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Copom corta Selic para 7,5% ao ano e mira controle da inflação em 2013

Agora a discussão se concentra nos próximos passos da autoridade monetária, especialmente se haverá mais cortes ou não de juros básicos

Por Naiara Infante Bertão 29 ago 2012, 20h13

Sem grandes surpresas, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu cortar nesta quarta-feira em 0,5 ponto porcentual (p.p.) a taxa básica de juros da economia brasileira. Com a decisão, a Selic passa de 8% para 7,5% ao ano (a.a.) – a menor taxa desde o início da série histórica do BC, em 1996. Esta é a nona vez consecutiva que o BC opta pela redução dos juros, o que os confirma em patamar inédito no país. A decisão já era esperada pela maioria dos economistas ouvidos pelo site de VEJA e segue em linha com a proposta do governo federal de estimular a economia no ano que vem, uma vez que movimentos de política monetária demoram meses para impactar a atividade.

Em comunicado, o BC afirmou que a redução poderá continuar – ainda que o mercado duvide que os juros cheguem a 7% ao ano ainda em 2012. “Considerando os efeitos cumulativos e defasados das ações de política implementadas até o momento, que em parte se refletem na recuperação em curso da atividade econômica, o Copom entende que, se o cenário prospectivo vier a comportar um ajuste adicional nas condições monetárias, esse movimento deverá ser conduzido com máxima parcimônia”, informou a nota.

Votaram pela redução da taxa o presidente do BC, Alexandre Tombini, e os diretores Aldo Luiz Mendes, Altamir Lopes, Anthero de Moraes Meirelles, Carlos Hamilton Vasconcelos Araújo, Luiz Awazu Pereira da Silva, Luiz Edson Feltrim e Sidnei Corrêa Marques.

Passada a reunião, as opiniões dos analistas começam a divergir quanto aos próximos passos do governo. O que se discute agora é até que ponto a presidente Dilma Rousseff e sua equipe econômica, liderada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, vão privilegiar políticas que permitam acelerar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ainda que isso possa implicar alguma deterioração do poder aquisitivo da população. Em outras palavras, quando a economia der sinais mais vigorosos no próximo ano – o que se espera que vá acontecer não apenas em função dos juros baixos, mas também pelo efeito dos diversos pacotes de estímulo anunciados pelo Palácio do Planalto -, a inflação pode se tornar um fator de preocupação.

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Para o economista-chefe do Banco Pine, Marco Maciel, seria bom o governo manter a taxa de juros em 7,5% neste ano porque a alta dos preços de produtos e serviços não abre espaço para alívio. “Por mais que a inflação fique dentro da meta em 2012, o que deixa o BC confortável, em 2013 ela vai subir”, diz. O Pine projeta alta de 5,2% nos preços – medidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – neste ano e até 6% no ano que vem, dependendo do crescimento do PIB e, especialmente, da evolução das cotações de commodities. Os preços de alguns produtos agrícolas subiram mais de 20% em 2012, a exemplo de soja e o milho, muito influenciados pela forte seca que atingiu os Estados Unidos. Em 2013, porém, a alta destes artigos básicos deve ser mais moderada.

Roberto Padovani, economista-chefe da Votorantim Corretora, acredita que a elevação dos preços internacionais deve ser amenizada pelas próprias condições econômicas (muito ruins) na Europa e nos Estados Unidos, o que permite antever uma tendência de arrefecimento no fim deste ano e no próximo. “Não haverá choque nos preços de commodities, a exemplo do que aconteceu no último trimestre de 2010″, disse em relatório.

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Benefício fiscal – O economista da Tendências Consultoria, Juan Jensen, concorda com o conselho de que o mais prudente a ser feito agora é segurar a Selic nos atuais 7,5% ao ano. “O mercado de trabalho está melhorando, a economia começa a dar sinais de reação aos estímulos do governo, especialmente os de corte de impostos da indústria, mas é preciso cautela com a inflação, que já começa a acelerar”, afirma.

Para o analista, as pressões causadas pelos benefícios fiscais são temporárias e devem diminuir à medida que eles forem retirados. Nesta quarta-feira, contudo, o Ministério da Fazenda comprovou que não tem intenção de voltar a onerar a indústria com tributos que foram reduzidos neste ano. O titular da Pasta, Guido Mantega, decidiu prorrogar a desoneração do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) por mais dois meses no caso de automóveis e em quatro meses para linha branca e móveis. Materiais de construção e bens de capitais gozarão do benefício durante todo o ano que vem.

O grupo de transportes foi o principal peso no IPCA-15 em agosto, considerado uma prévia da inflação mensal e divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). O item passou de -0,59% em julho para zero no mês seguinte. O aumento das compras de carro novo foi o principal item a influenciar essa recuperação dos preços.

Câmbio parado – Jensen acrescenta que a inflação também tem sido influenciada pelo controle exercido pelo BC no mercado de câmbio. Ao manter o dólar valorizado (no patamar de 2 reais), a medida acaba impulsionando o movimento dos preços no país. Antes, com o câmbio flutuante, uma valorização das commodities tinha como conseqüência a natural valorização do real, o que anulava boa parte da “importação” da inflação externa. Com um câmbio praticamente parado, a alta das cotações no mercado internacional é transferida aos preços no mercado brasileiro.

O economista da Tendências espera que o BC comece a subir a Selic em abril de 2013 – na terceira reunião do Copom do ano que vem – como medida para frear uma eventual aceleração da inflação. A projeção da consultoria aponta para uma expansão de 5,4% do IPCA neste ano.

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Mais cortes – Para André Perfeito, economista-chefe da Gradual Corretora, ainda há espaço, porém, para nova queda da Selic em 2012. Sua expectativa é de mais uma redução de 0,5 p.p., deixando a taxa básica em 7% no encerramento do ano. O Copom ainda se reunirá em outubro (dias 9 e 10) e novembro (27 e 28).

“O governo está privilegiando o crescimento e, na minha opinião, com toda a razão”, afirma o analista. “O mundo entrou em uma espiral de queda onde até a China está ameaçada. Logo seria imprudente manter a rédea solta”, completa. Contudo, ele reitera que o Palácio do Planalto já gastou todas as “balas na agulha” que tinha para 2012 e, assim, ficou a cargo do Banco Central a missão de contribuir no curto prazo para o crescimento – vem daí a possibilidade de novo corte.

A ata da última reunião do Copom já havia indicado que novos cortes viriam, mas com “parcimônia”. Os economistas ouvidos pelo próprio BC para o relatório Focus desta semana apostam em mais um corte na Selic de 0,25 p.p., de modo a deixar a taxa em 7,25% a.a. no fim do ano. Na mesma pesquisa, os analistas apostaram que o novo ciclo de aperto monetário começará em abril e não em março de 2013, como projetado na pesquisa da semana anterior. A expectativa para a Selic em 2013 para estes economistas está em 8,25%, mas era maior há um mês (8,5%).

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