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Dilma vai à TV para negar risco de apagão e ataca quem é “do contra”

Presidente diz que país não será atingido por previsões "alarmistas" e insiste em classificar como erros as perspectivas de desabastecimento

Em pronunciamento em cadeia de rádio e televisão na noite desta quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff resolveu levar a discussão do setor elétrico para o campo político. Depois de ser duramente criticada – no Brasil e no exterior – pela maneira como impôs novas regras de jogo às concessionárias de energia elétrica, de modo a baratear a conta de luz, a presidente foi questionada pela oposição sobre o risco de apagão. Escolheu a TV para atacar sem ser incomodada por réplicas. Dilma foi categórica ao dizer que não há risco de desabastecimento, da mesma forma que afirmou que o PIB cresceria de maneira substancial em 2012 – o que não ocorreu. “Surpreende que desde o mês passado, algumas pessoas – por precipitação, desinformação ou algum outro motivo – tenham feito previsões sem fundamento quando os níveis dos reservatórios baixaram”, disse a presidente.

Especialistas do setor – e não apenas políticos da oposição – têm alertado que o risco de racionamento existe, e que a queda nas tarifas, apesar de benéfica a curto prazo para o consumidor, pode agravá-lo. A equação não é complexa: energia mais barata tende a ampliar o consumo num sistema que está longe de ter a calibragem perfeita apontada pela presidente. Some-se a isso o fato de que o setor deve sofrer uma redução nos investimentos e ficam patentes os motivos de preocupação. “O investimento no setor vai recuar por causa da maneira como os contratos com as concessionárias foram rompidos, diz Adriano Pires, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE). “Algumas empresas deixaram o jogo e as que permaneceram terão retornos mais baixos, o que diminui sua capacidade de investimento”.

Segundo Pires, as chances do barateamento das tarifas ser revertido no curto prazo são altas. “Estamos caminhando para uma situação em que as térmicas serão acionadas com mais frequência. A energia delas é cara e isso deve empurrar as tarifas, que o governo baixou artificialmente, de volta para o alto”, afirma.

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Governo tenta acobertar risco de racionamento

Mais promessas – Dilma rebateu os argumentos técnicos com promessas. Disse na TV que a entrada em operação de novas usinas e a viabilização de linhas de transmissão vão permitir um aumento de mais de 7% da produção de energia. Ainda aos críticos, emendou: “o Brasil não deixou de produzir um único quilowatt do que precisava e agora, com a volta das chuvas, as térmicas voltarão a ser menos exigidas”. “Cometeram os mesmos erros de previsão os que diziam primeiro que o governo não conseguiria baixar a conta de luz. Depois passaram a dizer que a redução iria tardar. Por último, que ela ia ser menor do que o índice que havíamos anunciado”, afirmou a presidente.

O recado da presidente ocorreu após a confirmação de que o governo federal decidiu ampliar o desconto para os consumidores residenciais para o patamar de 18% e aumentar a redução da tarifa de energia para a indústria dos 28% originalmente previstos por integrantes do governo para até 32%. De acordo com Dilma, a redução na conta de luz dos consumidores domésticos e do setor industrial entra em vigor já nesta quinta-feira. “O Brasil vai ter energia cada vez melhor e mais barata. Significa que o Brasil tem e terá energia mais que suficiente para o presente e para o futuro, sem nenhum risco de racionamento ou de qualquer tipo de estrangulamento no curto, no médio ou no longo prazo”, afirmou a presidente no pronunciamento. Apesar do discurso inflamado, a presidente não explicou qual artifícios o governo usará para promover o aumento, já que as renovações de contratos com as concessionárias já foram feitas. Ao que tudo indica, o Tesouro Nacional terá de desembolsar alguns bilhões para permitir a ampliação do corte. E o custo de mais uma “bondade” creditada aos cofres públicos ainda é desconhecido.

Apesar da situação crítica dos reservatórios e da falta de planejamento do setor, a presidente usou seus oito minutos no horário nobre para ressaltar os “feitos” de 2012 no setor. “Foram colocados em operação 4.000 megawatts e 2.780 quilômetros de linha de transmissão. Este ano, a meta do governo é colocar mais 8.500 megawatts de energia e 7.540 quilômetros de novas linhas. Com base em projeções de outras usinas e linhas de transmissão em construção ou projetadas, Dilma afirmou que, no prazo de 15 anos, o país conseguirá dobrar a capacidade instalada de energia elétrica, hoje na casa dos 121.000 megawatts. “Temos contratada toda a energia que o Brasil precisa para crescer e bem neste e nos próximos anos”, resumiu ela.

Embora regiões do país tenham vivenciado apagões – nesta semana Teresina e outras 32 cidades sofreram um apagão no dia em que a própria Dilma iria visitar o Piauí – a presidente disse nesta quarta-feira que “o Brasil vive uma situação segura na área de energia” e que “não há maiores riscos ou inquietações”, garantiu.

No pronunciamento, a presidente aproveitou para também alfinetar as concessionárias de energia de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, que não aceitaram as condições do governo para o barateamento de energia. De acordo com ela, a despeito da posição da Cesp, Cemig e Copel, os consumidores desses estados também serão beneficiados com a redução na conta de luz. “Os cidadãos atendidos pelas concessionárias que não aderiram ao nosso esforço terão ainda sim sua conta de luz reduzida, como todos os brasileiros”, disse.