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Baixa do euro em relação ao dólar traz efeitos preocupantes para o Brasil

A queda do valor da moeda comum europeia está relacionada a um emaranhado de sinalizações pessimistas que indicam problemas para a economia global

Por Luana Zanobia
Atualizado em 24 jul 2022, 08h10 - Publicado em 24 jul 2022, 08h00

Para os usuários mais assíduos do Instagram, tem sido difícil escapar nas últimas semanas das fotografias publicadas por amigos ou influencers em férias na Europa. O momento final da pandemia, que deixou reclusas por meses pessoas em todo o mundo, combinado com o verão no Velho Continente parece ter atraído cada brasileiro que contava com recursos financeiros e tempo para poder usufruir das delícias de Portugal, Espanha, França, Itália e até das Ilhas Gregas. Por coincidência, tamanha euforia casou, neste mês, com um evento inédito. No dia 12 de julho, o euro alcançou a paridade com o dólar pela primeira vez desde o início da circulação da moeda comum europeia, em 2002, e há quem acredite que possa baixar até para a casa do 0,90 centavo de dólar nos próximos meses.

A notícia foi celebrada pelos turistas do momento ou por quem planeja uma viagem à Europa. Mas não deveria ser motivo de comemoração. A queda do valor da moeda comum europeia está relacionada a um emaranhado de sinalizações pessimistas que indicam problemas para a economia global, e em especial para a brasileira. Trata-se de um forte indício de que o mundo deve enfrentar um processo praticamente inexorável de desaceleração econômica e um dólar mais valorizado. Ou seja, será mais difícil para todos ganharem dinheiro — e, consequentemente, acumular divisas para viajar.

arte eco dolar

Para piorar, o cenário ainda pode resultar em inflação maior aqui no Brasil, o que obriga os juros locais, atualmente em 13,25%, a serem mantidos nas alturas. O fenômeno da desvalorização do euro está diretamente ligado ao aumento dos juros do outro lado do Atlântico. Em março, os Estados Unidos elevaram sua taxa para conter a inflação, o que atraiu uma revoada de recursos para o país e levou a uma desvalorização acumulada de 10% do euro frente ao dólar no ano. O índice DXY, que mede a moeda americana em relação a uma cesta de divisas fortes, acumula alta de 15% em 2022. Com o euro e o iene japonês enfraquecidos ante o dólar, é de se esperar que seja bastante difícil a tarefa de qualquer outra moeda rivalizar com a principal do mundo num momento em que investidores buscam ativos seguros para enfrentar as instabilidades globais. Na quinta-feira 21, o Banco Central Europeu, em um movimento que não se via em mais de uma década, elevou os juros em 0,5 ponto porcentual, para contrabalançar a escalada dos índices americanos e conter a alta dos preços que avança pelo continente.

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A preocupação é maior nos países emergentes, como o Brasil. O Instituto Internacional de Finanças calcula em 40 bilhões de dólares a fuga de capital estrangeiro desses mercados nos últimos quatro meses. Não bastasse isso, no caso brasileiro as incertezas políticas e as fragilidades fiscais do governo aumentam o risco, um fator a mais para a desvalorização do real. A moeda brasileira chegou a ganhar força frente ao dólar no primeiro trimestre do ano com o aumento do preço das commodities, decorrente da guerra na Ucrânia, mas o efeito foi revertido com os temores de uma recessão global. Os riscos com isso são diversos. Na terça-feira 19, a Petrobras anunciou uma redução no preço de venda da gasolina nas refinarias, justificada pela estabilização da cotação internacional do petróleo. A notícia foi comemorada pelo governo de Jair Bolsonaro, uma vez que a medida, associada ao pacote de corte de impostos aprovado no Congresso, deve ajudar o país a ter deflação nos próximos meses. Mas, com o dólar pressionando, o alívio pode ser passageiro. “Mesmo com a queda o preço segue alto no mercado nacional por causa do efeito do dólar”, explica o economista Mario Rubens de Mello Neto, da Fundação Getulio Vargas, lembrando que os preços da Petrobras são ancorados na moeda americana. Além disso, o dólar alto afeta produtos importados e outros que seguem a cotação internacional, como parte dos alimentos. Muitos economistas defendem que não existe fator mais relevante para as altas de preços no Brasil que um dólar forte. Neste cenário, o euro barato não é uma boa notícia. Nem mesmo para os brasileiros em férias.

Publicado em VEJA de 27 de julho de 2022, edição nº 2799

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