‘Alerta de Ano-Novo’, um texto de Roberto Pompeu de Toledo

Publicado na versão impressa de VEJA O senhor Custódio está preocupado. Ele é um veterano de inflações. Quando jovem, viveu os 81,99% de 1963 e os 86,46% de 1964. Já maduro, tendo de arcar com as próprias contas, lembra dos 220,6% de 1984 e dos 235,13% de 1985. E os primeiros anos 1990 então? Lá […]

Publicado na versão impressa de VEJA

O senhor Custódio está preocupado. Ele é um veterano de inflações. Quando jovem, viveu os 81,99% de 1963 e os 86,46% de 1964. Já maduro, tendo de arcar com as próprias contas, lembra dos 220,6% de 1984 e dos 235,13% de 1985. E os primeiros anos 1990 então? Lá foi o índice para taxas astronômicas. Em 1990 foi de 1 475,71%; em 1992, de 1 158%; em 1993, de 2 780,6%. Em corrida desenfreada, o Brasil passou, nessas três décadas, das dezenas para as centenas, e das centenas para os milhares. O sr. Custódio está preocupado com a inflação de dois dígitos e as notícias de suspeitas reorientações da política econômica do governo e, como teme que muitos brasileiros, especialmente os 40% nascidos depois de 1990, não tenham ideia do que é viver com altas taxas, franqueou ao colunista seus registros de despesas dos anos 1993-1994, vésperas do Plano Real.

Custódio é uma pessoa prudente e metódica. Anota e guarda tudo direitinho. É assim que ficamos sabendo que o aluguel do apartamento em que morava, em janeiro de 1993, era de 2 350 000 cruzeiros (sim, milhões ─ era nessa esfera que se trabalhava); em fevereiro já passara para 3 127 530 e, em julho, atingira 14 540 000. Foi da casa dos 2 milhões para a casa dos 14 milhões em sete meses! A conta de luz, que em janeiro era de 367 760 cruzeiros, em julho chegara a 1 953 422.

A preciosa caderneta do sr. Custódio tem registros ainda mais singelos do que era a vida contabilizada em milhões. Em junho de 1993, a compra de mês num supermercado custou-lhe 3,4 milhões de cruzeiros. Nesse mesmo mês, acometido pela suspeita de doença grave, pagou 3,8 milhões por uma consulta com um especialista. Não se pense que eram cobranças fora da realidade. Os 3,4 milhões da compra do mês equivalem a 440 reais de hoje, e a consulta de 3,8 milhões, a 490 reais ─ preço de um especialista renomado, então como agora. O que era fora da realidade de uma sociedade organizada, e tão fora que atingia níveis surreais, era, primeiro, ter de trabalhar com tantos algarismos, e, segundo e mais importante, algarismos que não paravam quietos, tomados pela loucura de subir. Em março-abril, o sr. Custódio fez um tratamento dentário. O esperto dentista não quis perder tempo fazendo cálculos de milhões. Tomou logo como referência a moeda americana e cobrou 400 dólares pelo serviço, a ser quitados em duas vezes.

Em agosto de 1993 houve uma mudança de moeda. Saiu de cena o cruzeiro e, em seu lugar, entrou o “cruzeiro real”. Já se articulava o Plano Real, daí o nome da nova moeda, mas a medida, ao cortar três zeros da moeda anterior, tinha por único objetivo facilitar os cálculos. A inflação continuaria em sua marcha indômita. O sr. Custódio, nesse período, tinha o azar de ter um filho cursando uma cara faculdade, que pagava às vezes recorrendo a empréstimos de parentes. A mensalidade foi de 12 700,98 cruzeiros reais, em agosto, para 46 470, em dezembro. No ano seguinte a marcha continuou, e a mesma mensalidade, em junho de 1994, o último mês antes do início da era do real, atingira 389 179.

Ao rever suas anotações, o sr. Custó­dio é tomado de alucinações como pensar que até o fim da década, do jeito que vão as coisas, retomaremos o velho truque de cortar os zeros da moeda ─ e o real (R$), já impossível de caber no normal das calculadoras, será substituído pelo novo real (NR$). São só alucinações, claro. Custódio, além de prudente e metódico, é assustadiço como costumam ser as pessoas prudentes e metódicas. Em todo caso, consultando seus alfarrábios, ele verifica como foi fácil, poucas décadas atrás, escalar dos 19,47% de inflação em 1970 aos 79,42% em 1979, e daí aos 235,13% em 1985. Com a inflação, vão-se os ministros da Fazenda. O governo Sarney teve quatro. Itamar Franco, em sete meses, testou e descartou três, antes de nomear Fernando Henrique Cardoso. Dilma Rousseff, em onze meses do segundo mandato, já partiu para o segundo.

O sr. Custódio é assaltado pela sensação de um conhecido filme que recomeça. Ele gostaria que a excelentíssima senhora presidente da República e o excelentíssimo senhor Nelson Barbosa, o novo ministro da Fazenda (o sr. Custó­dio, além de prudente, metódico e assustadiço, é formal como costumam ser as pessoas prudentes, metódicas e assustadiças), dedicassem um minuto de seu precioso tempo para considerar os dados de sua caderneta. O desânimo o impede de sair por aí desejando às pessoas um feliz ano-novo. Prefere distribuir alertas de ano-novo. O colunista pensa que ele talvez tenha razão.

