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O que investidores de sucesso procuram em startups

Geoff Ralson, ex vice-presidente do Yahoo! e sócio da Y Combinator fala sobre startups e sucesso

Se o sonho dos criadores de startups é lançar uma empresa de bilhões de reais, o dos investidores é achar um projeto desses no começo, quando ainda valem pouco. No caso da investidora Y Combinator, a aposta é orientada em empresas que trarão algum impacto positivo para a humanidade,  segundo Geoff Halston, um dos sócios da empresa.

A investidora de risco (venture capital) tem um programa de aceleração de startpus que que dá bolsas de 120.000 dólares, além de um treinamento presencial de três meses no Vale do Silício, na Califórnia, a algumas dezenas de empresas que vê como promissoras. Assim, já passaram pelo curso, em pouco mais de uma década, mais de 1.400 startups, entre elas grandes sucessos como Airbnb e Dropbox.

Hoje investidor, Ralston já fundou suas próprias startups, vendidas a empresas como Apple e Yahoo!. Ele também trabalhou nesta última, onde ocupou cargos de vice-presidente de engenharia e diretor de produtos. Em sua primeira visita pela empresa ao país, ele conta o que uma investidora de risco vê nas startups, sobre o sucesso dessas companhias, e o potencial do Brasil nesse ramo.

Você diz que a Y Combinator investe em projetos que fazem o mundo melhor. Mas vocês são investidores, há outro objetivo além de apoiar ideias boas?

Nós ficamos com uma participação de 7% no capital. É claro que temos retorno nos investimentos. Mas não é o nosso foco. Uma coisa que muita gente não entende sobre investimento em startups é que não temos retorno na grande maioria das vezes. É  o sucesso de poucas que faz com que haja dinheiro para as outras

Você disse que recebem centenas de candidaturas para o programa de aceleração e que não é preciso mais do que um plano de negócios para ser aceito. É preciso já ter algum sucesso para receber atenção de um investidor como vocês?

Não, algumas das nossas melhores empresas não tiveram sucesso antes de começar o programa. O Airbnb falhou. Se eles não tivessem vindo até nós, teriam morrido – e eles te dirão isso se você perguntar, não é segredo. Drew Houston, da Dropbox, também tinha pouco sucesso então. Ele construiu a maior parte do serviço enquanto estava no nosso programa. Você sabe qual foi sua primeira ideia? Era uma empresa de tecnologia educacional.

O Airbnb é uma companhia com avaliação hoje na casa de 30 billhões de dólares. Qual era o problema deles na época?

Ninguém estava usando o produto.  Quando nosso sócio perguntou onde estavam os clientes deles, disseram que a maior base era em Nova York. “O que vocês estão fazendo aqui? Vá para lá, fale com seus clientes”. A partir daí, todas as semanas eles voavam para Nova York. E eles encontraram algo realmente interessante: se você olhasse para as listagens de apartamentos, em Nova York, todos pareciam o mesmo, e todos eram terríveis.

Qual foi a solução, nesse caso?

Um dos fundadores, Brian Chesky, se ofereceu para tirar fotos profissionais dos apartamentos dos clientes. Os outros usuários viram que precisavam melhorar. E todas as listas, de repente, melhoraram também. E as pessoas começaram a usar o serviço, porque os lugares pareciam agradáveis para se ficar. Uma grande mensagem é: você deve conversar com seus clientes e depois criar seus softwares, depois conversar novamente com seus clientes e torná-lo melhor e melhor.

Vocês já financiaram centenas de empresas, e obviamente nem todas conseguem ter sucesso. Como é possível avaliar que uma empresa deu certo?

Há um milhão de passos no caminho para o sucesso, mas é o caminho que é o mais importante. Os seres humanos são muito orientados para objetivos, então você deve ter um. Tentar se tornar um titã de uma indústria, torne-se bilionário… esse tipo de coisa é boa. Eu digo a todos os fundadores: só porque você estabeleceu uma meta super difícil de atingir, que nem mesmo você conseguirá alcançar, é a sua vida que importa, e não um objetivo. Então, viva a vida.

E há todo o tipo de sucesso no caminho. Você pode ter uma empresa que falhe, mas em que faça amigos e dê às pessoas uma experiência incrível durante esse período. Ou uma que tenha um êxito que renda a todos um pouco de dinheiro, e os ajude a dar o passo para o próximo nível em suas carreiras.

Por que as pessoas deveriam criar startups?

Porque, na minha opinião, apesar de extremamente difícil, é a coisa que mais vai dar mais progresso, mais excitante, e o melhor que se pode fazer, em termos de carreira. Vale porque você ama o que faz, quer passar o resto dos seus dias fazendo isso, está no controle no seu destino e mudando o mundo. Isso é excitante. Quando se cria uma startup, mesmo que ela não seja um grande sucesso, você está fazendo coisas novas, está gerando empregos, está ajudando a melhorar alguma coisa.

Que tipo de critérios vocês usam para decidir se o projeto de uma startup terá impacto positivo ou não?

Nós tentamos não ser prescritivos, e avaliar as ideias que chegam com o nosso melhor juízo sobre coisas que teriam um bom impacto para o mundo. Por exemplo, startups que fazem projetos envolvendo água, energia, educação, tecnologia médica e biotecnologia. Há espaço para a inovação nesses campos.

Financiamos duas empresas de energia nuclear, porque estamos tentando criar energia barata e abundante, o que seria uma coisa fantástica para o mundo. Se você tem energia abundante e barata, pode fornecer água para todos, por exemplo. Porque a água vai ser um grande problema nas partes mais secas do mundo, especialmente se a mudança climática global continuar nesse ritmo.

Esta é a primeira vez que a empresa vem ao Brasil falar com empresas daqui. Qual o motivo do interesse no país?

Nós visitamos vários países, mas ainda não tínhamos vindo aqui. Ultimamente, temos mais ido em busca das startups do que esperado que elas cheguem até nós. O Brasil é o mercado mais importante da América do Sul, e não estávamos recebendo muitas candidaturas do país.

Que tipo de startups vocês acham que têm mais chances de prosperar por aqui?

O Brasil é um terreno fértil para startups. E, provavelmente, em cada domínio que você pode pensar, há potencial. Existem alguns domínios que são mais quentes agora, como fintechs – em parte devido a às criptomoedas. Há pessoas fazendo coisas inovadoras com Bitcoin e Ethereum, buscando maneiras de tornar os serviços financeiros mais eficazes.

Mas acho que é igualmente verdade que você encontra, não apenas em educação, mas na medicina, muito espaço para ganhos de eficiência e eficácia.

Você também havia mencionado o potencial de drones…

Os drones também terão um enorme impacto. Quando você tem uma grande área como o Brasil, com população dispersa, se você precisa realmente transportar coisas pelo chão, ou voar com um avião e um piloto, isso pode ser, caro, lento e inseguro. Mas com um drone, você pode entregar itens emergenciais, por exemplo, em centenas de quilômetros. E fornecer todos os tipos de serviços que não existem hoje.