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Invasão da Ucrânia pela Rússia expõe ao mundo o modelo de guerra híbrida

No novo arsenal, as ações militares são associadas a uma vasta gama de atividades paralelas para enfraquecer o inimigo

Por Daniel Hessel Teich, Luana Meneghetti, Luisa Purchio Atualizado em 4 mar 2022, 11h47 - Publicado em 4 mar 2022, 06h00

Vinte horas antes de Vladimir Putin surgir na TV russa para a anunciar seu plano de ataque à Ucrânia, às 5h40 da manhã do dia 24 de fevereiro, um fenômeno foi registrado nos servidores e websites dos ministérios das Relações Exteriores, da Defesa e do Interior do país. Simultaneamente, os sites ucranianos saíram do ar, junto com os do Serviço de Segurança Institucional e do Gabinete de Ministros, todos baseados na capital, Kiev. O ataque conhecido no ramo de tecnologia como do tipo DDoS (da sigla em inglês para negativa distribuída de serviço) nocauteou as páginas virtuais a partir da simulação em volume colossal de acessos que derrubam o serviço. Quase simultaneamente, outro ataque, dessa vez de um tipo conhecido como wiper (limpador), apagou dados dos servidores de instituições financeiras e empresas ucranianas. No mesmo dia, à noite, horas antes do anúncio fatídico, a multinacional Symantec detectou que um novo tipo de invasor digital havia infestado milhares de computadores no país.

Para os ucranianos, os ataques cibernéticos não são novidade. Desde a invasão da Crimeia pela Rússia, em 2014, o país se tornou um alvo sistemático de brigadas cibernéticas financiadas pelo Kremlin que tentam, por meio de suas invasões digitais, semear o caos e desestabilizar o governo. Em 2015 e 2016, o sistema de distribuição de energia elétrica foi atacado e houve corte no fornecimento por vários dias, em pleno inverno. Em 2017, um vírus conhecido como NotPetya se infiltrou nos servidores do sistema bancário, invadiu contas e tirou do ar a rede de caixas eletrônicos. Especialistas em segurança cibernética apontam que, apesar de rapidamente dominado, o ataque que antecedeu a invasão militar pelo Exército russo foi o mais sofisticado e ousado já realizado no país. Registros encontrados no código do vírus wiper mostram que começou a ser escrito em 28 de dezembro do ano passado. Ou seja, vinha sendo cuidadosamente preparado, assim como a invasão por terra, que surpreendeu o mundo.

AÇÃO E REAÇÃO - Ataque a um edifício, veículos russos perto de Kiev e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky: disseminação de imagens como recurso tático -
AÇÃO E REAÇÃO – Ataque a um edifício, veículos russos perto de Kiev e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky: disseminação de imagens como recurso tático – Telegram @vitaliy_klitschko/AFP; Ukrainian Presidential Press Office/AP/imageplus; Telegram @vitaliy_klitschko/AFP

A vasta literatura que trata dos assuntos bélicos oferece uma definição para o cenário de horror, assombro e estupefação que tomou o planeta nos últimos dias. O que se desenrola no conflito entre Rússia e Ucrânia é o que os estrategistas chamam de guerra híbrida. Nela, a destruição física no campo de batalha se mescla a elementos que vão além dos mísseis, tanques, carros de combates, fuzis e bombas. Se, em uma semana, o conflito já infligiu mais de 2 000 mortes de civis e provocou um êxodo de 1 milhão de refugiados, a conflagração nos limites da Europa tem uma dimensão inédita em seu impacto em um mundo globalizado.

O conceito de guerra híbrida começou a ser gestado entre estrategistas americanos a partir da experiência em conflitos caóticos como os do Afeganistão e do Iraque. Um dos principais teóricos sobre o assunto, o ex-­fuzileiro naval e especialista em estudos de guerra, Frank Hoffman, explica que essa modalidade de embate implica a utilização de recursos ambíguos, de fora do espectro bélico. “Muitas vezes são ações não letais como ataques cibernéticos ou mesmo organização de ofensivas de contrainformação em massa”, diz Hoffman. Cabem nessa categoria ampla o uso sistemático de redes sociais, aplicativos de trocas de mensagens e até mesmo financiamentos por meio de criptomoedas. “O ambiente digital é considerado hoje o quinto domínio de um conflito, depois de terra, mar, ar e espaço”, explica Carlos Cabral, pesquisador de segurança da Tempest Security, empresa brasileira especializada em cibersegurança e prevenção a fraudes digitais.

