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Dólar alto fez brasileiro gastar menos fora, mas não o tirou da Disney

Além do comentário sobre viagens de domésticas, Paulo Guedes cometeu outro deslize; mesmo com câmbio mais caro, a população continua indo para os EUA

Por Larissa Quintino - Atualizado em 17 fev 2020, 14h41 - Publicado em 13 fev 2020, 11h07

O ministro Paulo Guedes escorregou mais uma vez em suas declarações e, dessa vez, além da falta de tato, incorreu em um erro. Ao defender o novo patamar do dólar — que se aproxima dos 4,34 reais nesta quinta-feira, 13 — Guedes afirmou que acabou a “festa danada” de “todo mundo ir para a Disneylândia” que acontecia quando a moeda americana estava na casa de 1,80 real. “Antes, o câmbio estava tão barato que todo mundo estava indo para a Disney, empregada doméstica indo para a Disneylândia. Uma festa danada. Espera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear no Nordeste”, disse ele, em fala que causou controvérsias.

Entretanto, o número de brasileiros que embarcou para os Estados Unidos em 2019, quando o dólar bateu recordes seguidos, foi de 2,4 milhões de pessoas. O dado é superior ao de 2011, quando o dólar atingiu a casa mencionada pelo ministro. No ano, entre empregadas domésticas e empresários, 1,9 milhão de brasileiros viajaram rumo à terra do Mickey.

Falas de Guedes têm gerado polêmica Susan Walsh/AP

Os dados de embarque são da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e correspondem ao número de passageiros pagos (que compraram o serviço do voo) saindo de aeroportos no Brasil para os Estados Unidos. O mesmo se repete quando se analisa as viagens para o México, para a Argentina e para a França. Ou seja, o brasileiro não deixou de viajar para fora do país. O que vem caindo com a disparada do dólar — ressalte-se novamente — não é o número de pessoas que viajam, mas o gasto do brasileiro no exterior. Segundo o Banco Central, em 2019, o brasileiro deixou no exterior 11,4 bilhões de dólares. Em 2011, com o dólar mais baixo, foram gastos fora do país 14,3 bilhões de dólares.

A alta da moeda americana impacta nos gastos no exterior porque o preço de passeios e diárias de hotel é cotado em dólar na maioria dos destinos internacionais. A não ser que o brasileiro compre antecipadamente o passeio aqui (que já é cotado em dólar mas convertido para real e com a possibilidade de ser parcelado), precisará ter em mãos moedas estrangeiras que seguem a movimentação do câmbio dos Estados Unidos. Com isso, o brasileiro tem segurado a mão nos gastos, mas não na hora de seguir para uma viagem internacional.

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Acabou aquela história de gente indo para fora sem mesmo bagagem. Não são raros os relatos de pessoas que, ao chegarem no primeiro freeshop no exterior, compravam mala, roupas, perfumes, relógios e uma miríade de itens que se mostravam extremamente baratos no início da década. Afinal, com um dólar que rondava entre 1,60 e 1,80 real, viajar para fora era mais barato até mesmo do que visitar o Nordeste ou Foz do Iguaçu — como foi recomendado pelo ministro.

Se a moeda americana deixa os custos do dia a dia de uma viagem mais cara para o exterior, o inverso vale para o estrangeiro. Com o real desvalorizado, o poder de compra do dólar é maior. Mas, isso não foi suficiente para fazer os gringos gastarem mais por aqui. Ainda segundo o BC, o gasto de estrangeiros no Brasil está estagnado e não decola de jeito nenhum. Prova de que não é o câmbio que vai redirecionar os rumos do turismo no país.

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