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Home office muda a dinâmica dos escritórios, que devem ficar menores

Com o trabalho remoto imposto pela pandemia, os tradicionais locais de trabalho devem passar mais a ponto de encontro do que local físico de expediente

Por Larissa Quintino - 22 Maio 2020, 10h00

Barulho de teclado, telefone, colegas conversando e reuniões em salas fechadas já soam como mera lembrança a quem trabalha em ambientes corporativos, longe de linha de produção. Com a pandemia do coronavírus, da noite para o dia, empresas passaram do expediente presencial para o home office. A incerteza do tempo de duração da fase mais aguda da pandemia, já que tratamentos e vacinas ainda estão em estudo, faz com que empresas como a XP e o Nubank já anunciassem o trabalho remoto até o fim do ano, para estudar essa mudança de forma permanente. A consequência disso será, em curto prazo, escritórios vazios e tentativa de renegociação de aluguéis para ganhar fôlego na queda de faturamento geral trazida pela Covid. A longo prazo, o redimensionamento dos corporativos será realidade: seja na redução dos espaços utilizados para cada empresa e como também na função dos espaços, que deixarão de ser um acumulado de mesas e cadeiras e passarão a ter função mais para a socialização de funcionários.

O movimento, motivado inicialmente pela questão sanitária, passa fundamentalmente pela economia. Com a queda da demanda e a deterioração de previsões de crescimento da economia brasileira em conta, qualquer corte de gastos cai bem nos cofres das empresas. Com os funcionários em casa, as empresas passaram a economizar com gastos de manutenção predial como água, luz, limpeza e manutenção de equipamentos. Nos aluguéis, segundo a consultoria JLL, a solução encontrada em primeiro momento é uma renegociação dos contratos. “Proprietários tem dado descontos, mas não diminuído o valor. Nesse primeiro momento, o valor do desconto é passado para frente, com uma prorrogação.Mas a piora da economia fará que haja sim mais espaços vazios e empresas reduzindo seus escritórios”, afirma Paulo Casoni, diretor de transações da consultoria. Segundo ele, com a quebra de paradigma no home office, que não era visto com bons olhos principalmente por gestores latinos, que acreditavam em queda de produtividade no trabalho a distância, o redimensionamento dos espaços corporativos, além da questão econômica, também passa pela eficiência. De todo modo, haverá redução nos escritórios, mas não necessariamente um vazio total das lajes corporativas. Empresas que estão em áreas nobres, que em São Paulo se concentra na Faria Lima, Paulista e Vila Olímpia, dificilmente deixarão seu CEP nobre, mas diminuirão os espaços que ocupam por causa da nova realidade organizacional. Hoje o metro quadrado na Faria Lima, por exemplo, custa cerca de 150 reais — a média em São Paulo é de 84 reais, segundo a consultoria. 

É o caso da XP, por exemplo. A empresa que hoje ocupa 20 mil metros quadrados, divididos em três torres na Faria Lima, já pensa se todo esse espaço no “condado”, como é chamada a área nobre da cidade, é realmente necessária para gerir o dia a dia da empresa, que anunciou home office até dezembro e estuda institucionalizar de vez o modelo porque foi constatada eficiência no novo método de trabalho. Guilherme Sant’Anna, sócio e responsável pela área de Gente & Gestão da XP Inc., explica que a XP não pensa em diminuir fisicamente a área que ocupa, mas pulverizar esses 20 mil metros quadrados em escritórios em outras partes do país, para descentralizar a sede da empresa, que hoje tem 2.700 funcionários. “Conseguimos colocar a empresa inteira para rodar em home office de forma muito rápida, os índices de produtividade aumentaram e isso mostra que a empresa funciona de forma descentralizada. O home office nos ajuda a trabalhar com pessoas em diversas localidades, e procurar talentos também em outros estados e até países. Por isso, desmembrar o escritório é algo que pode acontecer e os espaços que tivermos, podermos focar em salas de reuniões e áreas de convivência eficientes e seguras”, afirma. 

ALTOS NEGÓCIOS – Morumbi Corporate, em São Paulo, vendido por R$ 810 mi: devoluções ainda não assustam os investidores/ Multiplan/Divulgação

A Zee Dog, marca carioca de acessórios para pet, decidiu já decretar o home office como o esquema permanente de trabalho. Com isso, os seis escritórios que a empresa ocupa no mundo (Rio de Janeiro, São Paulo, Madrid, Shenzen, Nova Iorque e Seattle) devem passar pela transformação da saída de mesas para salas de conferência e também áreas focada no bem estar e socialização dos funcionários. Tadeu Diz, um dos fundadores e diretor criativo da empresa, afirma que não pensa inicialmente em diminuir o tamanho dos escritórios que ocupa (o maior deles é no Rio, com 600 metros quadrados), mas que a expansão física que era planejada, não deve acontecer mais. “Estávamos operando num limite fisicamente, e agora, com o home office, é possível ter esse espaçamento maior. Vamos mudar essa dinâmica do escritório existir apenas para mesas e cadeiras. Hoje estamos funcionando, estamos cumprindo metas, apesar de não estarmos fisicamente reunidos. Não tem porque, no dia seguinte a pandemia, colocar todo mundo novamente dentro do escritório. Vamos repensar qual será a função desses espaços físicos”, afirma.

A dinâmica dos espaços comerciais, que vinha em reaquecimento depois da crise política de 2015 e 2016, começou a reaquecer na metade do ano passado, deve ser sentida em dados apenas no terceiro trimestre deste ano. Por isso, não causa surpresa, por exemplo, a aquisição do edifício Morumbi Corporate, onde está abrigado o shopping Morumbi, na zona sul de São Paulo, por um fundo imobiliário do BTG Pactual. A Multiplan, antiga dona, selou a venda do complexo nesta quinta-feira, 21, por 810 milhões de reais. A venda foi vista como extremamente positiva para a Multiplan. Em comunicado a clientes, analistas da XP afirmam que “tendo em vista que se trata de um preço atrativo para a companhia, fornece liquidez adicional em um cenário desafiador”.

É fato que haverá devolução de espaços corporativos, mas ainda é cedo para saber qual será o percentual dessa redução, porque a necessidade das empresas é diferentes. “Empresas de tecnologia funcionam bem de forma descentralizada. Outras mais tradicionais, que fazem muitos treinamentos, por exemplo, tem que ter uma sede. A mudança está posta, irá acontecer, mas é um movimento lento. Mudar exige tempo”, afirma Marina Cury, CEO da consultoria imobiliária Newmark Knight Frank. Antes da crise, a taxa de vacância na capital paulista, centro corporativo no país, estava em 15%. Haverá aumento em espaços vagos. Mas quanto será, e como será, é necessário esperar para ver.

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