INFORMAÇÃO - Moradores de Kiev acompanham a guerra através dos celulares em abrigo: fator de mobilização da população -
INFORMAÇÃO – Moradores de Kiev acompanham a guerra através dos celulares em abrigo: fator de mobilização da população – Beata Zawrzel/NurPhoto/Getty Images

Entre as nações com maior poderio nesse novo domínio se destacam Estados Unidos, China, Reino Unido e Rússia, segundo um levantamento do Belfer Center, da Universidade Harvard (veja o quadro). Apenas os Estados Unidos investem, em média, 17 bilhões de dólares anuais em segurança cibernética. Ainda assim, desde 2019, teve invadidos os sistemas de mais de 250 agências do governo americano e de 18 000 outras organizações, que ficaram em situação de risco. A Rússia, que desenvolveu uma notável estrutura de espionagem e ações digitais a partir da chamada Segunda Guerra da Chechênia, entre 2000 e 2009, é a principal suspeita na grande maioria dessas ações.

arte hackers

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A reação dos Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido, Japão e Canadá à invasão russa também é parte de um novo modelo de embate internacional, com sanções econômicas de uma sofisticação e escala inéditas. No último dia 27, líderes dos sete países mais ricos do mundo, o G7, decidiram banir um grupo de bancos russos da plataforma global de transações bancárias chamada SWIFT (sigla que em português significa Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais). Trata-se de um sistema de comunicação estabelecido em Bruxelas, na Bélgica, ainda nos anos 1970. Como em uma espécie de câmara de compensação gigantesca, 11 000 instituições financeiras de mais de 200 países têm registradas e padronizadas ali suas transações financeiras.

Antes da decisão, as agências de classificação de risco já haviam rebaixado o país no dia seguinte à invasão — a Standard & Poor’s à frente, classificando a dívida soberana russa como junk (lixo, em inglês). Alarmada, a população correu aos bancos para resgatar seus recursos e tentar converter o máximo possível de rublos em moeda forte, o que se mostrou impossível, dada a falta de dólares e euros no país. A cotação da moeda despencou 20% em um único dia e o rublo passou a valer menos que 1 centavo de dólar. O Banco Central russo elevou os juros do país de 9,5% para 20% e manteve a bolsa de valores de Moscou fechada. O processo de retaliações avançou com a divulgação da lista dos sete bancos excluídos do SWIFT na terça-feira 1º. Entre os banidos estavam o estatal VTB, o segundo maior da Rússia, o Rossiya, controlado por antigos aliados de Putin, e o VEB, o banco de desenvolvimento econômico.

REPRESSÃO - Polícia dispersa protesto em Moscou: posicionamentos contra Putin migraram para as redes sociais -
REPRESSÃO – Polícia dispersa protesto em Moscou: posicionamentos contra Putin migraram para as redes sociais – Alexandre Nemenov/AFP

Em outra frente, os Estados Unidos e países aliados prepararam uma linha paralela de bloqueios econômicos, entre eles a proibição de todas as transações com o Banco Central da Rússia, uma decisão que congelou todos os ativos depositados nos membros do G7 e atinge metade das reservas internacionais do país. Além disso, o Fundo Russo de Investimento Direto, usado para levantar recursos no exterior, foi alvo de sanções. A União Europeia (UE) cortou o financiamento a bancos públicos e privados, entre eles o Alfa-Bank, o maior do país nessa categoria. O Reino Unido congelou ativos e excluiu bancos russos de seu sistema financeiro. E até a Suíça, tradicionalmente neutra e estratégica para negociações de petróleo e gás, aderiu ao cerco.

IMPACTO - Filas em um banco russo para saque de dinheiro: efeito direto das sanções determinadas pelos países ocidentais -
IMPACTO – Filas em um banco russo para saque de dinheiro: efeito direto das sanções determinadas pelos países ocidentais – Victor Berzkin/AP/Image Plus

Tamanho bloqueio teve efeitos imediatos para os russos. Desde terça-­feira, deixaram de funcionar no país meios de pagamento eletrônicos globais como Apple Pay, Google Pay, Visa e Mastercard. Restaurantes e estabelecimentos comerciais começaram a exigir pagamento em dinheiro, uma vez que as operadoras multinacionais de cartão de crédito paralisaram suas atividades. Até quinta-feira, mais de trinta empresas haviam suspendido operações no país, entre elas Apple, Shell e BP. As montadoras Daimler Truck, Land Rover, Volvo, GM e Renault cancelaram exportações de automóveis. Twitter e Facebook operam com restrições determinadas por suas matrizes americanas para evitar manipulação pelo esforço de guerra russo. E, apesar do controle quase absoluto da situação interna e da repressão de manifestações públicas, o Kremlin não conseguiu sufocar completamente protestos nas redes sociais.

Com o futuro da Ucrânia ainda indefinido, e o da própria Rússia em risco depois da tresloucada iniciativa de Vladimir Putin, uma das poucas certezas que se têm é que a guerra travada no Leste Europeu se constituirá em um marco. A maneira inusitada que combina tecnologia com esforço bélico tradicional vai mudar definitivamente a forma como serão travadas as disputas de poder no futuro. “A guerra agora se estende por aquilo que eu costumo chamar de zona cinzenta de ações”, explica Elisabeth Braw, pesquisadora do centro de estudos American Enterprise Institute, em Washington. “São basicamente atos hostis fora do espectro do conflito armado usados para enfraquecer um país rival ou uma aliança”, explica. Trata-se de uma nova realidade que — tomara — o mundo não seja obrigado a testemunhar com frequência.

Publicado em VEJA de 9 de março de 2022, edição nº 2779

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