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Escassez de carne nos EUA abre portas para pecuária brasileira

Surto da doença entre funcionários fizeram frigoríficos serem fechados por lá, abrindo espaço para a carne brasileira mundo afora

Por Victor Irajá, Diego Gimenes - Atualizado em 29 abr 2020, 16h40 - Publicado em 29 abr 2020, 16h38

Por mais que toda crise tenha um resultado geral ruim que pesa sobre toda a economia, também é um momento em que oportunidades surgem. Esta não é diferente. A pandemia de Covid-19 tem causado muitos problemas para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Por lá, os frigoríficos de carne pararam e o mercado interno se viu numa escassez de carne nunca vista antes. Os abatedouros viraram um verdadeiro viveiro de disseminação de novo coronavírus, e as três maiores empresas do setor no país, JBS, Tyson Foods e Smithfield Foods tiveram de lacrar 15 fábricas — isso, além de fazer com que as carnes bovina e suína desaparecessem das prateleiras dos supermercados, também devastou comunidades rurais. Estimativas apontam que somente a produção suína já caiu pelo menos 25%. Por outro lado, o Brasil, vive situação diametralmente oposta e pode se beneficiar dos problemas americanos.

Funcionários no frigorífico da BRFem Marau, no Rio Grande do Sul MPTRS/Flickr

Os Estados Unidos podem sofrer uma crise de abastecimento severa por dois motivos: a produção menor dos frigoríficos e o temor das pessoas de ficar sem carne, gerando uma corrida aos mercados. Segundo o diretor financeiro da JBS, Guilherme Cavalcanti, os estoques de carne produzidos pelos Estados Unidos aguentam por apenas mais 15 dias. Em entrevista à agência de notícias Reuters, ele disse que a produção brasileira poderá atender a ausência de oferta causada pela crise no setor nos Estados Unidos.

O Brasil poderá, assim, aumentar sua participação nas exportações para o resto do mundo, mesmo que temporariamente. Os impactos da chegada da doença ao campo para o Brasil ainda são incipientes e um alto executivo de uma dos maiores frigoríficos do país já diz que tenta “aproveitar” o cenário para vender para lugares onde o pico da pandemia já ficou para trás. “A restrição econômica aqui no país faz com que as pessoas comprem menos carne. Sobra produção para que possamos exportar para países europeus, por exemplo, que já ultrapassaram o pior momento”, diz ele. De fato, os dados corroboram com a leitura de que sobra carne no país. Na contramão do aumento médio de 2,46% do preço de dos alimentos, o preço da carne continuou desacelerando nas duas primeiras semanas de abril, quando registrou queda de 0,27%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Apesar de grande produtor, os Estados Unidos não são autossuficientes na produção de proteína animal. A Austrália é a principal exportadora de proteína para a terra do Tio Sam e enfrentou, antes da pandemia, um período duro de secas e — como esquecer? — de incêndios, que derrubaram em 14% sua produção. Para mitigar a escassez de carne no mercado interno, Trump planeja ordenar que a produção permaneça funcionando, estabelecendo um confronto entre as empresas produtoras e os sindicatos que desejam proteger os trabalhadores. Os surtos de coronavírus em mais de 30 plantas administradas por essas e outras empresas fizeram adoecer pelo menos 3.300 trabalhadores e ao menos 17 deles faleceram, de acordo com relatórios de saúde. Ao usar a Lei de Produção de Defesa, o mandatário americano deve decretar que as fábricas permaneçam abertas como parte dos serviços essenciais para manter as pessoas alimentadas em meio à pandemia. De acordo com a Casa Branca, o governo americano pretende fornecer orientações e equipamentos de proteção adicionais para os funcionários.

RESISTÊNCIA – Tereza Cristina: a força do agronegócio em Brasília / Ueslei Marcelino/Reuters

Por aqui, o medo de contaminação nas plantas produtoras de proteína animal também é uma preocupação. Apesar disso, o risco não é tão grande quanto lá. No Brasil, os principais polos de produção agrícola ficam no interior e distante de grandes centros urbanos, diferentemente dos Estados Unidos. “O exemplo dos Estados Unidos serve como um brutal aviso para o Brasil. Existe oferta e existe também demanda. Se a gente não tomar cuidado com procedimentos de segurança, porém, inclusive o uso de equipamentos de segurança, pode-se criar uma disrupção na cadeia”, diz Felippe Serigati, pesquisador do Centro de Agronegócios da Fundação Getulio Vargas. Em abril, em entrevista a VEJA, a ministra Tereza Cristina ressaltou a preocupação em garantir que os trabalhadores tenham segurança para trabalhar e disse que a condição de trabalho no agronegócio brasileiro torna o trabalho menos arriscado durante o período. “As condições de trabalho no campo são diferentes das grandes cidades. Além de os frigoríficos estarem adotando uma série de precauções com seus funcionários, com a adoção de medidas sanitárias, lá não tem aglomeração, as pessoas trabalham em espaços abertos”, disse ela.

Em reunião com Bolsonaro nesta segunda-feira 27, Tereza Cristina levou as perspectivas alvissareiras do setor ao presidente. Além da liberação da exportação de carne in natura para os Estados Unidos, conquistado no início deste ano, o país também realiza campanhas elucidativas sobre os processos de produção agrícola para aumentar a penetração em países da União Europeia. Esta ação, inclusive, foi um dos pontos das negociações para firmar o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, ainda no ano passado. Ela vem repetindo, ao secretariado e ao ministro da Economia, Paulo Guedes, que, pela estrutura da produção brasileira e baixo impacto do coronavírus no agronegócio, o campo liderará o país à saída da crise econômica importada pela Covid-19. 

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