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Maldição do ‘pibinho’ deve perdurar em 2013 e 2014

Economia avança 1,5% no segundo trimestre, mas previsões de desaceleração para o próximo semestre podem sepultar o sonho de grandeza do governo

O crescimento de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre pode provocar, momentaneamente, um suspiro de otimismo no governo. No acumulado de 12 meses, encerrados em junho, o crescimento da economia brasileira foi de 1,9%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas manter esse mesmo ritmo até o final do ano será missão impossível, segundo analistas ouvidos pelo site de VEJA.

O resultado do segundo trimestre, apesar de não exalar qualquer esplendor de PIB asiático, mostra que o primeiro semestre não foi de todo ruim. Do lado da oferta, o período foi beneficiado pelo agronegócio; já pela ótica da demanda, os investimentos ajudaram. Contudo, as expectativas para o próximo semestre apontam para uma desaceleração importante da oferta, no setor de serviços, enquanto a demanda será penalizada pelo desempenho ruim do consumo privado. “Esse é um cenário oposto ao visto no ano passado, quando o baixo crescimento era uma preocupação com a indústria, devido à baixa competitividade e altos custos da mão de obra. Já neste ano, o que vemos é diferente. A indústria está um pouco melhor, mas o setor de serviços perde força”, afirma a economista Zeina Latif, da consultoria Gibraltar.

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As óticas da oferta e da demanda são duas formas distintas de calcular o PIB, mas que devem chegar a um mesmo resultado. A oferta é tudo o que é produzido pelos setores econômicos (agropecuária, serviços e indústria). Já a demanda e calculada pelo gasto das famílias, do governo e das empresas. As exportações também entram nesse cálculo.

O consumo das famílias será um dos motores de desaceleração do país nos próximos meses. Além das manifestações que espantaram muitos consumidores, há o alto endividamento da população, a inflação e a preocupação com o mercado de trabalho. Ainda que o índice de desemprego do IBGE esteja próximo de mínimas históricas, os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de julho mostram saldos negativos de emprego em determinados segmentos, como borracha e fumo.

O setor agrícola tampouco deve servir como indutor do crescimento. Primeiro, porque representa apenas 5% do PIB. Em segundo lugar, de acordo com Zeina, os bons resultados do primeiro semestre – sobretudo o do primeiro trimestre – se devem a fatores sazonais da safra de grãos, e não ao aumento da demanda mundial por commodities. “Não há força para um PIB acima de 2% nem para esse ano e nem para 2014”, afirma. Segundo a pesquisa Focus, feita pelo Banco Central com economistas, a economia brasileira deve crescer 2,4% no ano que vem.

A divulgação do PIB é um retrato do passado, já que é feita dois meses depois do fim do período calculado. Assim, por mais que o número tenha sido animador, um outro Brasil se forma para o próximo semestre e, também, para o início de 2014. Segundo a economista Monica Baumgarten de Bolle, da consultoria Galanto, os acontecimentos sociais e econômicos de junho a agosto deram outro tom à economia brasileira – muito mais cauteloso e, para alguns, pessimista. “Estamos vivendo um outro Brasil nos últimos meses. Além da inflação que já preocupava, aconteceram as manifestações, a crise no câmbio e uma grande dificuldade em retomar investimentos. Diante disso, fica difícil olhar para 2013 com otimismo”, afirma.

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O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não encontrou a mesma dificuldade ao anunciar, na quinta-feira, o projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2014, que prevê um crescimento econômico de 4% para o ano que vem. As previsões do ministro representam quase o dobro do cálculo do mercado. Ele acredita que as concessões de rodovias, portos e aeroportos a serem realizadas no ano que vem impulsionarão os investimentos e ajudarão o país a crescer. Os investimentos representam, do lado da demanda, 18% do PIB.

O fato de ser ano eleitoral também deve embasar o otimismo de Mantega. Afinal, significa a abertura desmedida das torneiras que jorram dinheiro público com o intuito de terminar o que ficou travado ao longo de quatro anos de gestão Dilma e tentar, com isso, angariar votos para a reeleição. “Parte dessa projeção do governo parte do princípio de que os leilões serão bem sucedidos. Faz parte do papel do governo contar ao público uma boa história. Mas também faz parte do comportamento de mercado olhar para essa história com cautela. As pessoas não veem as concessões com o mesmo otimismo que o governo”, afirma Monica. Uma das razões para a desconfiança é a taxa de retorno de 7,5% ao ano oferecida aos grupos que vencerem os certames – considerada insuficiente. A atratividade econômica das obras ficou ainda menos evidente para o setor privado depois que o BC voltou a subir os juros, em abril deste ano, tornando o mercado de títulos atrelados à Selic mais atrativo.

Para tentar reverter um resultado pífio em 2014, o governo tem ainda algum (limitado) espaço fiscal para estimular a economia – mesmo que, ao usá-lo, ele deteriore ainda mais a solidez das contas públicas. A questão é identificar, desta vez, quem está disposto a aceitar estímulos. Mais crédito para famílias endividadas pode ser mais um tiro n’água, já que os brasileiros tentam, agora, reorganizar seus gastos para saldar suas dívidas. Mais desonerações para estimular a indústria tampouco funcionam se a demanda por produtos não corresponder. O alívio do PIB pode vir para o agronegócio, caso China e Estados Unidos voltem a crescer num ritmo mais acelerado. Mas nem só de soja vive um país.