informação seguinte:

─ Aprendi mais uma com Tancredo: fazer visita é bem melhor que ser visitado.

Thales então reproduziu a aula desde o começo. O senador, explicou, só tinha conseguido encontrá-lo sozinho na terceira tentativa. Dois dias antes, não passou da soleira porque havia muita gente na sala, que continuava cheia de gente na véspera. Ficou vazia no meio daquela tarde.

─ Até que enfim ─ suspirou Tancredo enquanto se acomodava no sofá. ─ Está ficando cada vez mais complicado conversar aqui. Você precisa aprender a visitar mais e receber menos visitas.

─ Eles telefonam e avisam que estão a caminho ─ explicou Thales. ─ Não posso fazer nada.

─ Pode. Quando alguém diz que quer vir à minha casa, vou logo dizendo que faço questão de homenageá-lo com a minha visita. Se estiver a caminho, peço que volte.

Faz sentido, pensou Thales.

─ Fazer visita só tem vantagens ─ continuou a aula. ─ Quem vai à casa de alguém come a comida do dono, bebe a bebida do dono e, melhor que tudo, escolhe a hora de ir embora. A pior coisa do mundo é aguentar visita que fica duas horas além da conta.

Faz sentido, achou Thales outra vez. Mas havia um problema: se passava todo o tempo numa cadeira de rodas, como poderia desandar a fazer visitas?

─ Deixe sempre muito claro que você tem essas dificuldades todas ─ liquidou a questão Tancredo Neves. ─  Além de feliz com a visita, o visitado vai ficar muito comovido.

Comentários
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  1. Comentado por:

    MARCO LOSS

    Pequena correção, q não muda nada a ‘magna aula’: Thales foi deputado federal desde 67.
    Abços.

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  2. Comentado por:

    Augusto Nunes

    Gratíssimo, caro Marco. Vou corrigir imediatamente.
    abraço,

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  3. Comentado por:

    f tavares

    posso imaginar as reações à reportagem sobre o presidente tancredo. não tenho procuração pra afirmar isso, mas será ótimo se entendermos a picardia do político mineiro de antigamente, como uma lição de vida, de história contemporânea, de boas maneiras, de sagacidade. conhecia como ninguém as malandragens da política e seus personagens, um leão de um metro e sessenta que não se deixava levar na conversa, sabia como se proteger das pressões e foi um player vencedor no jogo político. ninguém pode negar ao velhinho o mérito de ter sido sempre parte da solução, e não do problema.

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  4. Comentado por:

    Augusto Nunes

    De pleno acordo, caro F Tavares. Contei o caso que ouvi do Thales Ramalho para mostrar a sagacidade do Tancredo. Ele tinha incontáveis qualidades, como pretendo deixar claro nos próximos textos. Merece ser lembrado com respeito e admiração.
    um abraço.

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  5. Comentado por:

    José Rubenildo

    É sempre muito gratificante ler sobre o nosso Tancredo Neves. Minas Gerais se orgulha muito de sua vida política. A lição de sagacidade de Tacredo estimula ainda hoje muitos “novos” políticos, que ostentam aquela sua esperança no desenvolvimento e crecsimento do Brasil. Excelente trabalho esse de exaltar a figura de pessoas que tiveram importante papel na história do Brasil.

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  6. Comentado por:

    Marco Silva

    O Baú de Presidentes é talvez a leitura mais leve e gostosa que podemos encontrar na internet.
    Esse lado de mais divertido da política, com os bastidores do poder é interessantíssimo. E, claro, várias vezes engraçado.
    Para mim, este pedacinho do blog é tão bom quanto o Direto ao Ponto. Claro, cada um em seu objetivo.

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  7. Comentado por:

    Vanderlei Simionatto

    Augusto, essas conversas são bastante interessantes. Os bastidores é que de fato interessam. Pesquise, confirme ou desminta. Consta que Ulysses, ao encontrar dois amigos conversando em voz muito baixa, quase que susurrando, perguntou se era confidencial. A negativa provocou uma resposta engraçada: então não interessa.
    Quando a gente lembra do Congresso Nacional, onde Tancredo, Ulysses, Montoro e tantos outros líderes de todas as tendências transitavam, reuniam, concordavam, discordavam, debatiam, disputavam, e vê hoje, Mùcio, Renan, Sarney, Collor, Mercandante, Ideli, Jucá, Wellington, Paulo Duque, Gin Argelo e… …. …., dá vontade de vomitar. Nem o Fluminense foi tão rebaixado quando caiu para a série C. Será que um dia vamos dar a volta por cima? Voltar para a série A? Espero que a saída de Lula e o desmanche da quadrilha que o cerca possa proporcionar a realização desse sonho. Prefiro mil Tancredos regados a uísque que um Lula a cachaça.

