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“Não coloco meus valores em xeque”, diz o general Silva e Luna a VEJA

De saída da presidência da Petrobras, o general revela tentativas de interferência na empresa por parte do presidente Bolsonaro

Por Victor Irajá Atualizado em 1 abr 2022, 12h39 - Publicado em 1 abr 2022, 06h00

O senhor se sente traído pelo presidente Jair Bolsonaro? Não. O presidente é um político, minha relação com ele foi respeitosa. Mas, ao final, em razão de não poder alterar preços, não aceitar interferência dentro da empresa, não aceitar mudar pessoas aqui dentro, trocar diretores, esse foi o desfecho. Não vendo minha alma a ninguém, não coloco meus valores em xeque. A diretoria que trabalha comigo tem confiança em mim. Tenho dever e lealdade com o presidente da República, mas algumas coisas não posso fazer. Não fiz.

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Como se deram as pressões do presidente em relação ao senhor? As pressões sempre foram crescentes. Em torno do preço dos combustíveis, por troca de diretores. Foram todas absorvidas, nunca cedidas. Nenhuma. Essas resistências foram crescendo, foram feitas algumas sinalizações públicas. Mas eu não abandonaria o campo de batalha. Não me senti surpreendido com o desfecho. A forma me surpreendeu um pouco.

Surpreendeu como? Esperava um contato telefônico, algo nesse sentido. Como estou aqui para um mandato de dois anos, não imaginava esse tipo de armadilha. Tive contato com a lista a ser enviada ao conselho de administração de última hora, tirando meu nome e colocando outros. Caberia uma maneira mais respeitosa de se fazer isso. Considero como parte do processo. Mas não custava dizer que precisava do cargo, me ligar. Estaríamos resolvidos. Não tenho apego a cargo, a nada. O final do filme não foi surpresa, mas jamais imaginei que chegaria a esse momento. Não negocio com minha alma. Não vendo minha alma a ninguém.

O presidente imaginou que, ao nomeá-lo para o cargo, o senhor cederia com mais facilidade? Houve um equívoco. A minha história de vida é de entregas. O presidente conhecia meus resultados, pelos trabalhos em Itaipu e no Ministério da Defesa. Então, uma série de expectativas que poderia haver em torno da empresa podem ter sido frustradas. Tenho responsabilidade social, não para fazer política pública ou partidária. Existiu um período turvo na Petrobras, todos sabem disso. Ela passou pelo vale da morte, foi a empresa mais endividada do país. Mas a empresa não faz política, as normas de governança não permitem isso.

A pressão o incomodou?  Pressão nunca me intimidou. Passou a me incomodar quando começaram a falar coisas que não são verdadeiras, porque impactam a companhia. Tenho a responsabilidade de zelar pela imagem da empresa. Isso me incomodou. Disseram que ganho 200 000 reais mensais. Isso é mentira, não existe nada disso. Não é verdade, não ganhei nem metade disso. Não vim para cá por causa de dinheiro, vim para servir ao país. Isso incomoda. Tem coisas que são sagradas para mim.

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Bolsonaro pediu a nomeação de diretores? Houve indicações nesse sentido, mas confesso que isso não me incomodou. Eu não ia fazer. Então, eu dormia tranquilo. Meu apego a cargo é zero, nunca tive. Vim para servir. Entendi que tinha de cuidar da empresa, a parte política não cabia a mim. Saio com a alma lavada e com muito orgulho. A Constituição fala de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Honrei todos esses cinco princípios aqui dentro e posso mostrar. O lucro é eficiência, tenho retorno. É fruto de uma boa gestão. Fico muito tranquilo. Sensação de dever cumprido? Não. Mas tenho certeza de que entrego ao meu sucessor uma empresa na melhor condição que ela esteve em toda a sua existência.

Como recebeu a indicação de Rodolfo Landim para o conselho da empresa? Tive um único contato com ele. Em setembro do ano passado, ele esteve aqui na empresa, conversamos cerca de quarenta minutos. Na época, ele comentou que tinha condições de baixar o preço dos combustíveis, mas que precisaria ter um cargo na empresa — uma direção, um conselho. E se mostrou muito próximo do presidente. Mas não passou disso.

O que explica os preços tão altos dos combustíveis? Estamos em uma sequência de três grandes problemas: Covid-19, a crise hídrica do ano passado e, agora, a guerra no Leste Europeu, que impacta o mundo inteiro. Não é privilégio do Brasil.

Se Lula for eleito, como o senhor avalia que isso impactará a Petrobras? Eu confesso que gostaria que o resultado das eleições fosse outro, mas, se isso acontecer, para mudar algo na Petrobras, vai ter de mudar muita norma, muita lei. Tenho dito de forma contundente que aqui não cabe aventureiro, hoje a governança da Petrobras não permite isso. Graças à governança, não vejo possibilidade para que aconteça algo parecido com o que ocorreu no passado.

Até onde Bolsonaro vai pressionar para baixar o preço dos combustíveis, e com isso tentar aumentar sua popularidade e buscar se reeleger? Não tenho ideia, não. Mudar a legislação fica difícil. Mexer na política de preços é como mexer na lei da gravidade. A forma de baixar o preço é torcer para a guerra passar. Não vejo solução a partir da Petrobras.

Publicado em VEJA de 6 de abril de 2022, edição nº 2783

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