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E se você fosse a Grécia?

Seu salário não cobre as despesas da casa e você é um baita cara generoso: sustenta mulher, filhos, os parentes próximos e também os distantes. Paga as despesas com seu cartão de crédito, que estoura, e tenta cobrir o rombo com novos empréstimos – até quebrar. O que fazer?

E se você fosse a Grécia? Melhor: se você fosse o governo grego? A primeira parada para entender a crise não é por que o governo grego cogita abandonar a União Europeia (UE). A primeira questão é: por que o governo grego quis tanto e conseguiu entrar para UE em 1981? Simples. Imagine que estamos em 1981 e você é o governo da Grécia. Você está quebrado. Seu salário não cobre as despesas da casa e de sua família ampliada. Isso mesmo. Você é um baita cara generoso, sedento de aprovação e, para isso, sustenta mulher, filhos e os parentes próximos e distantes que não gostam de trabalhar ou que se julgam muito velhos para a labuta. Então você paga as despesas com seu cartão de crédito. Quando ele estoura, você pega empréstimos para cobrir o rombo do cartão. As operadoras e os bancos, cientes que você é um risco em potencial, cobram 18% de juros. Você não tem saída até que… Bem, até que aparece a oportunidade de entrar para um clube de gente tão distinta, tradicional e financeiramente sólida que basta ser aceito para que, ao invés de 18%, os juros cobrados em cima de sua dívida caem para 3%. A aceitação da Grécia na UE equivale a você entrar para o clube de gente rica e bacana – e ser tratado como um deles. Você passa a oferecer um risco bem menor, pois, fica implícito que se não honrar seus compromissos os ricões seus amigos correrão a ajudá-lo.

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Tudo resolvido? Bem, lembre-se que você é o governo grego. E se você conseguiu se enrolar em dívidas antes de pertencer a um clube de abonados, por que razão, agora que tem avalistas de peso, mudaria de comportamento? Você não muda. Está tão obnubilado com o novo status de membro da UE e só pensa em gastar mais. A parentada está orgulhosa de você – tem menos vontade de trabalhar e quem ainda trabalha vê a chance de parar ainda mais jovem. Seus antigos credores, quase todos eles privados, capitaneados pelo banco americano Goldman Sachs, são, é óbvio, mais espertos do que você. Eles sabem que você é um gastador incorrigível. É deles a ideia de transferir sua dívida privada para os países europeus. Assim, o risco ficaria garantido pelos contribuintes europeus e não mais pelos sócios dos bancos privados.

Grande ideia? Sim, mas desde que os técnicos da UE acreditassem que a sua dívida antes de entrar no clube não era nada assustadora em relação a seus rendimentos. O problema é que você declarou ao BCE, em termos simplificados, ter rendimentos de 250 e uma dívida de 200. Na verdade, sua dívida era de 1 000, portanto, cinco vezes maior. Mas, aperta aqui, aperta ali, você e seus banqueiros privados conseguiram a mágica de fazer parecer que sua dívida não era impagável. A mágica só foi descoberta muito mais tarde, como relatam os economistas alemães Bernhard Rauch, Max Göttsche, Gernot Brahler e Stefan Engel em seu artigo intitulado “Fato e Ficção nos Dados Econômicos da União Europeia”, publicado em agosto de 2011 na revista German Economic Review.

Seus novos amigos no clube da UE, agora seus sócios na dívida maquiada e repassada pelos bancos privados, começam a ficar preocupados. Você gosta muito do novo ambiente, se sente bem recebido, mas quando o assunto é gastar com a parentada desocupada, ninguém te segura. Seus amigos esperavam que com a ajuda deles você adquirisse novas habilidades, se modernizasse tecnologicamente e, assim, pudesse conseguir um emprego melhor, mais bem pago. Ledo engano. O dinheiro não foi investido em você, mas repassado para os parentes e sua crescente família ampliada. Se você fosse um país, diríamos que ao invés de investir dinheiro na modernização do parque industrial e na educação das pessoas, de modo a poder exportar produtos de alto valor agregado, você torrou tudo no setor público que é um sorvedouro de recursos e não produz, por definição, um centavo de riqueza.

Mas você é uma pessoa de sorte. Entre uma dose e outra de grapa no bar do clube, você ganha a simpatia e a confiança de um pessoal que pertence a dois clubes ainda mais forrado de dinheiro, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Eles contrariam os governos europeus, em especial o alemão, e te emprestam ainda mais dinheiro. Mais uma vez você jura que não perderá uma segunda oportunidade e se compromete a gastar melhor os novos recursos. Mas, como um alcoólatra, você é incapaz de mudar. A aprovação dos parentes é essencial para você – e eles não querem saber dessa sua mania recém adquirida, uma certa “austeridade” que, para eles, soa como um insulto. Você cede mais uma vez. Mesmo tendo um prazo de cinco anos para pagar os empréstimos que lhe deram o BCE e o FMI você sabe que vai não vai conseguir. Seus parentes ameaçam, agora, te dar uma surra se voltar a falar em austeridade. O dinheiro continua sendo usado para manter aquele pessoal que só recebe e nada produz. Se você fosse um país, seu setor público estaria inchado e o setor privado (que produz riqueza e paga impostos, com os quais você poderia pagar as dívidas) é constantemente esmagado. Além da enorme família ampliada ( que só recebe e nada produz) você não pode contar também com uma parte grande (35%) de pessoas que até produzem, mas sonegam impostos com uma destreza que ninguém consegue enfrentar.

Eis você então, duro, às vésperas de ter que pagar os empréstimos tomados no BCE e no FMI. O que fazer? Alguém te aconselha a fazer uma ampla consulta entre os parentes e todos aqueles que você só pensa em agradar. Mas perguntar o que mesmo? Ora, perguntar se eles querem apertar os cintos, economizar, diminuir drasticamente suas despesas ou se, ao contrário, preferem que você volte ao clube, dê uma desculpa qualquer, peça mais dinheiro novo e mais tempo para pagar as dívidas velhas.

Surpresa! 61% dos seus parentes votam pela segunda opção – ou seja, vá lá e arranque mais dinheiro. Não prometa nada. Se alguém falar em austeridade, você desconversa e conta pra eles que, em casa, basta mencionar essa palavra pra turma ficar muito brava.

Você vai voltar à carga esta semana. Vão fazer cara feia em Berlim e Paris. Mas quem sabe você atrai a simpatia de Roma, Lisboa e Madrid, os demais alcoólatras que estão se recuperando com enorme sucesso do vício. Quem sabe eles te entendam melhor e topem te dar uma terceira chance? Não custa tentar, pois a outra opção seria austeridade em casa e, como você sabe, o pessoal lá já cansou disso. Foram cinco anos tentando gastar menos, sem sucesso. É, caro leitor, se você fosse a Grécia, ou melhor, o governo grego, sua situação não estaria tão feia assim.

(Da redação)