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Volta de SP para a fase amarela preocupa empresários do setor de serviços

Cinema, bares e restaurantes e casas de show serão impactados; 'Se os cinemas tiverem que fechar, acho que não abrirão mais', diz Sturm, do Belas Artes

Por Felipe Mendes Atualizado em 1 dez 2020, 01h35 - Publicado em 30 nov 2020, 16h07

Diante do aumento de casos do novo coronavírus, o governo de São Paulo decidiu regredir o Plano São Paulo à fase amarela, em que há maiores restrições para o funcionamento. O programa de contingência é usado como base para reabertura das atividades econômicas no estado. O anúncio foi realizado no início da tarde desta segunda-feira, 30, em entrevista coletiva centralizada no governador João Doria (PSDB). A partir de então, as atividades econômicas com atendimento ao público terão de respeitar certas medidas para o funcionamento: capacidade de ocupação limitada a 40% do espaço; funcionamento por 10 horas ao dia e, no máximo, até às 22h — além, claro, de medidas sanitárias como a obrigatoriedade do uso de máscaras e a disponibilização de álcool em gel no ambiente. O objetivo, com isso, é achatar a curva de contágio do vírus no estado. Tal aferição no programa de contingência estava prevista para o dia 16 de novembro, mas foi adiada para um dia após a eleição.

Com medidas restritivas mais duras, os setores que concentram a maior parte de seu faturamento à noite serão os mais afetados. É o caso, por exemplo, dos cinemas. Segundo a fase amarela do Plano SP, os estabelecimentos podem continuar funcionando, respeitando os protocolos exigidos. Mas a suspensão dos espaços não está descartada. Anteriormente, quando a capital do estado estava na fase amarela, a equipe do prefeito Bruno Covas (PSDB) determinou que os espaços não poderiam funcionar. A dúvida paira no ar, já que Covas ainda não se posicionou sobre o assunto, e aflige os donos dos estabelecimentos. “Se os cinemas tiverem que fechar de novo, sinceramente, acho que não abrirão mais. Isso daria margem para as pessoas concluírem que os espaços foram responsáveis pela transmissão da Covid-19”, diz André Sturm, diretor do Petra Belas Artes, um dos principais cinemas de rua de São Paulo. “Se isso acontecer, eu desisto, porque não terá mais o que fazer. A prefeitura precisa concordar com o governo e permitir que os cinemas continuem abertos”, desabafa Sturm sobre a situação do seu negócio e do próprio setor. Pelo Plano São Paulo, as cidades são as responsáveis por decidir os protocolos de saúde de cada área.

André Sturm
André Sturm, diretor do Petra Belas Artes: “Se os cinemas tiverem que fechar de novo, acho que não abrirão mais” Mario Rodrigues/VEJASP/Dedoc

Dentre os donos de restaurantes, há indignação com a postergação da data para o anúncio das medidas restritivas. Para Paulo Solmucci, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), as próprias campanhas políticas nas últimas semanas geraram aglomerações e teriam contribuído, portanto, para o aumento no número de casos de Covid-19. “O país colocou milhões de pessoas nas ruas fazendo campanha eleitoral nos últimos 45 dias. Estamos vivendo as consequências disso”, afirma ele, que ainda critica João Doria. “Não somos contra as medidas restritivas, mas, se tivesse de serem feitas, que fossem feitas antes, não um dia após a eleição.” No caso dos serviços de alimentação, a fase amarela restringe o funcionamento de salões fechados e praças de alimentação. Só está permitido o serviço “ao ar livre ou em áreas arejadas”, conforme as regras do Plano São Paulo.

Na entrevista coletiva realizada nesta segunda-feira, João Doria disse que a postergação na data para o anúncio de recuo à fase amarela não foi impactada pela disputa eleitoral na cidade de São Paulo. “O governo de São Paulo não tem, não teve e não terá nenhum interesse em transformar medidas de ordem de saúde em medidas políticas ou eleitorais”, afirmou. Até o último domingo, dia 29, o estado de São Paulo estava em 76% na fase verde. Segundo Patricia Ellen, secretária de Desenvolvimento Econômico, se não houvesse a alteração na data para o anúncio, outras regiões teriam avançado à fase verde em 16 de novembro. O adiamento, de acordo com ela, foi crucial para não permitir que mais cidades avançassem no cronograma de reabertura da economia.

Segundo João Gabbardo, coordenador-executivo do Centro de Contingência do estado, as “ações mais correlacionadas com o aumento no número de casos são atividades noturnas, que correspondem a festas e confraternizações com um número grande de pessoas”. “Isso tem sido um dos motivos mais significativos para que se aumente a transmissão da doença”, disse ele, durante a coletiva. Edgard Radesca, um dos sócios da casa de shows Bourbon Street, concorda com a visão de Gabbardo sobre bailes e festas “irregulares”, mas admite que a redução no expediente fará diferença no faturamento da casa. “Somos cumpridores da lei. Trabalhamos com a capacidade reduzida mesmo durante a fase verde. Mas, com essa restrição de horário, perderemos uma hora de funcionamento, o que representa cerca de um terço do consumo no Bourbon Street”, diz. “Acredito que, de modo geral, será muito ruim para os restaurantes”, avalia. O comércio varejista do estado não deve ser tão impactado, mas o aumento das restrições pode afugentar o consumidor em plena época de fim de ano, frustrando os planos daqueles que esperavam faturar mais no Natal.

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