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A pedra, o bagre e a perereca animam o show da ignorância

A data da inauguração do Brasil reconstruído ainda não foi marcada por culpa da máquina de fiscalização, acaba de informar o presidente Lula. O governo não para de fazer obra, repetiu o maior dos governantes desde Tomé de Souza. Só não consegue completar o serviço porque o Ibama complica e o Tribunal de Contas da União não deixa. O TCU  vê irregularidade em qualquer irregularidade. O Ibama já lhe jogou […]

A data da inauguração do Brasil reconstruído ainda não foi marcada por culpa da máquina de fiscalização, acaba de informar o presidente Lula. O governo não para de fazer obra, repetiu o maior dos governantes desde Tomé de Souza. Só não consegue completar o serviço porque o Ibama complica e o Tribunal de Contas da União não deixa. O TCU  vê irregularidade em qualquer irregularidade. O Ibama já lhe jogou no colo um bagre amazônico, uma perereca gaúcha e, há dias, uma pedra da região de Cabrobó.

“A  hidrelétrica ficou parada porque alguém achou que uma pedra arredondada era machadinho de índio, e levou nove meses para descobrir que era só uma pedra”, contou. A plateia adorou a prova mais recente de que o Ibama virou uma catarata de excentricidades antipatrióticas. Melhor que esse, só o caso da perereca. “A gente estava fazendo um túnel de mil e poucos metros no Rio Grande do Sul e encontraram do outro lado do túnel uma perereca”, começa Lula a contar o episódio ocorrido na BR-101 e começa a plateia a soltar o riso.

A segunda frase abre a sequência de gargalhadas  que só terminará  com o ponto final. “Todo mundo aqui sabe o que é uma perereca”, continua a narrativa.  “Pois bem, aí resolveram fazer um estudo para saber se aquela perereca estava em extinção. Aí teve que contratar gente para procurar perereca, e procure perereca, e procure perereca… Sabem quantos meses demorou para descobrir que a perereca não estava em extinção? Sete meses. Sete meses e a obra parada”. Segue-se a gargalhada de encerramento.

“Lula não para de dizer besteiras”, lastima Célio Fernando Haddad, coordenador de Ciências Biológicas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Onde o narrador viu uma prosaica perereca, corrige Haddad, os cientistas encontraram quatro espécies de anfíbios ameaçadas de extinção. Os levantamentos que precedem o início de obras não existem para atender a caprichos de ambientalistas, mas por exigência da legislação federal, que protege a vida de espécies ameaçadas.

“O governo que comece a trabalhar mais cedo, não em véspera de eleição e passando por cima das leis”, recomenda Haddad.  “Para um projeto, quase sempre há alternativas, mas uma espécie se perde para sempre”, sublinha Jansen Zuanon, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Ele reitera a lição desde que Lula declarou guerra a “um tal bagre gigante do rio Madeira”, responsabilizado pelo atraso nas obras de usinas hidrelétricas. O nome do peixe é dourada, ensina Zuanon. E não é um bagre qualquer.

Dele dependem a sobrevivência financeira de milhares de comerciantes e a sobrevivência física de incontáveis moradores espalhados por quatro Estados brasileiros ─ Pará, Amapá, Amazonas e Rondônia ─ e porções consideráveis da Colômbia, da Bolívia e do Peru. “Para procriar, a dourada faz uma migração extraordinariamente extensa”, informa o cientista. O Ibama agiu para evitar a consumação de um crime ambiental gravíssimo: a interrupção irresponsável dessa viagem que perpetua a espécie também colocaria em risco a perpetuação da espécie humana na região.  

Em 2000, foram concedidas pelo Ibama 139 autorizações ambientais. Subiram para 477 em 2008 e, neste ano, já somaram 125. Lula só se queixa por malandragem. O TCU tem julgado  pendências com exemplar pontualidade. Lula só se queixa porque agir fora da lei apressa inaugurações e é bem mais rentável. O problema não é a perereca, nem o bagre, muito menos  a pedra. O problema é a incompetência do governo.

O ator no palco vai continuar contando casos inspirados em problemas imaginários, a plateia vai continuar gargalhando. A vassalagem voluntária não é menos desprezível que a ignorância presunçosa.

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  1. Comentado por:

    Nina B. Leite

    Augusto, você se superou! Brilhante artigo.
    Recado aos ilustres desbravadores.
    Pesquisem sobre a pedra(vai que é mesmo um artefato), deixem a pereca sobreviver e o bagre? Pelamordedeus!
    Deixem o bagre em paz.Ele precisa de espaço, ele chegou primeiro!
    Viva o bagre! Viva a perereca! E um viva para a pedra. E pela primeira vez, nunca gostei muito do Ibama, uma grande e calorosa salva de palmas para o IBAMA.
    Cambada de analfabetos em biologia. Num é qualquer bagre, pô.
    Viva a biodiversidade brasileira! Viva ao SBI Sociedade Bras. Ictiologia (estudo dos peixes)

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  2. Comentado por:

    Fitzcarraldo Silva

    interessante…nos governos anteriores ao “governo” Lulla, o PT cansou de
    usar os seus “ecologistas” para pararem obras, por conta de pererecas, mico-leão-dourado,
    meia dúzia de “índios” de araque, etc. O Rodoanel aqui em SP é testemunha
    disso. Vários trechos da rodovia da Morte, que liga São Paulo a Curitiba,
    não puderam ser duplicados ( o que continua a provocar centenas de mortos
    todos os anos…)por conta dos “ecologistas” petistas.Quem muito ajudou a
    criar essa praga de parasitas “ecologos” e “ambientalistas” foi o próprio
    PT. Agora não reclamem….Cria cuervos……
    Fitzcarraldo Silva

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  3. Comentado por:

    Marco Antonio Ribeiro

    Caro.
    É verdade. Mais repugnante do que as aparições públicas e particulares do atual presidente, só mesmo a claque asquerosa que se forma durante seus infindáveis mistos de pregação e comício de porta de fábrica. Os sorrisos beócios, a bajulação, a mediocridade das pessoas. Olho tudo isso e lamento pelo Brasil, que a cada dia mais se apequena.
    Ainda bem que contamos com espaços como o seu e o de Reinaldo Azevedo, para discutir o país e exibir as limitações dessa gente que se apoderou do poder.
    Marco Antonio Ribeiro.

