Clique e assine com até 92% de desconto

Bônus alemão tem inédita taxa negativa – e atesta o medo global de que o Reino Unido saia da UE

Quem aplicar 105 euros em um papel alemão hoje poderá resgatar apenas 100 euros em 2026 - mas há quem prefira isso à incerteza dos ativos britânicos pós-União Europeia

Por Da Redação 14 jun 2016, 19h09

Os britânicos escolherão no próximo dia 23, em referendo, o futuro do Reino Unido na União Europeia. As opções são o “Brexit” (contração em inglês para “saída britânica”, para quem quer que o país deixe o bloco) ou “Remain” (permanecer). Nesta terça-feira, o receio internacional de que o Reino Unido deixe a UE teve uma evidência pouco palpável para quem é não é afeito ao mundo das finanças, mas, ainda assim, de forte simbologia: pela primeira vez, a taxa do bônus alemão de dez anos ficou negativa.

Isso é uma medida do temor de que a saída de fato ocorra. Investidores costumam ser refratários à incerteza. Em momentos de indefinição política ou econômica – ou ambas -, o movimento mais usual é a fuga para aplicações mais seguras. Por isso a Bovespa caiu tanto nos momentos de maior tensão do processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff: como não se via uma solução muito clara, os investidores disparavam ordens de venda de ações brasileiras. Ato contínuo, a Bovespa despencava.

A lógica é a mesma com os bônus alemães, um termômetro do sentimento dos investidores. Sob a incerteza do resultado do referendo, os investidores buscam refúgio em investimentos mais sólidos, como o ouro ou a dívida pública – e a alemã é considerada a mais segura da Europa. Como a demanda por seus papéis é enorme, o governo alemão não precisa oferecer taxas elevadas para atrair investidores. Se a taxa ficou negativa, é porque há interessados saindo pelo ladrão.

O bônus de dez anos é também uma referência para fixar o prêmio de risco das dívida pública e privada. Esse prêmio se calcula medindo a diferença em relação ao bônus alemão: quanto menor for essa diferença (o chamado ‘spread‘), mais seguro se considera o investimento. Por isso, ainda que a dívida soberana da Suíça e do Japão já tenha alcançado taxas negativas, o caso da Alemanha, a maior economia da Europa, é muito significativo. A Alemanha é um dos poucos países do mundo com nota “AAA” na avaliação das três agências de classificação de risco de referência, Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch.

Leia mais:

Saída da União Europeia custaria £ 100 bi à economia da Grã-Bretanha

Continua após a publicidade

Fator psicológico – “O patamar é simbólico, porque a taxa negativa já era esperada. Ainda assim, o fato de o bônus de dez anos chegar ao território negativo leva o mercado a uma nova era do ponto de vista psicológico”, disse à agência AFP Patrick Jacq, especialista da dívida no BNP Paribas.

Na prática, a taxa negativa significa que os investidores que hoje compram dívida pública alemã que vai expirar em dez anos terão que pagar caso conservem o papel até a data de vencimento. Um investidor que compre um título da dívida alemã nesta semana por 105 euros receberá 100 euros dentro de dez anos. Em outras palavras, eles perderão dinheiro – e serão, por si só, uma contradição da lógica financeira.

Ainda assim, dado o receio com o futuro da economia da União Europeia – e, por extensão, da economia global -, há quem prefira o risco de perder um pouquinho, mas tendo em mãos um papel forte, como o bônus alemão, do que perder muito com ativos de risco crescente – como, por exemplo, ações da Bolsa de Londres.

Apesar das taxas negativas, o ‘bund’ alemão continua sendo um título pelo qual os investidores estão dispostos a pagar. E a taxa negativa dá, na verdade, muita margem orçamentária aos países emissores.

Foi o caso da Alemanha, que nos últimos anos aproveitou para reduzir os juros de sua dívida em aproximadamente 20 bilhões de euros por ano entre 2008 (quando os juros representavam 40 bilhões) e 2015 (de apenas 21 bilhões). Esse dado foi chave em 2014, quando o ministro das Finanças Wolfgang Schauble apresentou um orçamento equilibrado. Foi a primeira vez que isso aconteceu desde 1969.

(Da redação)

Continua após a publicidade
Publicidade