Deonísio da Silva: Ovelha negra da família e bode expiatório

De repente, um segmento da economia brasileira que mais orgulhava o Brasil no mundo deixou de ser bênção e virou maldição

A ovelha negra da família é irmã do bode expiatório. A cantora Rita Lee contribuiu para deixar esta ovelha ainda mais popular, ao torná-la um sucesso de nosso cancioneiro: “Levava uma vida sossegada/ Gostava de sombra e água fresca/ Foi quando meu pai me disse:/ “Filha, você é a Ovelha Negra da família/ Agora é hora de você assumir e sumir”.

Cada um de nós pode identificar a ovelha negra, seja qual for o ambiente. Ela não está apenas na família. Está na escola, na universidade, no seu local de trabalho, no trânsito, na Câmara, no Senado, no STF e, principalmente, nos noticiários.

A atual ovelha negra da família estava homiziada nos rebanhos do agronegócio e jazia bem quietinha nos frigoríficos. De repente, um segmento da economia brasileira que mais orgulhava o Brasil no mundo deixou de ser bênção e virou maldição. Bem, mas se aparência e essência fossem a mesma coisa, a ciência seria desnecessária.

Os agroboys e as agrogirls estavam tranquilos  no seu agrobusiness quando outros neologismos invadiram o mundo deles e nem todos vinham do Inglês. A mídia passou a falar em herbicidas, transgênicos, agrotóxicos etc. E muitos redatores, que pouco ou nada sabiam da fome e da subnutrição dos tempos do jeca-tatu, tiveram que falar e escrever sobre estes temas,  sem jamais terem sido apresentados a uma vaca, a um boi, a uma ovelha, a algumas galinhas.

E foi assim que o agronegócio pagou o pato, e a ovelha negra da família passou rapidamente a bode expiatório. Os dois, inspirados no mundo agrário e  pastoril, vieram de civilizações pré-cristãs.

Na Ilíada, obra em que o poeta grego Homero narra a Guerra de Troia, ocorrida no século XIII a.C., mas trazida para a escrita por volta do século VI a.C., o rei Príamo, fazendo as vezes de sacerdote, ofereceu em sacrifício uma ovelha negra para selar o pacto guerreiro de Páris e Menelau. A expressão migrou para o mundo das metáforas e passou a designar a pessoa  tida como culpada de tudo no meio em que  vive, sendo oferecida em sacrifício nas falas, isto é, nas fofocas.

Já o bode expiatório é da tradição hebraica e deve ter surgido por volta do século XVI a.C. – estas datas todas são muito imprecisas – pois aparece na Bíblia, no terceiro livro do Pentateuco, o Levítico. Descreve o rito de declarar culpado pelos pecados de todos um animal inocente, levá-lo ao altar para este ato e depois conduzi-lo ao deserto. Lá, o animal é abandonado para morrer. De fome provavelmente.

Confira aqui outros textos de Deonísio da Silva

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  1. Valentina De Botas

    Linda a coluninha, querido Deonísio, como a cada apresentação nesta roupa especial que veste nosso domingo. O Brasil poderia ter passado sem esta navalha na carne, não é mesmo? Menos leviandade, menos amadorismo, menos competições internas e Polícia Federal, importante demais, poderia ter trazido à luz uma investigação sólida a respeito de um problema grave. Do jeito que fez, ainda que a coisa fosse a desgraça anunciada, a PF estaria mal no retrato pois teria permitido que a população consumisse por dois anos uma carne imprópria. Tenho amigos na Europa e nos Estados Unidos que me ligaram para saber se eu e a família estávamos bem, se muita gente havia morrido ou lotado os hospitais pelo consumo de carne podre. Olha só!
    Agora, só um reparo quanto à Ilíada: ela não narra exatamente a guerra de Troia, mas a participação de Aquiles, não? O poema épico tem como centro a fúria desse herói e, para isso, cobre 50 dias do conflito que durou 10 anos. Não sei se estou sendo aborrecidamente preciosista, me desculpe se assim lhe parecer, mas tanto a Ilíada não narra a guerra famosa que se termina a leitura do poema sem uma ideia mais clara do que ou como foi o conflito.
    Assim, é complementar a leitura da Odisseia, de Ifigênia em Aulis (saindo de Homero e indo para Eurípedes que, inclusive, tem duas versões: uma em que Ifigência é sacrificada pelo pai, o gen. Agamenon, à deusa Ártemis para liberar os ventos e, assim, permitir a partida dos aqueus para a guerra; e outra em que, a deusa provê uma corsa para substituir Ifigênia instantes antes da imolação, o que pode ter inspirado a maravilhosa passagem do livramento de Isaque (da humanidade), no Gênesis, pelo cordeiro, antes que Abraão entregasse a Deus o tão esperado filho em sacrifício); da Eneida e mesmo da Oresteia.
    Claro, que essas leituras compõem a dimensão mitológica, e não histórica do embate. Claro também que nenhuma dessas obras se ocupa de forma central da guerra de Troia, até mesmo porque os aedos registravam não tratados bélicos ou documentos históricos, e sim a guerra cuja arena é a alma humana, o homem frente ao destino que escolhe (no caso do herói épico, uma escolha consciente; e no do trágico, inconsciente e nisso também está a tragédia dele; aliás, me remetendo ao “bode expiatório” da tua coluna, “tragédia” vem da palavra “tragos” ou “bode” para dizer que o homem é um ser trágico cuja existência tem como métrica a coragem – a virtude que o engradece diante do inevitável – e não a felicidade, é o bode que, em algum momento, estará no lugar daquele animal que era sacrificado ao deus Deoniso) e que deve cumprir com a virtude do guerreiro-herói-modelo Aquiles, mas não a fúria, e sim a escolha de viver uma vida a salvo da banalidade. Um beijo e bom começo de semana

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