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  4. Comentado por:

    Ventania

    A colunista(*) Mônica Bergamo informa na Folha(**) de ontem que a mulher de Gilmar Dantas (***) vai trabalhar como “gestora na área jurídica (?) do escritório do advogado Sergio Bermudes, do Rio.”
    A colunista(*) Mônica Bergamo é excepcionalmente diligente e bem informada, até certo ponto.
    Por exemplo.
    Tão bem informada, ela se esquece de informar que Sergio Bermudes é um dos notáveis advogados dos 1001 advogados da milícia judicial de Daniel Dantas.
    Ou seja, a mulher do juiz que, deu em 48hs, dois HCs a Daniel Dantas vai trabalhar com o advogado de Dantas.
    Viva o Brasil !

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  5. Comentado por:

    Thuya

    Legal Naná (26/10 às 23:48)
    Adorei. Hahahaha

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  6. Comentado por:

    Perfeito Augusto!
    Eu só acho que deveriam avisar ao apedeuta-mor que ele não é animador de auditório..pensando bem, nem animador de auditório fala tanta m…..
    que nojo

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  7. Comentado por:

    hélder

    Augusto, esse comentário é tardio, mas, creio, ainda assim vale a pena.
    Em 2002, quando ainda não tinha sequer tomado posse no seu primeiro mandato, Lula chamou Robert Zoellick, então sub-secretário de Estado dos Estados Unidos, de sub-do-sub-do-sub, dentro do governo americano e disse que sua opinião era irrelevante. Isto porque Robert Zoellick havia afirmado que, se o Brasil não negociasse com a ALCA, ira fazer negócios na Antártida.
    E aonde se quer chegar com isso? Bem, aí está o germe do nível de tolerância que Lula tem com os, digamos, “subalternos”.
    Uma breve digressão: não deixa de ser irônico o fato de que, enquanto FHC, ao afirmar que tinha o pé na cozinha, se esforçou para parecer mais povão, Lula, com sua postura de subestimar os demais agentes públicos, que estejam num grau hierarquicamente inferior, revele a sua porção “casa grande e senzala ” – claro ele sendo o senhor absoluto da casa grande (ih! Esse pessoal da esquerda não vai gostar de ver as teses que eles apreciam sendo utilizadas para demonstrar as falhas das personalidades que eles cultuam).
    Não é que Lula não entenda o jogo democrático. O problema é que ele não aceita tal jogo. Lula não aceita o fato de que todo poder emana do povo, por meio das leis. Ele pode até não ter precisado estudar para ser presidente da república, mas o fiscal que embargou uma obra precisou, e muito, estudar, tanto para se tornar competente no que faz, como para passar num concurso público que o qualificasse para embargar a obra. E se o fiscal fez o que é pago para fazer, é porque encontrou uma situação de desvios e ilicitudes.
    Por fim, Lula não aceita o fato de que:
    a) ele é um funcionário como o fiscal que censurou, e que, como tal, antes de ter poder, ele tem um dever primordial: ser escravo da lei;
    b) o poder hierárquico só será obedecido se não afrontar a lei;
    c) a legitimidade de acesso ao poder por meio das urnas não é superior à (e nem melhor que a) legitimidade de acesso ao poder por meio dos concursos públicos, uma vez que as leis permitem ambas as formas, e que, no exercício do dever-poder, a lei nivela todos os servidores públicos.

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  8. Comentado por:

    Ligia

    Caro Augusto,
    Parabéns pela matéria ‘A pedra, o bagre e a perereca animam o show da ignorância’! Às vezes me dá vergonha ser brasileira… A ignorância do nosso presidente realmente não tem limites. Precisamos calar a boca dele…
    Ligia Prado
    Biologa

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  9. Comentado por:

    Nara Mota

    Ignorânte é uma pessoa como você…nem imagina o que está falando…se soubesse teria vergonha de escrever….
    Controle-se, senhora Nara. Chiliques fazem mal à cabeça e ao português, que não tem nada com isso. Ignorante com circunflexo só li num recado manuscrito do Lula pro Tarso Genro.

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  10. Comentado por:

    ADEMIR JO´SE DE PAIVA

    Os ecologistas viajando em veiculos automotores, consumindo energia fóssil ou mesmo orgânicos da biomassa exalando gases poluentes, comem e após defecam e urinam na água tratada do vaso sanitário, levada pela descarga aos regatos, córregos e rios.Fizeram leis ambientalistas prendendo e multando os agricultores da economia familiar, cujos crimes é plantarem para subsistência ao invés de comprar na mercearia ou hipermercado da esquina como faz os ecologistas e seus apoiadores demagógicos, pregadores do ambientalismo exacerbado só para os roceiros cumprirem, colocando pesados fardos as costas dos outros para ser carregados sem que os ambientalistas o queiram tocar siquer com um dedo.” A perereca é aquela que foi sem nunca ter sido” (Chico anísio);

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