João Goulart: Bom coadjuvante, mau protagonista

TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA Augusto Nunes Os três únicos brasileiros que assumiram a Presidência depois da República Velha sem ter completado 50 anos não chegaram ao fim do mandato. Jânio Quadros (44), um assombroso fenômeno regional que nunca havia visitado o Palácio do Planalto nem dormira mais que duas noites na […]

TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO DE VEJA DESTA SEMANA

Augusto Nunes

Os três únicos brasileiros que assumiram a Presidência depois da República Velha sem ter completado 50 anos não chegaram ao fim do mandato. Jânio Quadros (44), um assombroso fenômeno regional que nunca havia visitado o Palácio do Planalto nem dormira mais que duas noites na nova capital, imaginou que o Distrito Federal fosse São Paulo em miniatura. Rompido com a maioria do Congresso, renunciou no sétimo mês de governo. Fernando Collor (40) imaginou que Brasília fosse uma grande Alagoas. Ampliou o patrimônio sem cautelas, virou as costas ao Legislativo e foi despejado pelo impeachment dois anos e meio depois da posse. A terceira vítima da maldição dos 40 não exibe qualquer semelhança com os companheiros de infortúnio, demonstra o historiador e pesquisador Jorge Ferreira em João Goulart – Uma biografia (Editora Civilização Brasileira; 713 páginas; R$ 69).

Jânio e Collor cediam a impulsos juvenis, tinham muita pressa e nenhuma intimidade com o poder central. Em setembro de 1961, quando substituiu o único chefe de governo que abandonou o emprego voluntariamente, João Goulart tinha apenas 43 anos. Mas também tinha muita paciência, tornara-se um ótimo ouvinte, assimilara a arte da conciliação, pensava demoradamente antes de agir e se movia com desembaraço no Olimpo federal. Veterano de muitas guerras, o gaúcho quarentão compreendeu já no dia da renúncia de Jânio que a mais feroz de todas acabara de começar. E achou que estava pronto para vencê-la.

Como ressalta Jorge Ferreira, Goulart emergiu do anonimato ainda na década de 50, quando o jovem fazendeiro se tornou confidente, depois pupilo predileto e enfim o principal herdeiro de Getúlio Vargas, o ex-ditador desterrado na estância do Itu, no Rio Grande do Sul, desde a implosão do Estado Novo. Para sempre associado ao mito que governou o país por quase 20 anos, e continuou influenciando poderosamente o comportamento do eleitorado por mais 10, Jango elegeu-se deputado estadual, secretário de Estado, deputado federal, ministro do Trabalho e duas vezes vice-presidente da República. “João Goulart se formou em Direito e, sobretudo, em política brasileira, pelas mãos de Vargas”, lembra Jorge Ferreira. O aluno aplicadíssimo aprendeu muito. Mas há o que não se aprende em lugar nenhum. Carisma, por exemplo, é marca de nascença. E a centelha que identifica o líder de massas não é uma graça alcançada. É uma escolha do destino

A narrativa de Jorge Ferreira permite acompanhar a centímetros de distância a trajetória percorrida por Jango desde a infância em São Borja até a morte na fazenda na Argentina, ao lado de Maria Thereza ─ a mais jovem, bela e injuriada das primeiras-damas. As mais de 700 páginas também escancaram as virtudes e os defeitos de Jango. Embora não oculte a simpatia pelo biografado, o autor não sonega aos leitores os equívocos e escorregões que acabaram por transformar o governo João Goulart no caminho mais curto para a ditadura militar. Incomodado com a “condenação ao esquecimento” que teria sido imposta ao seu personagem pelos historiadores, Ferreira às vezes se entrega à tentação de incluí-lo na rarefeita galeria dos estadistas. Mas o conjunto das informações reunidas no livro se encarrega de corrigir exageros. Se não foi o arquiteto da república comuno-sindicalista satanizada pelos militares ultraconservadores, nem o burguês que, aos olhos da esquerda primitiva, mascarava com jogadas demagógicas a cumplicidade com o Brasil conservador, Jango tampouco foi uma reedição remoçada de Getúlio Vargas.

Corretamente, Ferreira argumenta que não se pode tratar como um populista sem qualidades o herdeiro indiscutível do maior político brasileiro do século 20. Vale ressalvar, contudo, que o legado incluiu os ódios represados entre agosto de 1954, quando Getúlio se suicidou no penúltimo ano de mandato, e março de 1964, quando os militares tomaram o poder. E não custa registrar as diferenças que separam o mestre do discípulo. Getúlio nasceu para o papel principal. Jango foi sempre um grande coadjuvante. As festejadas performances em papeis secundários, aliás, podem tê-lo desqualificado para encarnar o protagonista. Ministro do Trabalho de Getúlio, por exemplo, ganhou força entre os sindicalistas ao garantir um aumento de 100% no salário mínimo. Em contrapartida, jamais se livraria da suspeita de flertar com comunistas.

