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BC sobe taxa de juros para 8% mesmo com PIB fraco

Com a decisão, Copom mostra que está comprometido com o combate à inflação; alta da Taxa Selic é a segunda consecutiva

O fraco crescimento da economia brasileira no primeiro trimestre, divulgado nesta quarta-feira, não assustou o Comitê de Política Monetária (Copom), que elevou a Taxa Selic – o juro básico da economia – em 0,5 ponto porcentual, para 8% ao ano. Pela segunda reunião consecutiva, a decisão de subir o juro mostra que o Copom escolheu controlar a inflação independentemente das pressões que possam vir do Palácio do Planalto.

“O cenário agora vai se tranquilizar, com o mercado vendo que o BC tem pulso firme no combate à inflação”, disse Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria, ao site de VEJA . Para ela, uma alta menor que 0,5 ponto porcentual poderia aumentar a volatilidade do mercado financeiro e a insegurança dos investidores. “Seria como se o BC estivesse fazendo uma coisa e falando outra”, reitera, lembrando dos inúmeros discursos do presidente do BC, Alexandre Tombini, e do ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre a seriedade com que o órgão trata a inflação.

No mês passado, o Banco Central (BC) aumentou a Selic em 0,25 ponto porcentual, para 7,5% ao ano. O movimento foi uma resposta aos ânimos exaltados do mercado – que perde, aos poucos, a confiança nas bases econômicas do governo Dilma Rousseff – e da população, que começou a sentir no bolso o fantasma da alta dos preços. Ao decidir por uma alta de 0,5 ponto porcentual e não de 0,25 ponto porcentual (maior aposta dos economistas), o Comitê preferiu o controle da inflação à expansão econômica – como prefere a presidente Dilma.

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Credibilidade – A queda da taxa básica de juros, guiada pela equipe econômica do governo Dilma nos últimos anos para estimular a economia, comprometeu não só a credibilidade do BC perante os agentes econômicos como também contribuiu para a alta da inflação. Até o início de abril, o BC mostrava uma tolerância exacerbada com a alta dos preços. Na visão de alguns economistas, como Alex Agostini, da Austin Rating, a alta dos juros básicos deveria ter começado antes devido à demora de seis a nove meses para surtir efeito na economia real – ou seja, para o consumidor. “No Brasil, o atual ciclo de alta dos juros é resultado de um novo arranjo entre política monetária e política econômica, na qual a primeira está muito alinhada aos objetivos da segunda, o que permitiu aceitar uma taxa de inflação num patamar acima do teto da meta de 6,5%”, ressalta Agostini, em relatório.

Dentro dessa conjuntura, o que é praticamente consenso entre especialistas é que o ciclo de alta dos juros já está atrasado e não será suficiente para convergir a inflação para o centro da meta (4,5%) em 2013. A prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio, indicador oficial de alta dos preços, desacelerou ante abril, passando de 0,51% para 0,46%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 12 meses, o IPCA-15 registrou alta de 6,46% em abril, uma leve redução ante os 6,51% de março. Mesmo com essa tendência de desaceleração (o índice cheio de abril subiu 6,49% em 12 meses, depois de ter avançado para 6,59% em março, a economista da Tendências, Alessandra, destaca que a inflação é ruim de qualquer forma, mesmo com a economia crescendo. “Nem se o BC subisse a Selic para 8,5% neste ano, como acredito, a inflação retorna para o centro da meta.”

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Crescimento – A política de juros baixos defendida a todo custo pela presidente Dilma não ajudou a acelerar o PIB – o Brasil cresceu apenas 0,9% em 2012 e 0,6% no primeiro trimestre. Agora, o país vive em um dos piores quadros econômicos: juros em alta, PIB baixo e inflação acelerando. Para piorar, a economia internacional dá sinais de fraqueza, com países europeus em recessão, EUA em lenta recuperação e a China recalculando para baixo sua expectativa de crescimento econômico.

O único fator que ainda “salva” o Brasil é o desemprego baixo – motivo de orgulho para a presidente. Mas a taxa já subiu em abril para 5,8%. Com o descaso do governo com os gastos públicos, economistas já preveem que o afrouxamento da política fiscal neste e no próximo ano, com o objetivo de garantir mais recursos para o governo estimular o crescimento da economia, vai dificultar o controle da inflação e sobrecarregar a política monetária do BC.

Futuro – Após decidir tirar a Selic de seu menor patamar histórico – 7,25% ao ano -, o Copom deu início a um ciclo de alta que não poderia simplesmente interromper neste mês. Apesar de o órgão continuar defendendo fielmente a tese de que a inflação vai desacelerar para 5,7% no final deste ano, qualquer manual básico de política monetária ensina que uma alta isolada da taxa de juros não existe. Assim, neste caso, o BC fez seu dever de casa ao subir os juros, mas ainda está longe de ganhar nota dez nos cuidados com a política monetária.

Agora, os olhos estarão voltados para a ata do Copom, que será divulgada na próxima semana com as explicações técnicas do banco. O relatório Focus, uma pesquisa semanal feita pelo próprio BC com os economistas, espera uma Selic em 8,25% neste ano, num cenário de IPCA a 5,81%. Para 2014, o analistas esperam agora alta de 3,5% do PIB e de 5,8% da inflação ante 5,5% na projeção do início do ano. As apostas estão na mesa e, em jogo, estão a corrosão do poder de compra dos brasileiros, diretamente prejudicado pela inflação, e a própria atividade econômica.