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  1. Comentado por:

    RedFox

    Vamos lá. Depois de uma queda de energia que me tirou do ar ontem, vai aqui meu post, agora por inteiro. Peço licença ao Augusto, pelo texto longo demais, porém justificadamente, creio, dada a importância do tema.
    .
    Em dezembro de 2011, fechando seu 1º ano de reinado, dona Dilma enfiou goela abaixo do IBGE uma nova fórmula de calcular da inflação. A dama tinha consciência do que fazia. A partir dali, dadas as alterações na fórmula, a corrosão em nossos bolsos pareceria 1% aa menor.
    .
    A mulher sapien, junto com Guido Mantega et alii, estava preparando o desastre que se seguiria, e que atenderia pelo simpático nome de “nova matriz econômica”, ou seja, meia-dúzia de barbaridades econômicas: 1. abaixar juros a todo custo, 2. engessar o valor da moeda, 3. facilitar crédito, via incentivos fiscais aos bancos, 4. sobretaxar importados, 5. zerar impostos a produtos nacionais caríssimos e, sobretudo, 6. gastar, gastar e gastar com “política social”, ou seja, benefícios que custam muito mais do que o país pode assumir.
    .
    Esse autêntico artefato de destruição em massa, também chamado por aqui de “Desenvolvimentismo”, tem, entre suas consequências, 1. empobrecer a classe média, cuja poupança, desvalorizada pelos juros superbaixos, se tornou consumo compulsório e, assim, aqueceu a atividade industrial; 2. sobre-endividar pobres que conquistam empregos de curta duração ao mesmo tempo em que contratam maciçamente um crédito de longo prazo que não se pagaria antes do desemprego chegar, nem depois, por causa do desemprego; e 3. acarretar, dada a demanda aumentada, a aceleração de uma inflação que não arrefeceria com o tempo, pois as descompensações fiscais e as “políticas sociais” caras que o governo “desenvolvimentista” continua praticando tendem a manter o custo das dívidas pública e privada acima das capacidades de pagamento do Estado e daqueles agentes econômicos que elevaram preços como compensação à queda das suas receitas.
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    É a razão pela qual, voltando ao início desta conversa, dona Dilma e seu Mantega inventaram um recálculo da inflação lá em fins de 2011, fazendo-a parecer menor. Eles sabiam o que estavam tramando, conheciam as consequências dessa insanidade “desenvolvimentista”; quiseram maquiar os números para que o crime que praticaram contra a economia popular se mostrasse menos devastador do que nossos bolsos têm sentido.
    .
    E nem assim conseguiram o que queriam! A inacreditável incompetência e o fanatismo ideológico desses delirantes acabaram por se mostrar tão grosseiros e destrutivos que, mesmo maquiada pelo governo, a inflação brasileira de 2015 quase dobrou não o centro, mas o teto da meta – meta que, diga-se, é das mais incompreensivelmente largas e malplanejadas do mundo.
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    Dona Dilma, Guido Mantega, Arno Augustin e Alexandre Tombini tanto fizeram que finalmente conseguiram: mostraram ao mundo o quanto pode ser danosa a crença voluntarista de que, quando se quer fazer “justiça social”, se faz “justiça social”, na marra – como se tudo dependesse de vontade, como se bastasse fazer o contrário do que a “direita” sempre fez… E o que conseguiram, de fato, foi apenas deixar ainda mais claro o quão a tal “direita” sempre esteve bem mais perto da razão do que eles.
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    Sob esse aspecto, ainda que a um preço altíssimo, o PT fez um grande favor ao país: no mínimo, mostrou que gerar empregos, transferir renda, simular na marra um welfare state que o país não sustenta, dando a alguns a impressão de que é o Estado que tudo resolverá e tudo proverá; tudo isso constitui apenas uma mentira, e das grandes. Doravante, no pós-PT que se avizinha, poucos poderão dizer que ainda permanecerão acreditando nela.

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  2. Comentado por:

    Resende

    Lembro bem de abertura do JN no início da década de 90, antes do Real: “a partir de hoje todo brasileiro trabalhador é milionário, salário mínimo passa de um milhão”.
    Isso traz à memória passagem do livro ” Real, A Saga de Um Povo” de Miriam Leitão. Na Alemanha pós primeira guerra, a hiperinflação tomou conta, gerando a seguinte situação descrita em artigo de jornal alemão da epoca, mais ou menos assim: sujeito entra na cafeteria com jornal debaixo do braço, senta-se e pergunta pra garçonete o preço do cafezinho, recebendo como resposta 5000 marcos. Ele pede um cafezinho e inicia a leitura do jornal, passado algum tempo pede outro cafezinho. Terminada a leitura do jornal, e o segundo cafezinho, pede a conta. Recebe o valor de 15000 marcos para pagar. Indignado, pergunta pra garçonete: o cafezinho não é 5000 marcos, porque a conta de 15000 se tomei dois cafezinhos? Resposta da garçonete: 5000 marcos foi o primeiro cafezinho, o segundo foi 10000 marcos.
    Quem nasceu no Brasil na década de 90 não viveu a hiperinflacao, não queiram saber como é.
    Tirem essa mulher de lá.

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