Lya Luft: O sentido das coisas

Uma esplêndida crônica da escritora Lya Luft publicada em sua coluna na edição 2437 de VEJA, respondeu com uma semana de antecedência aos embustes e provocações empilhados no programa partidário do PT. Não deixe de ler. (AN) LYA LUFT Sempre procurei, tantas vezes em vão, encontrar o significado de tudo. Por exemplo, por que há […]

Uma esplêndida crônica da escritora Lya Luft publicada em sua coluna na edição 2437 de VEJA, respondeu com uma semana de antecedência aos embustes e provocações empilhados no programa partidário do PT. Não deixe de ler. (AN)

LYA LUFT

Sempre procurei, tantas vezes em vão, encontrar o significado de tudo. Por exemplo, por que há pessoas boas e más, por que as pessoas boas fazem coisas más e vice-versa, por que entre pessoas que se querem bem pode haver frieza ou até maldade, por que… lista infindável, ainda mais para quem tem um pouco de imaginação. A cada momento reinventamos o mundo, reinventamos a nós mesmos, reinventamos nossos afetos para que seja tudo menos doloroso.

Escrevendo sobre a situação do Brasil um pequeno livro que deve aparecer em breve, observo ainda mais intensamente o que acontece, tanta coisa inacreditável, mas real. Assim reflito quase constantemente sobre todas as loucuras, baixezas, perigos, sustos, desalentos atuais, aqui e ali uma luzinha minúscula que logo bruxuleia. Vai se apagar para sempre? Nada é para sempre. As coisas más, as fases ruins, também hão de passar. Mas, no momento, não sou otimista. Falsidade, mentiras, arzinho superior e palavras fantasiosas sobre questões fundamentais, apontar o dedo para o adversário, tudo é pior do que a dura verdade. Assustam-me discursos com que neste momento dramático alguns negam ou diminuem a gravidade da situação, revelando-se o desvio de inacreditáveis fortunas que deveriam atender o povo mais carente, a maior vítima desse desastre, um povo despossuído, sem as coisas essenciais que lhe têm sido negadas ─ não por uma fatalidade, mas por ganância de quem já tinha uma boa fortuna, mas queria mais, e mais.

Hoje, os acusados reagem com ironias, amea­ças, invenções: mas fizeram de nós um dos piores países do mundo em quase tudo, sobretudo educação e segurança. Ninguém assume sua responsabilidade, antes critica adversários ou países mais adiantados, como se fôssemos todos uns pobres crédulos. Começamos a perceber o que se passa no nevoento território da política que fragilizou a economia, e é cenário de tão grave incompetência e irresponsabilidade. Na grande negociata nunca vista, quase todos tinham seu preço: não foi barato. Pouco sobrou para o brasileiro que ignorava esses fatos que atingiram seu bolso, sua esperança e suas possibilidades de uma vida decente.

A política influenciou e dominou nossa existência nos últimos anos, com gestão incompetente, péssimo planejamento, desorganização nas contas públicas, maquiagem do desastre que foi escondido de um povo mal informado porque mal escolarizado (não é por acaso que negligenciamos tanto a educação). A pátria-mãe desvia o rosto; nós, os filhos, largados na floresta como num conto de fadas sinistro. Os próprios investigadores das gigantescas fraudes, impressionados, admitem estar diante de tramas de dimensão e sofisticação nunca vistas.

A paisagem brasileira está de pernas para o ar: nada faz muito sentido, tamanho o escândalo. Para começar, os salários com que tentamos manter uma vida honrada são patéticos diante das cifras roubadas, apresentadas pelos competentes e corajosos investigadores. Irresponsabilidade e incompetência comandaram as façanhas que esfacelaram o país, agora rebatizadas de “malfeitos”. Espantoso: os desvios não eram efetuados por bandidos oficiais, mas por grandes empresários que admitem, talvez forçados pelo medo, que, se não tivessem entrado no esquema de corrupção e pagado as irreais propinas, suas companhias teriam ficado “de fora” da roda dos mafiosos, prejudicando seus acionistas e trabalhadores. Quase todos afirmam com veemência que de nada sabiam: viviam em outro planeta. Não saber de nada passou a ser um triste refrão.

Os investigados, denunciados e presos continuam protestando contra tamanha maldade: todos vítimas do lobo mau da Justiça. Seus defensores encenam uma ópera-bufa de delirantes explicações: roubalheira mascarada de comportamento legal, nos parâmetros da decência. Se essas ficções patéticas fizessem sentido, nunca teria havido tantos inocentes no mundo: as elites e os estrangeiros seriam os culpados. Essa farsa acabou: não há desculpa perante uma nação ferida.

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  1. Comentado por:

    • Tania

    ‘Cultura não é aquilo que entra pelos olhos,
    é o que modifica seu olhar.’ José Paulo Paes.
    ·
    Esplêndida mesmo — O sentido das coisas, de Lya Luft:
    A política influenciou e dominou nossa existência nos últimos anos, com gestão incompetente, péssimo planejamento, desorganização nas contas públicas, maquiagem do desastre que foi escondido de um povo mal informado porque mal escolarizado (não é por acaso que negligenciamos tanto a educação). A pátria-mãe desvia o rosto; nós, os filhos, largados na floresta como num conto de fadas sinistro. Os próprios investigadores das gigantescas fraudes, impressionados, admitem estar diante de tramas de dimensão e sofisticação nunca vistas.

