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Deixa Falar, a primeira escola de samba do Rio de Janeiro

Felipe Moraes “Na rua, abria o desfile o símbolo do bloco: um leão de massa, sobre uma carreta de rolimã puxada por garotos e cercada de placas com os nomes das alas. Em seguida, um caramanchão de pau e arame, enfeitado com flores de papel crepom; depois, a porta-bandeira, na frente da ala das baianas. […]

Paulo Benjamim de Oliveira (Paulo da Portela), Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Alcebíades Barcelos (Bide) e Armando Marçal caminham no bairro Engenho de Dentro

Felipe Moraes

“Na rua, abria o desfile o símbolo do bloco: um leão de massa, sobre uma carreta de rolimã puxada por garotos e cercada de placas com os nomes das alas. Em seguida, um caramanchão de pau e arame, enfeitado com flores de papel crepom; depois, a porta-bandeira, na frente da ala das baianas. Precedendo os bambas, todos vestidos com as cores do Deixa Falar. Não havia fantasia. Saíam como podiam: até com pijama e quimono, desde que fosse vermelho e branco. No final, a bateria. Quatro tenores criavam os improvisos entre os refrãos e a cadência era mantida pelo som do arrastado dos tamancos nas pedras ou no asfalto das ruas”.

Extraído de um documento reproduzido no livro “Samba de sambar do Estácio”, do pesquisador Humberto Franceshi (Editora IMS, 2010), o parágrafo acima, escrito na década de 20, descreve o bloco que se transformaria, muitos anos mais tarde, numa das principais escolas de samba do grupo especial do Rio de Janeiro: a Estácio de Sá. Boa parte da base continua a mesma: ala das baianas, porta-bandeira e, claro, a bateria – coração que determina a pulsação e a cadência do desfile. Mas o improviso, que durante muito tempo foi inseparável dessa manifestação popular, acabou substituído pela rigidez das regras que determinam o desempenho – e garantem as vultosas cifras movimentadas nos desfiles atuais.

“Fundado em 12 de agosto”, conta outro texto da época, “o Deixa Falar reúne os melhores compositores do bairro: Edgar, Bide, Ismael, Brancura, Heitor dos Prazeres, Getúlio Marinho e Nilton Bastos”. Muitos desses nomes sobreviveram ao tempo e suas composições seguem animando os bailes de carnaval: “Se você jurar”, de Ismael Silva, “Pierrô apaixonado”, de Heitor dos Prazeres e Noel Rosa, e “Agora é cinza”, do Bide, são alguns exemplos.

Se você jurar:

[audioplayer id=”http://veja.abril.com.br/arquivo/se-voce-jurar.mp3″]

Agora é cinza:

[audioplayer id=”http://veja.abril.com.br/arquivo/agora-e-cinza.mp3″]

Os domingos de carnaval, na Praça Onze, berço do samba e reduto da fina-flor da música popular (Donga, Pixinguinha, Sinhô e João da Baiana, entre outros), os desfiles traziam como enredo o samba que fizesse mais sucesso na Penha. Numa comparação arbitrária, é como se a Praça Onze fosse a Marquês de Sapucaí e a Penha correspondesse às quadras das escolas de samba. Era na Penha que grupos de compositores disputavam a preferência popular. Depois do desfile, a escola vencedora ganhava uma coroa, recebida pela porta bandeira, que baixava seu estandarte para ser condecorada.

Considerada a primeira escola de samba (na época bloco carnavalesco) do Brasil, o Deixa Falar reivindica: foi lá na região do Estácio que o samba-enredo nasceu.

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  1. Comentado por:

    Rosa Maria Pacini

    Eu não conhecia essa escola, Augusto, nunca tinha ouvido falar dela, embora eu tenha sido, por muito tempo, bastante ligada em carnaval.
    Mas, que diferença em relação aos carnavais de hoje, Augusto! Não me considero saudosista, muito pelo contrário, pois nunca fui refratárias às mudanças que o próprio passar do tempo acarreta. Mas, hoje, não tenho mais prazer em acompanhar os desfiles das escolas de samba como o fazia no passado. Eles perderam a espontaneidade e o que era a livre manifestação cultural de uma comunidade transformou-se em um grande negócio explorado por bicheiros, políticos, empresas de comunicações, fabricantes de cerveja e outros patrocinadores. Além disso, as “cabrochas formosas” – que, como passistas, encantavam a todos com seu gingado -, perderam espaço para socialites e atrizes que assumem o posto de “rainhas e/ou madrinhas de bateria”, porque além de serem belas celebridades, podem pagar por fantasias luxuosas, dando mais dinheiro para as escolas.
    O incêndio que este ano atingiu particularmente 3 escolas provocou uma mudança nas rígidas regras estabelecidas: não haverá rebaixamento.
    Menos mal, pois a Grande Rio, a mais prejudicada dentre as 3 escolas atingidas, teve ainda que desfilar, na madrugada de hoje, sob um toró, que acabou comprometendo o seu desempenho, pois a pista estava escorregadia.
    Quem sabe estas ocorrências não provoquem uma revisão nas regras adotadas até agora. Já não seria sem tempo!

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  2. Comentado por:

    salim hadad kfoury

    Caro Augusto,
    Tenho aqui na minha mão um disco da ABRIL CULTURAL de
    1982.”Bide, Marçal & Paulo da Portela”.
    As que eu mais gosto são:
    Ando Sofrendo
    Cidade-Mulher
    Quitandeiro
    Olhar assim – com Clementina de Jesus
    Cocorocó- com Clementina de Jesus
    Serei seu ioiô – com João Nogueira
    Excelente Disco, eu o escuto desde 1982.
    E.t.: Gostei muito da fotografia com os 5 acima.

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  3. Comentado por:

    André Oliveira

    Ola Augusto, gostaria de saber sobre material a cerca desta matéria já que estamos com um projeto de produção de um documentário que contará a história desta agremiação.
    caso tenha favor entrar em contato comigo pelo e-mail.
    Obrigado
    O Felipe já não trabalha aqui, caro André. Vou tentar localizá-lo. abração.

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