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Congelamento de preço na Argentina visa eleição e traz risco para economia

Especialistas lembram fracassos de medidas semelhantes e preveem impacto negativo para o Brasil

O congelamento de preços anunciado pelo governo da Argentina na quarta-feira, 17, com o objetivo de controlar a inflação elevada e reativar o consumo no país, tem clara intenção eleitoral e tende a prejudicar a nação ainda mais economicamente, segundo especialistas ouvidos por VEJA. E as consequências disso, devem chegar no Brasil.

O pacote de medidas do governo de Mauricio Macri inclui o controle de preços de 60 produtos básicos, da energia elétrica e de tarifas de transporte público. A medida já foi aplicada por diversos governo do país no passado, como Raúl Alfonsín (1983-1989) e Cristina Kirchner (2007-2015). E, para o professor de relações internacionais da FGV, Eduardo Mello, sempre deram errado.

Se tem uma coisa que os economistas sabem, é que controle de preços piora as coisas no longo prazo. O presidente Macri está sacrificando o crescimento no longo prazo para diminuir a inflação agora e tentar ganhar alguns pontos pensando nas eleições do final do ano”, afirma Mello. As medidas vão durar pelo menos seis meses e devem expirar próximas às eleições de outubro.

Impressiona também o fato de o congelamento vir de um governo eleito com um discurso liberal, de acordo o professor José Pimenta, do curso de relações internacionais da Fecap. “É um tipo de política extremamente alternativa para um governo extremamente liberal. Ela é revestida com uma áurea de populismo.”

O congelamento de preços também é um velho conhecido dos brasileiros, tendo como caso mais famoso o do governo de Fernando Collor, em 1990. Assim, como na Argentina, parte da população do país enxerga a medida como negativa, mas nem sempre sabe exatamente o porquê.

Roberto Dumas, professor de economia internacional do Ibmec de São Paulo, resume a principal aflição quanto à atitude em uma palavra: escassez. “Quando você congela preços, aumenta a demanda por esse bem, mas, os produtores não vão conseguir produzir, porque não vão ter o dinheiro necessário”, explica. Segundo ele, o governo também corre o risco dos empresários driblarem o acordo e aumentarem os preços.

Os malefícios no futuro, não significam, porém, que a curto prazo a medida não vá ter efeito. Segundo os especialistas, a inflação deve baixar e as ações de Macri podem funcionar politicamente. “Ele vai tentar dizer que dessa vez é diferente, assim como no Brasil os políticos também cometem os mesmos erros várias vezes. O que interessa é que o preço vai baixar. As pessoas não vão pensar em termos de histórico econômico, e sim no preço da sua comida baixando”, afirma Mello, da FGV.

Sobre os próximos anos, os especialistas concordam que é difícil dinamizar o tamanho do prejuízo para a Argentina, mas colocam que o próximo presidente pode ter que arcar com as medidas de Macri. E, se ele próprio for reeleito, tende a prejudicar seu trabalho feito anteriormente. “O longo prazo é de continuação do ajuste, mas com essas políticas pontuais de ingerência do governo no curto prazo”, opina Pimenta.

Impactos no Brasil

Previsões da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) projetam uma queda de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) argentino no final deste ano. Para Dumas, do Ibmec, com o congelamento gerando menor produção e escassez, a tendência é ainda pior. “Quando o PIB cai, a importação do país tem queda também”, afirma ele, prevendo um possível impacto na economia brasileira.

Segundo dados do Ministério da Economia, em março, a Argentina foi o terceiro país que mais importou do Brasil, perdendo apenas para a China e os Estados Unidos. Segundo Dumas, o setor de automóvel e auto-peças, por exemplo, tende a ser um dos principais afetados. E para compensar, será preciso “crescimento do mercado doméstico brasileiro”, segundo ele.