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  2. Comentado por:

    Caio Mendes

    Tudo depende do quanto se pode aceitar e o que ultrapassa este limite. Quanto ao limite, isso vai depender de fatores culturais e intelectuais, em que pese a formação moral, religiosa ou ideológica de cada cidadão. O conjunto destes indivíduos formando uma sociedade vai determinar o tipo de governante e políticos sobressairão e serão vitoriosos. Parece óbvio que quanto mais ignorante é o tecido social, menor a qualidade dos vencedores e pior será a eficiência de seu trabalho. Somos um povo que não sabe cobrar de seus políticos o que é de sua total responsabilidade. Quem chama a atenção de alguém que jogue lixo no chão, mesmo estando perto de uma lata de lixo? Alguns, mas o que vai determinar a prevalência deste procedimento em um determinado local é o limite de aceitação deste procedimento. Quantos contariam ao patrão ou coisa parecida que seu colega furta coisas do local de trabalho? Menos ou mais do que os que chamariam atenção quanto ao lixo? Depende do quanto este indivíduo está disposto a se indispor por uma causa. Neste caso, esta conta pode não variar muito. Para melhorar esta conta precisamos acabar com anos de desleixo no ensino infantil, fundamental e médio. Não adianta Fies e cotas para ensinar na faculdade o que não se aprendeu em 15 ou mais anos de ensino deficiente. Ensino de qualidade e disciplinado onde o professor se impõe pelo conhecimento e o aluno que não se enquadre, recebe tratamento condicente e separado dos que querem aprender. Não com maus tratos, mas recebendo um regime disciplinar diferenciado até que se enquadre e possa se juntar aos que querem aprender. Quanto mais preparados são os cidadãos de um país, mais claros e melhores são este limites que a própria sociedade imporá a quem deterá as rédeas do destino da nação. Melhores e mais verdadeiras serão suas instituições, mais inteligente e eficiente será o resultado de seu trabalho.

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  3. Comentado por:

    Paulo Roberto da Silva

    Sem palavras, apenas um simples elogio. A alma e a esperança com essas palavras, tornam-se mais pura.
    Lya, ao lado da sua crônica, nesta página, uma charge, uma japonesinha, correndo dos monstros .
    Dia 16 neles, Minha Senhora, sem medo .
    VENHAM PARA RUA É O ÚNICO MODO DE SALVAR O BRASIL!

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  4. Comentado por:

    Luisa

    Sensível e tocante texto,como sempre que Lya Luft escreve sobre a vida e a política.
    Porque vida e politica se confundem.
    É tão claro e transparente o que diz,que nos perguntamos como alguém ainda defende este estado de coisas.
    Como pode uma imprensa,que se diz democrática,compactuar com tudo isso?
    Como pode uma Rede Globo,não perceber que esta remando contra a maré?
    Um Jô Soares,que se mostra oportunista e falso e tantos outros que teriam uma biografia a honrar,serem coniventes e/ ou omissos numa hora em o país está afundando e os que não dispõe nem de uma bóia,pedem socorro?
    Triste país que tem como representantes pessoas tão alienadas,egoístas,para dizer o mínimo.

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  5. Comentado por:

    Chico

    Grande texto da Escritora LYA LUFT, corajosa nos dias de hoje, onde escritorezinhos como fernando verissímo, fernando moraes, chico buarque entre outros, se reduzem a cafajestada do poder. FORA dilma, FORA lula, FORA partido dos trabalhadores (quadrilha). IMPEACHMENT JÁ!

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  6. Comentado por:

    Heitor

    É muito bom ler um texto leve forte como este de Lya Luft.
    No entanto, percebemos o quanto é grave a situação de nosso querido Brasil. Não bastará defenestrarmos a quadrilhar que está atualmente no poder. Precisaremos muito mais. Precisaremos repensar o nosso país com base em outros valores que não esses que estão postos hoje no tabuleiro de xadrez do poder. Não tenho a pretensão de indicar o caminho a seguir, mas uma trilha segura com certeza começa pela educação de melhor qualidade e de caráter universal.

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  7. Comentado por:

    Lauro

    O “não saber de nada” a turma aprendeu com o seu Mestre maior. Lá no ido começo do mensalão ele repetia “não sei de nada”. Como afirmava nas entrevistas: “Não existe mensalão…” O texto de Lya Luft faz uma rica radiografia sobre a preocupante situação brasileira, onde um determinado partido se apoderou das estatais como se fossem propriedade sua. A pergunta é: Por que não prenderam ainda o Mestre?

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  8. Comentado por:

    Silvio

    O duro de tudo isso é que não fazemos nada. Estamos vendo tudo e eles continuam no poder, continuam roubando. Deveriamos exigir a saída do poder imediatamente, Dilma, Cunha e Renam

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  9. Comentado por:

    Raimundo Bahia Alves

    Muito interessante essa coluna de Augusto Nunes, por retratar as boas e más ações de diversos personagens dos porões do poder público e fora do poder, que muito contribui para chamar a atenção para o momento bastante conturbado e de tesão política vividos nos dias atuais.

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  10. Comentado por:

    junior blazzi

    Porque a Lya Luft não está escrevendo mais na revista veja?? Ela está doente?? Ela e o J.R. Guzzo são os colunista que eu mais gostava de ler.
    Os dois continuam, caro Junior. abração

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