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Mercados emergentes, moedas decadentes

Segundo Michael Heise, economista-chefe do grupo Allianz, a desvalorização cambial dos emergentes não é um prenúncio do fim da exuberância de suas economias

Por Michael Heise 8 fev 2014, 07h34

O ano de 2014 começa com sinais de instabilidade para muitas economias emergentes. Há uma acentuada preocupação com a desaceleração da economia chinesa. A forte queda do peso argentino frente ao dólar provocou pressão de venda generalizada de moedas de países emergentes como um todo. Mas a volatilidade atual não é prenúncio de uma desaceleração permanente dessas economias como um todo. A diferenciação é necessária – e é isso que os mercados financeiros estão fazendo agora.

A escala do desgaste varia amplamente de país a país. Exemplo disso são os problemas que atualmente assolam a Argentina. Eles podem ser tudo, menos uma surpresa. Ao contrário, são o resultado de anos de anos de má gestão política, que resultou em inflação elevada, moeda supervalorizada e corrosão maciça das reservas externas.

Por outro lado, as moedas dos mercados emergentes da Europa Central e Oriental permaneceram relativamente estáveis. Por exemplo, graças ao desempenho robusto da economia da Polônia, a moeda local (o złoty) manteve sua taxa de câmbio estável em relação ao euro, caindo apenas 2,2% desde o começo do ano. O forint húngaro registrou queda de pouco mais de 5% em relação à moeda única no mesmo período – menos que no passado, quando problemas macroeconômicos do país tornaram a taxa de câmbio mais vulnerável às mudanças de perspectiva de mercado.

A estabilização da economia da zona euro e a redução dos desequilíbrios têm ajudado a melhorar as perspectivas de crescimento para os países da Europa Central e Oriental. Além disso, a maioria dessas nações tem feito progressos ao controlar seus próprios desequilíbrios. Por outro lado, a moeda russa continuou sua longa trajetória em queda livre este ano, caindo mais de 5,5% desde o início de janeiro. Os motivos são, principalmente, internos: o frágil clima para investimentos, pesadas saídas de capital e amplo déficit em conta corrente.

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Olhando para a América Latina também notamos grandes diferenças regionais. O peso argentino, o principal culpado da região, despencou 19% em relação ao dólar este ano. No Brasil, as perdas do real em 2014 têm sido relativamente baixas, mas isso vem da forte depreciação no ano passado. O capital também está deixando o México e o Chile.

A dependência da região em relação às commodities é preocupante. Se o crescimento econômico chinês se mostrar mais fraco que o esperado, os preços das commodities e as exportações estão propensos a cair, prejudicando o crescimento dos países latino-americanos.

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No entanto, como os indicadores de produção industrial globais sobem desde o segundo semestre de 2013, assinalando melhorias nas economias avançadas, as previsões negativas para os mercados de commodities podem estar equivocadas.

Até agora, as perdas cambiais asiáticas estão limitadas. A moeda sul-coreana (o won) sofreu uma grande queda (de 3%) entre o início do ano até fevereiro (resultado de uma tendência ascendente prolongada no ano passado). As moedas indiana e indonésia têm aguentado bem a tempestade, após uma queda abrupta em 2013. A rúpia, sobrecarregada por um crônico déficit em conta corrente, o avanço da inflação e uma acentuada desaceleração no crescimento, perdeu 11% ao longo do ano passado.

Paradoxalmente, a China, país atualmente sob intensos holofotes, é a única grande economia emergente cuja moeda subiu ligeiramente em relação ao dólar. Fato notável quando se leva em conta os enormes desafios que a China enfrenta – como o de reequilibrar o seu modelo de crescimento para arcar com a bolha de crédito imobiliário. Autoridades chinesas estão prestes a apertar a política monetária e impor medidas reguladoras para refrear o risco sobre a dívida, que implica sacrificar o crescimento econômico de curto prazo e recolocá-lo numa base estável. Evidentemente, os mercados acham que as autoridades estão à altura da tarefa.

A Turquia, um país cujo enorme potencial de crescimento é marcado por grandes desequilíbrios, não foi tão feliz. A lira turca está sendo ridicularizada, caindo mais de 7% em relação ao euro desde janeiro – e 24% desde meados do ano passado. Mas a vulnerabilidade do país à brusca mudança nos mercados financeiros era previsível. Déficits em transações correntes (financiados principalmente pela entrada de capitais de curto prazo), a incerteza política interna e os últimos episódios da política monetária pouco ortodoxa têm prejudicado toda confiança do investidor nos últimos meses. Como na China, os processos necessários de ajustamentos vão pesar sobre o crescimento no curto prazo, embora as perspectivas de médio e longo prazo sejam positivas.

Os mercados financeiros estão evidentemente castigando as moedas dos países, que, devido a desequilíbrios macroeconômicos ou instabilidade política, são suscetíveis a choques externos de qualquer tipo. Com efeito, alguns participantes temem que a espiral de depreciação, aumento da inflação e taxas de juros ascendentes possam expandir a crise de confiança numa escala maior.

Mas, por enquanto a retirada de capital não pode ser descartada, pois nem todos os investidores nadam a favor da maré. Com os preços dos países afetados por essa crise a um patamar muito mais favorável, as medidas de estímulo à confiança poderiam incentivar futuros investidores a testar essas águas.

Em termos gerais, as desvalorizações podem ajudar a aumentar a competitividade e reduzir os déficits externos. Mas, no curto prazo, essas desvalorizações podem agravar problemas econômicos porque incitam maiores reivindicações salariais, alimentando a pressão inflacionária e aumentando os custos de financiamento externo.

Nestas circunstâncias, a política monetária deve desempenhar um ato de equilíbrio. Para combater o aumento da inflação doméstica, os bancos centrais precisam elevar as taxas de juros – sem sufocar o mercado. Os políticos estão mais propensos a ter sucesso em suas empreitadas à medida que reformas internas abordem os desequilíbrios macroeconômicos e outros obstáculos para o crescimento de longo prazo.

Michael Heise é economista-chefe do grupo Allianz

(Tradução: Roseli Honório)

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