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Por que os estrangeiros veem um risco econômico crescente no Brasil

Agências de risco e investidores alertam para o aumento da dívida pública; cenário poderia melhorar com retomada da agenda reformista

Por Larissa Quintino - Atualizado em 11 Maio 2020, 15h13 - Publicado em 11 Maio 2020, 15h09

O choque na economia brasileira trazido pela pandemia do novo coronavírus já é dado e a retração neste ano é ponto pacífico entre agentes econômicos nacionais e internacionais. Apesar das medidas já domadas, como aumento de liquidez no mercado e medidas para mitigar a queda de renda, como o auxílio emergencial, 2020 é um ano perdido. A agência de risco S&P, por exemplo, projeta uma queda de 4,61% no Produto Interno Bruto (PIB) deste ano, meio do caminho entre os 4,11% previstos por analistas brasileiros no Boletim Focus e da queda de 5% aventada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Um dos dados mais alarmados pelos economistas governistas ao longo de 2019 também não é mais alentador. O Risco País, medido pelo CDS (Credit-Default Swap) de 5 anos, alcançou 312 pontos. Em fevereiro, estava em 92 pontos, um patamar adequado para países com grau de investimento. O entendimento dos estrangeiros é que a crise pegou o Brasil no contrapé — a Covid-19 varreu as finanças públicas como um tsunami enquanto o país se arrumava após uma crise fiscal.

Contudo, o principal motivo para a perda de credibilidade na condução econômica não está na forma como o país está recebendo o impacto da pandemia. Mas como está se preparando para o pós-crise. E, de fato, isso é preocupante. Caso o país retome os passos da agenda reformista, como deseja e prega a equipe econômica comandada por Paulo Guedes, o coronavírus deixará apenas efeitos pontuais na economia brasileira e o país voltará, ainda que lentamente, a recuperação econômica que era traçada antes da pandemia. Infelizmente não é isso o que tem sido transparecido pela governo, e a falta de clareza perante os planos futuros cria um cenário ainda mais incerto para os investidores estrangeiros.

O compromisso com as reformas de estado, como a tributária, passa a ter importância maior após a pandemia. Isso porque, para tentar mitigar danos econômicos, o governo passou a gastar mais, aumentando a dívida pública. Segundo a agência de riscos Moody’s, é positiva a rápida resposta do governo, se comparada a outros países da América Latina, mas os benefícios da rede de assistência social do auxílio emergencial e o aumento de liquidez são pontuais. No entanto, há preocupação com a extensão de gastos pós pandemia. “Dado o espaço fiscal restrito, a sustentabilidade fiscal poderia ser comprometida se o aumento excepcional nas despesas do governo se estender além deste ano”, afirma agência, que projeta que o aumento da dívida pública chegue a cerca de 90% do PIB em 2020-21.

É nesse cenário que a manutenção da política econômica é fundamental. A crise política que afeta o Brasil fez com que a agência de risco Fitch Ratings apontasse o Brasil como destino negativos para investimentos na semana passada. A S&P, por sua vez, declarou que na sua avaliação, o status do Brasil é estável (BB-, como antes da crise)> Até então, a perspectiva da agência era positiva. Apesar do cenário político tumultuado que causou, em um mês, a queda de dois ministros (Henrique Mandetta na Saúde e Sergio Moro na Justiça), a reafirmação de poder dada pelo presidente Jair Bolsonaro a Paulo Guedes dá sinais aos investidores de que os ajustes fiscais, ainda mais necessários com o aumento de gastos devido a crise, irão continuar depois da pandemia.

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Esse compromisso estrutural é um estímulo positivo para atração de investimento que sobrepõe a escalada das tensões políticas trazidas e o preocupante cenário da infecção do coronavírus no país, que faz com que o Brasil tenha o maior número de afetados de toda a América Latina. Esses elementos políticos e sanitários fazem com que a recuperação, caso aconteça, seja lenta, mas que, com o compromisso fiscal, ela aconteça.

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