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Na onda dos bitcoins

Para o historiador Garrick Hileman, a nova moeda virtual, se desenvolvida, pode ajudar o sistema financeiro a se tornar mais seguro e eficiente

Por Garrick Hileman - 13 fev 2014, 17h00

Inovações apresentadas originalmente pelo bitcoin podem – e, portanto, devem – desempenhar um papel transformador na construção de um sistema financeiro mais seguro, barato e eficaz.

O bitcoin é um dinheiro intangível criado na internet. Seria uma bolha especulativa? Ou realmente tão anônimo como seus proponentes alegam? Será mesmo possível usá-lo para comprar a lendária maconha White Widow, ou contratar um assassino?

Essas são perguntas interessantes que podem desviar a atenção de discussões importantes sobre o potencial do bitcoin em impulsionar a inovação do setor financeiro.

Bitcoin é, de fato, um sistema financeiro inovador que, além de quebrar as convenções da moeda, transcendeu ideologias partidárias. Com efeito, Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, e Ron Paul, ícone do Tea Party, são opositores em todas as questões possíveis, menos em relação ao bitcoin – ambos criticam o uso da moeda.

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Críticos do bitcoin deveriam se perguntar como ideias inovadoras subjacentes poderiam ser usadas para promover reformas no sistema financeiro global. Ainda que a crise financeira de 2008 exibisse profundas deficiências institucionais, a resposta – incluindo a chamada Lei Dodd-Frank e suas rígidas regras de salvaguardas, e as normas bancárias de Basileia III – falhou em trazer as transformações necessárias. Da mesma forma, movimentos de protesto da população, como Ocupy Wall Street, que visavam sensibilizar e, finalmente, reformar a cultura das finanças, produziram resultados heterogêneos.

Mas o fato é que ninguém – exceto, talvez, o pequeno círculo de financistas e empresários que se beneficiaram com os regastes financiados por impostos que saíram do bolso dos contribuintes – deve estar satisfeito com o sistema atual, sobretudo porque uma nova crise, muito provavelmente acompanhada por mais resgates a bancos, deve ocorrer num futuro não tão distante.

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Enquanto o momento exato da próxima crise não pode ser previsto, uma coisa é certa: a avaliação de que tipo de sistema financeiro melhor se enquadraria ao mundo no século XXI seria incompleta sem o bitcoin. Afinal, a tecnologia por trás da moeda virtual não só poderia ajudar a reduzir o risco sistêmico, criando salvaguardas para blindar o sistema de pagamentos de atividades financeiras favoráveis, porém imprevisíveis. Essa moeda também pode ter um papel importante no fomento ao crescimento econômico.

As instituições financeiras agem basicamente como casamenteiras: unem os investidores, os mutuários e poupadores; registram o que as pessoas possuem e o que elas devem. Em troca desses serviços, os profissionais financeiros são compensados generosamente. Então, ao perguntar se os enormes salários dos banqueiros são justos, seria realmente como perguntar qual o valor cobrado por um casamenteiro financeiro – uma pergunta para a qual não há uma resposta simples. O que está claro é que, ao permitir uma maior canalização da riqueza de uma economia ao investimento e a ao setor produtivo, a indústria de serviços financeiros tende a impulsionar o crescimento econômico.

Em outras palavras, a indústria de serviços financeiros pode ser vista como uma espécie de imposto sobre o resto da economia. E, tendo em conta os elevados custos dos sistemas financeiros que são antiquados, caros e ineficientes – em Londres, por exemplo, os cheques devem ser enviados fisicamente de um banco para outro, o que significa 5 a 6 dias para uma simples compensação – quanto menor o sistema financeiro, melhor para todos.

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A ineficiência global do sistema financeiro não é simplesmente um resultado de regras e estruturas obsoletas; lucrar também é um fator importante. Enquanto autoridades britânicas anunciaram recentemente um novo método de transferência de cheques, eles continuarão a ter um atraso na compensação, ou seja, ainda terão um prazo de dois dias para serem pagos. Dado que as imagens digitalizadas dos cheques poderiam ser processadas eletronicamente quase que instantaneamente, o atraso poderia ser explicado apenas pelo “float” – ou seja, tempo em que os recursos permanecem à disposição do banco sem remuneração.

A cobrança de Float ou Floating é uma saída para as instituições financeiras extraírem fundos da economia. A taxa de 3 a 5% cobrada pelas empresas de cartão de crédito resulta em centenas de bilhões de dólares em lucros anuais para empresas como Visa e MasterCard. As taxas de câmbio e de transferências bancárias podem subir rapidamente para 10% ou mais por transação, com interrupções e procedimentos complexos, tornando esses serviços ainda mais caros.

Mas há razão para esperança. Com as inovações preconizadas pelo bitcoin, as taxas, os atrasos e outras ineficiências que servem para encher os bolsos daqueles em serviços financeiros podem ser eliminados.

Em meados de novembro passado, Ben Bernanke, ex-presidente do Federal Reserve, o banco central americano, deu a primeira declaração oficial sobre o tema. “As moedas virtuais serão promissoras no longo prazo caso permitam pagamentos rápidos, seguros e eficientes”, escreveu, numa carta enviada ao Senado. Como um sinal, o mercado varejista americano foi hackeado – outro episódio em uma longa sequência de grandes roubos de dados financeiros.

O bitcoin, com sua capacidade de anonimato, poderia certamente contribuir para tornar o sistema financeiro global mais seguro, evitando problemas consideráveis e despesas aos consumidores e ao comércio. Ao mesmo tempo, a moeda oferece um armazenamento alternativo de valor – e seu uso como um meio de troca é crescente.

Talvez a inovação mais interessante do bitcoin seja o Blockchain – um software peer-to-peer que mantém o registro de todas as transações, além do registro de quem o possui. O Blockchain serve essencialmente como a função de “livro” que os bancos utilizam hoje, mas por uma fração do custo para consumidores e empresas.

Alimentado por um algoritmo de rede descentralizada e mantido por qualquer pessoa que escolha fazer o download do software livre, o bitcoin marca o retorno da sociedade a uma abordagem baseada na percepção comunitária de dinheiro e bancos – com serviços financeiros mais intimamente ligados às pessoas que os usam. Grandes gestores monolíticos e administradores de recursos de terceiros, como os bancos ‘grandes demais para quebrar’, poderiam ser cortados do sistema. Assim, com softwares como o Blockchain alimentando uma nova arquitetura financeira, as pessoas poderiam efetivamente se tornarem ‘o banco’.

Bitcoin e seu ecossistema ainda estão amadurecendo – e só o tempo dirá se os atuais níveis de preços refletem uma bolha especulativa. Mas as inovações apresentadas originalmente pela moeda virtual podem – e, portanto, devem – desempenhar um papel transformador na construção de um sistema financeiro mais seguro, barato e eficaz.

Garrick Hileman é historiador econômico da London School of Economics (LSE) e fundador do site MacroDigest.com

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate, 2014

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