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Grécia: anúncio de Papandreou desespera Eurozona

A Eurozona mergulhou em uma nova onda de insegurança nesta terça-feira após o anúncio surpresa de um referendo na Grécia, anunciado na segunda-feira. O primeiro-ministro grego, Georges Papandreou, apostou ontem sua última carta frente à forte oposição interna mesmo com o risco de um calote de seu país.

Após a calmaria provocada pelos resultados da reunião europeia na última quinta-feira, que definiu um plano de desendividamento da Grécia, o anúncio de um referendo “pegou os mercados de surpresa e provocou um choque”, segundo o IG Markets em Paris.

As bolsas europeias despencaram, principalmente pela queda dos valores bancários e afetadas pelos mercados asiáticos. A Bolsa de Atenas caiu mais de 6% em sua abertura.

Dois dias antes da reunião do G20, que acontecerá na quinta e sexta-feira em Cannes, onde a Europa espera apresentar seu plano anticrise, o euro também baixou. Por volta das 6H00 GMT (4H00 de Brasília), a moeda europeia valia 1,3797 dólares, contra 1,3851 dólares na noite anterior.

De acordo com uma fonte governamental, esta consulta, a primeira organizada no país desde a abolição da monarquia em 1974, acontecerá “por volta de janeiro”.

Ela será precedida na sexta-feira à noite por um voto de confiança no Parlamento, onde Papandreou dispõe de uma maioria de 153 deputados em um total de 300.

O objetivo é perguntar aos eleitores se eles aprovam o acordo realizado pelo bloco europeu na madrugada do dia 26 para o 27 de outubro em Bruxelas, e que retirou a Grécia de seu endividamento em troca se uma tutela e uma austeridade reforçada, afirmou a mesma fonte à AFP.

“O que vai acontecer se o povo disser ‘não’? O risco é que a comunidade internacional corte o empréstimo e que o país deixe o euro”, após o default, comentou Francfort Christoph Weil, analista da Commerzbank.

A iniciativa é caracterizada de “alto risco”. O liberal Kathimérini acredita em uma “falência política” futura. A imprensa grega concordou em julgar Papandreou e questionou se ele havia avisado seus homólogos.

Em Paris, a presidência anunciou que o chefe de Estado francês Nicolas Sarkozy telefonará para a chanceler alemã Angela Merkel durante a tarde.

Para o cientista político Ilias Nikolapopoulos, esta jogada é uma decisão “de suicídio para o país” e comprometerá as delicadas negociações iniciadas após o acordo de Bruxelas com os detentores privados da dívida grega.

“Esta atitude aumenta a incerteza, o que nunca é bom para os mercados. Eles se perguntam se toda a estrutura montada pela Eurozona pode desmoronar no caso de um ‘não’ no referendo”, disse Michalis Matsourakis, economista do banco grego Alpha Bank.

Segundo ele, Papandreou foi obrigado a escolher esta opção para encontrar apoio interno diante da recusa da oposição e de uma contestação social generalizada em resposta à queda brutal do padrão de vida da população causada pelas medidas de rigor.

O economista Georges Pagulatos, especialista em questões europeias, ressalta que é fundamental para o governo socialista “reforçar sua legitimidade” e apertar o governo, antes de diversas votações parlamentares para endossar novos sacrifícios.

A realização de eleições antecipadas, exigência da oposição, será “catastrófica, pois ameaça uma grande instabilidade política”, acrescentou.

Embora já tenha falado na primavera sobre a realização de um referendo no outono para apoiar suas reformas, Papandreou conseguiu colocar na defensiva seus rivais, que se uniram nesta terça-feira para denunciar esta decisão.

Para Pagulatos, a opção de um referendo permitirá ao executivo grego “ganhar tempo”, sem arriscar a estabilidade da Eurozona. A União Europeia provou, segundo ele, principalmente com a Irlanda, que “existem meios para enfrentar consultas públicas negativas”.

Os constitucionalistas gregos afirmam que no caso de uma abstenção superior a 60%, o referendo não será válido.

Esta disposição poderia oferecer uma saída para o dilema colocado por Papandreou aos gregos, que estão divididos, de acordo com uma pesquisa publicada no domingo, entre a rejeição do plano europeu (59%) e o apoio da manutenção da Grécia na Eurozona (72,5%).