Em 25 de agosto de 1961, o almirante Sylvio Heck, ministro da Marinha de Jânio, certamente pensava no ex-ministro do Trabalho ao resumir para Jânio o pensamento das Forças Armadas: “Nós levamos tanto tempo para tirar essa gente do poder. Como é que o senhor vai entregar-lhes novamente o governo? ” ‘Essa gente”, confirmou o tom depreciativo, era a grande seita getulista em geral e, em particular, João Belchior Marques Goulart, promovido a cardeal depois da morte do seu único deus. “Eu tinha certeza que os militares não aceitariam Jango”, contou muitos anos depois. Ninguém podia então adivinhar, no momento da renúncia, que a instituição do regime parlamentarista adiaria por dois anos e meio o desfecho do drama, narrado pormenorizadamente nos capítulos reservados à agonia do regime democrático.

Essas páginas contribuem para transformar João Goulart – Uma biografia em leitura indispensável aos interessados em compreender aqueles tempos crispados ─ e descobrir por que, como a mudança das estações, a queda era inevitável. É compreensível que se tenha consumado sem resistência. Jango nunca olhava as pessoas nos olhos. Desafiado pelas tropas insubordinadas, não quis contemplar o olho do furacão.

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  1. Comentado por:

    maria-maria

    Estranha personagem, parecendo sempre deslocado e influenciável. Estancieiro, flertava com o comunismo de modo um tanto aéreo. Teria noção do que representava esse regime de força?

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  2. Comentado por:

    Klaus Schneider

    Espero que esse livro retrate a realidade e nao aquele documentario ridiculo feito pelo Silvio Tendler que amou glamourizar o esquerdismo.

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  3. Comentado por:

    Luis R N Ferreira

    A História sempre requer periódicas reavaliações, mas acho que é consenso que o herdeiro de Getúlio Vargas estava longe de possuir os predicados necessários para dar continuidade a um legado tão forte. As transformações modernizadoras do Estado brasileiro do período Vargas só foram levadas a efeito pela força intrínseca do personagem. Jango não possuía esta característica pessoal e a continuidade da modernização proposta por ele e representada em boa parte pelas reformas de base se tornou impossível. Vistas sob o prisma atual, as tais reformas nada tem de assustadoras e em grande parte já estão assentadas em nossa atual legislação, mas para o conservadorismo da época era o comunismo pagão descrito em todos os seus artigos.
    Pagou um preço pessoal alto demais e de que ele não era merecedor, mas mesmo com todos os seus defeitos foi um estadista se comparado com muitos que vieram depois.

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  4. Comentado por:

    Pedro Luiz Moreira Lima

    Augusto Nunes:
    Não sei em que edição publicou a Veja MAS PUBLICOU! a popularidade do Gov de João Goulart em abril/1964 – 80% de popularidade pelo IBOPE.Com essa aprovação popular 80% era MAU PROTAGONISTAS?MAU PROTAGONISTAS foram os que rasgaram a Contituição de 1948 e implantaram uma DITADURA FASCISTA MILITAR de 21/22 anos.

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  5. Comentado por:

    albertine

    Por que é uma boa foto? O exílio. Como definir o exílio ? Notícias. Lá fora uma mulher anda, carrega uma bolsa e disfarça ao olhar o fotógrafo . Chove. Bom dia tristeza no café, o rosto contraído ao fumar,a mão fechada num punho impotente resite em pegar o cigarro. Sentado e atrás, o reflexo de alguém . Jango lê as notícias do mundo de lá.

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  6. Comentado por:

    Henrique

    Nao conheço a história de João Goulart a fundo, mesmo assim, concordo que ele jamais seria um estadista. Mas sei quem elegeu Janio Quadros (o covarde), quem apoiou o golpe militar e quem elegeu Collor (o playboy). Foram os paulistas que estavam mordidos com Getulio Vargas e depois com Leonel Brizolla.

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  7. Comentado por:

    Adilson

    O que colocou e tirou os militares do poder foi uma coisa chamada inflação. O descontrole de Goulart era tamanho que a oposição entrou com um projeto de aumento do salário mínimo de 50%. O seu líder, Almino Afonso, não teve dúvidas- se a oposição quer 50% nós damos 100% de aumento. Na ocasião Celso Furtado tentava pôr a economia nos trilhos, mas com o grau de irresponsabilidade dos aliados era tarefa impossível. Em resumo, o Brasil era administrado como se fosse um centro acadêmico. Deu no que deu.

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  8. Comentado por:

    Marcos Cardoso Jr

    O filme (sic) ou documentário (sic) do tal do Silvio Tendler não pode ser levado a sério. Tenho mais o que fazer. Cineasta é sinônimo de picareta de esquerda.O Barretão se dizia esquerdista. Pode?

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  9. Comentado por:

    edson

    Jango teve a grandeza de evitar uma guerra civil.

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  10. Comentado por:

    Franciele

    Caro jornalista Augusto Nunes,
    Voltei a ler a tua história sobre o presidente João Goulart aqui do Baú depois das notícias de (re)abertura das investigações sobre a morte de Jango. Gostaria que você publicasse mais histórias aqui no Baú de Presidentes, e também que comentasse sobre essas notícias sobre as investigações da morte de Jango.
    Parabéns pela coluna
    Cara Franciele, vou repassar sua sugestão ao Augusto. Um abraço, Júlia Rodrigues.

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