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  8. Comentado por:

    Flavio Guarniero

    Caro Augusto,
    Gostaria de saber se procede a informação,contada por Tancredo,que ele mandou o neto Aécio Neves,entrar para a política porque era vagabundo.Só queria pegar praia,surfar,etc.Dizem que essa declaração foi dada numa entrevista ao Roberto D*avila,no programa Conexão Nacional.Procede?

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  9. Comentado por:

    PAULO BOCCATO

    ÔRRAAAAAAAAAAAAAA AUGUSTOOOOOOOOOOO !!!!
    QUANDO TÚ VAI CONTAR AQUELA DO JANIO E DO BARBUDO GASTONE RIGHI QUE TRAVOU UM DUELO PELA “ALMA” DO JANIO ?
    BAITA ABRAÇO AQUI DA ROÇA !
    PAULO BOCCATO

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  10. Comentado por:

    Augusto Nunes

    Grande Paulo: contei a história na série de quatro textos sobre o Jânio. Vá até o começo do Baú de Presidentes, confira e não deixe de dizer o que achou.
    um abraço.

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  11. Comentado por:

    PAULO BOCCATO

    CABEI DE VER !
    SORRY PELA FALTA…
    AINDA DOU MUITAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAS RISADAS COM ESTA HISTORIA !!
    BAÚ DE PRESIDENTES É UM BARATO !!
    MOSTRA QUE SÃO GENTE DE CARNE E OSSO…TÊM DE DOR DE BARRIGA, VAO AO BANHEIRO, BRIGAM COM A PATROA,BLÁ-BLÁ-BLÁ…
    DESCULPE PELA FALHA E CONTINUE COM O BAU POR FAVOR !
    TEM MUITA HISTORIA BOA AÍ…

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  12. Comentado por:

    Augusto Nunes

    Beleza, amigo.
    abração.

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  13. Comentado por:

    FERNANDO

    Parabéns pelo texto!!!.

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  14. Comentado por:

    Cibele Pitangueiras

    Meu avô foi amigo de Tancredo Neves e ele sempre me dizia que muito melhor que o político era o ser humano: justo, lúcido, sábio como poucos. Parabéns pelo lindo artigo.

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  15. Comentado por:

    Francisca Cardoso

    Que bom saber que teremos outra bela saga pela frente.
    Estava ansiosa pelo novo capítulo. Adorei.
    Abração.

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  16. Comentado por:

    francisco

    Concordo com a xará: a gente estava merecendo uma nova série de coisa boa para curtir. Às vezes é bom dar um refresco nestes collors,lullas,procuradores,sarneys,renans,etc…
    Por oportuno,não vá divulgar uma série de algum dos citados acima.Por favor.

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  17. Comentado por:

    VÍRUS (PARA CAUSA JUSTA)

    FORA SARNEY! FORA SARNEY! FORA SARNEY!

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  18. Comentado por:

    Neusa

    A “morte matada” de Tancredo Neves em 1985 trouxe um momento trágico para a história do Brasil pelo qual pagamos até hoje! Só acredita em “diverticulite” quem também crê nas urnas eletrönicas.

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  19. Comentado por:

    Marcos F

    Grande aula. Peço ao neto que a siga sempre.

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  20. Comentado por:

    Zizi Cat

    Talvez, Tancredo não conseguisse por em ação seus planos para o paíz; contudo, ao menos o livraria do rumo nefasto que tomou com essa esquerda exdrúchula que tomou posse dele! Eu teria preferido que Deus fosse um pouquinho mais brasileiro mantendo-o vivo naquela conjuntura. Espero que nos livrar desse tal PT não se resuma a tarefa de Sísifo.

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  21. Comentado por:

    Eliana G Simonassi

    O nosso Tancredo.Ficou na história como um líder. contudo deixou um neto que poderia responder muito pelo povo caso os ignorantes deixassem-no. Continue com esse trabalho. Vamos buscar o bom.

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  22. Comentado por:

    • Tania

    Baú de Presentes para nós, leitores!
    Augusto Nunes, tempo especial para relembrar Tancredo: já tinha lido esse, mas não me lembrava mais do enredo todo… que histórias você vive, e que histórias você viveu.

    Em viagens circunstanciais a Brasília (nada com política, anos de 1990), meu enquadradíssimo endereço temporário – sob um olhar acostumado ao caos paulistano – ficava a SQS “202”: vista interessante. Abraço, Tania.

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  23. Comentado por:

    Novocredo

    G E N I A L

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  24. Comentado por:

    tutti

    Que saudade de gente civilizada e inteligente.

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  25. Comentado por:

    Alex Morato

    Augusto, boa noite.
    Consultando meus antigos arquivos, verifiquei que Thales Ramalho nasceu em João Pessoa, era portanto paraibano e não potiguar como mencionado em seu artigo. Estarei enganado ?
    No demais, excelente texto, como sempre.

    Obrigado pela informação, amigo. Acabei de corrigir o erro. abração.

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