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Mercado e economistas se dividem sobre tamanho do corte nos juros

Início do ciclo deverá destravar o crédito e estimular a atividade econômica no Brasil. Mas a retomada do crescimento do país está apenas começando

Por Luana Zanobia, Pedro Gil, Felipe Mendes Atualizado em 4 jun 2024, 09h59 - Publicado em 28 jul 2023, 06h00

Na economia, assim como nas outras áreas do conhecimento, chegar a um consenso é algo que costuma ser muito raro. Nas últimas semanas, o Brasil parece ter alcançado esse momento único. Empresários de todos os portes, analistas e gestores do mercado financeiro, políticos dos mais diversos espectros ideológicos, personalidades liberais e progressistas e cidadãos comuns concordam que, a despeito de suas visões particulares de mundo, é hora de o Banco Central cortar os juros. No dia 2 de agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne em Brasília para decidir os novos rumos da Selic, a taxa básica que baliza as transações financeiras realizadas no país. O consenso — eis aqui novamente a palavra que merece ser usada apenas em ocasiões especiais — sinaliza que o BC, enfim, mudará de postura após exatos 28 meses em que a Selic subiu ou se manteve inalterada. Agora, a não ser que haja alguma surpresa indesejável, a curva iniciará a sua jornada descendente.

Os juros, obviamente, não sobem ou caem por acaso, mas refletem os cenários econômicos dos países. De maneira simplificada, as taxas altas são usadas como um antídoto contra a escalada inflacionária. Na direção oposta, taxas baixas aceleram a atividade econômica. “Ruins são os efeitos dos juros, mas pior ainda são os impactos da inflação”, disse Roberto Campos Neto, o presidente do BC, em defesa de sua política de aperto monetário amplamente criticada pelo presidente Lula. Para o petista, Campos Neto manteve até agora a taxa nas alturas por razões políticas, mas a lamúria não poderia ser mais injusta. Acertadamente, a autarquia continuou a elevação dos juros ao longo de 2022, durante o período eleitoral, quando os preços ameaçavam sair de controle — o que, de fato, não ajudou em nada o então presidente Jair Bolsonaro. Lula, por ironia, tende a ser beneficiado pelo novo ciclo de queda da Selic. Esses movimentos só reforçam por que é vital ter um BC independente.

Não há razão para insistir na Selic em 13,75% ao ano. As condições para a queda dos juros estão dadas, expressas principalmente na inflação em declínio. Mas existem outros motivos. O novo marco fiscal, que deve impor freios aos gastos públicos, a reforma tributária concebida com a premissa de simplificar o emaranhado de impostos e até a trégua nos ruídos políticos são fatores que serão colocados na balança. “Só no início do segundo trimestre o governo deu sinais de que estava indo na direção correta”, diz o economista Luiz Fernando Figueiredo, ex-­diretor do Banco Central, ao explicar por que só agora há consenso — ele de novo — sobre o corte de juros.

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O mercado está dividido apenas quanto ao ritmo que a autoridade monetária adotará na reunião da semana que vem. As expectativas se dividem entre corte de 0,25 ou 0,5 ponto percentual. Uma ala, liderada pelo recém-empossado Gabriel Galípolo na diretoria de Política Monetária, defenderá que a redução seja mais agressiva. Do lado oposto, o grupo mais conservador, capitaneado por Fernanda Guardado (Assuntos Internacionais) e Diogo Guillen (Política Econômica), brigará por um movimento mais cauteloso. Há dúvidas sobre a posição de Roberto Campos Neto. “Tendo a acreditar que ele vai apoiar um corte de 0,5 ponto percentual”, diz o economista Tony Volpon, também ex-diretor do Banco Central.

NA FÁBRICA - Linha de produção da Fiat: com o crédito caro, os financiamentos caíram e afetaram as vendas do setor
NA FÁBRICA – Linha de produção da Fiat: com o crédito caro, os financiamentos caíram e afetaram as vendas do setor (Pedro Vilela/Getty Images)

Sob diversos aspectos, o tamanho do corte não importa muito. O que está em jogo, na realidade, é a virada da curva, que necessariamente precisa apontar para baixo. Ressalte-se que a atividade econômica brasileira está sufocada pelo juro real — a diferença entre a Selic e a inflação — mais alto do mundo. Em junho, o juro real era de 7,54%. No México, segundo colocado no ranking, o índice estava em 5,94%. Nos Estados Unidos, 1,25%, conforme dados da plataforma de transações monetárias MoneYou. Outro fator que pesa a favor dos cortes diz respeito ao chamado núcleo da inflação, aquele que mais preocupa os especialistas. Ele exclui para o cálculo inflacionário movimentos temporários. É o caso dos alimentos in natura, cujos preços sobem ou baixam com muita rapidez. No Brasil, o núcleo da inflação segue mais alto do que a taxa geral, mas também começou a cair.

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NO SUPERMERCADO - Prateleiras cheias: os preços dos alimentos pararam de subir e, em alguns casos, até caíram
NO SUPERMERCADO - Prateleiras cheias: os preços dos alimentos pararam de subir e, em alguns casos, até caíram (Eduardo Matysiak/Futura Press)

O início do ciclo de distensionamento da política monetária é aguardado com ansiedade pela turma da Faria Lima — espera-se que seja um gatilho para a valorização das ações negociadas na B3, a bolsa de valores do Brasil. Segundo o boletim Focus, relatório que mede os ânimos do mercado, os agentes financeiros calculam que a Selic chegará a 12% no fim deste ano e a 9,5% ao término de 2024. Ainda assim, é um pouco mais do que seria considerado ideal para evitar distorções na atividade econômica.

O mercado de capitais brasileiro andou devagar nos últimos meses, e isso se deve inclusive às taxas de juros elevadas. De acordo com a Associação Brasileira das Entidades do Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), entre 2022 e 2023 foi realizada apenas uma abertura de capital na bolsa, algo raro na história recente do país. Para efeito de comparação, em 2021 houve 46 IPOs (oferta inicial de ações, na sigla em inglês), marca que, segundo analistas do setor, certamente levará um bom tempo para ser repetida. Se não houver surpresas, o ano de 2023 tende a permanecer zerado.

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A expectativa de redução da Selic é compartilhada pelo mundo dos negócios. “O Banco Central fez um excelente trabalho até aqui, mas é hora de ajustar a dose do remédio”, afirma Camila Funaro Camargo, presidente da Esfera Brasil, associação empresarial que promove estudos e eventos corporativos. “A redução da taxa de juros tem impacto direto na diminuição do desemprego e na renda da população, dois indicadores cruciais para garantir que os 28 milhões de consumidores atendidos diariamente por nós possam adquirir tudo que necessitam”, diz João Galassi, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras). “Estou otimista com o cenário e acho que a economia pode começar a se movimentar”, acrescenta Antonio Carlos Pipponzi, presidente do conselho de administração da rede de farmácias RaiaDrogasil.

arte juros

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Em comum, todos eles apontam para uma atividade enfraquecida pela agenda de juros altos: a oferta de crédito. Com as taxas nas alturas, os consumidores financiam menos carros, deixam de comprar casa própria e não trocam os eletrodomésticos da casa. Portanto, não apenas os varejistas sofrem, mas também as indústrias que fabricam bens de consumo. Por sua vez, as empresas fogem dos empréstimos bancários para obter os recursos necessários aos investimentos. Os números são incontestáveis. Em junho, os juros para compras no comércio estavam em intoleráveis 92% ao ano. Enquanto isso, as empresas pagavam 29% anuais para emprestar capital de giro. Não à toa, a busca por crédito corporativo caiu 3,5% no primeiro semestre diante de igual período do ano passado, segundo a empresa de análise de crédito Serasa Experian.

ANIMADO - Galípolo, recém-chegado ao BC: ele defende cortes mais agressivos da Selic
ANIMADO - Galípolo, recém-chegado ao BC: ele defende cortes mais agressivos da Selic (Diogo Zacarias/MF//)

Na economia, é fácil identificar as relações de causa e consequência. Com o crédito caro, os índices de inadimplência sobem. As estatísticas são contundentes: o número de empresas devedoras passou de 5,9 milhões em dezembro de 2020, quando a Selic estava em seu menor patamar histórico, para 6,5 milhões em maio deste ano, já com a taxa nas nuvens. Enquanto isso, os níveis de atraso nas dívidas entre a população adulta passaram de 38% para 44%. Diversas razões levaram a esse cenário, mas a Selic alta é uma vilã incontestável. Não à toa, o governo federal lançou recentemente dois programas de renegociação de dívidas, o Desenrola e o Renegocia, que, afinal, ambicionam estimular o consumo.

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FESTA - Abertura de capital da empresa de saúde Viveo: a cena rareou na Bolsa
FESTA - Abertura de capital da empresa de saúde Viveo: a cena rareou na Bolsa (Cauê Diniz/B3//)

Há outros sinais animadores na economia. Um dos mais recentes foi a elevação da nota de risco do Brasil pela agência Fitch. Em junho, sua rival S&P havia feito movimento semelhante. A escala de avaliação indica sobretudo o risco de um país dar calote — o Brasil ainda está distante de recuperar o grau de investimento perdido em 2015, embora as novas notas indiquem que o ambiente aqui vai ficando mais seguro para a vinda de recursos. “São notícias positivas, que podem acelerar o processo de redução de juros”, diz o economista Gustavo Loyola, ex-pre­sidente do Banco Central. Não há dúvida: a tão desejada queda da Selic virá na semana que vem, mas a jornada para a retomada do crescimento está apenas começando.

Publicado em VEJA de 2 de agosto de 2023, edição nº 2852

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