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Agravamento da crise grega pode afetar crédito no Brasil

Luís Artur Nogueira

Embora ainda pequeno, existe o risco de o crescimento da economia brasileira perder o ímpeto por causa da crise na Grécia. O principal canal de contágio seria via crédito internacional. “Se houver uma percepção de insolvência do sistema financeiro europeu, entrará areia na engrenagem dos financiamentos”, diz o economista-chefe de Brasil do Barclays Capital, Marcelo Salomon.

Na crise do subprime em 2008, o efeito foi parecido, embora em escala maior. Um banco não emprestava para o outro com medo de calote – muito menos para as empresas privadas. Os governos e bancos centrais tiveram de injetar recursos. Sem saída, grande companhias brasileiras acostumadas a captar no exterior tiveram de recorrer ao mercado financeiro nacional. Conclusão: além do custo mais alto, faltou dinheiro para as pequenas e médias empresas.

As autoridades brasileiras atuaram de forma rápida via liberação dos depósitos compulsórios e ampliação da oferta de crédito dos bancos estatais. “Uma nova crise serviria para testar a saúde das carteiras do Banco do Brasil e do BNDES”, diz Salomon.

Para o professor doutor do departamento de Economia da PUC-SP, Antonio Corrêa de Lacerda, a contaminação do Brasil também pode acontecer por meio do comércio exterior. “A crise na Europa pode atrapalhar a nossa balança comercial”, diz Lacerda, salientando que 23% das exportações brasileiras são para o Velho Continente.

A preocupação nos Estados Unidos está ligada às bolsas de valores. “O consumidor americano, que estava se beneficiando da recuperação dos mercados, pode ser prejudicado”, diz Salomon. Como 70% do PIB americano é movido pelo consumo, uma queda generalizada das bolsas atrapalharia a recuperação da atividade real.

No Brasil, até o momento nenhuma consultoria reduziu as previsões para o PIB em 2010. A avaliação dos analistas é de que ainda é cedo para estimar eventuais efeitos de um agravamento da crise na Europa. “É difícil prever o tamanho do impacto no PIB. Talvez não se fale mais no mercado em crescimento de 7%”, diz Salomon, que trabalha com um cenário de alta de 6% da economia neste ano.

A ata do Copom, divulgada nesta quinta-feira, mostra que o Banco Central está atento ao cenário internacional. “A crise pode propiciar um aperto monetário mais brando”, prevê Salomon. O professor Antonio Corrêa de Lacerda teme que o Copom esfrie demais a economia. “O risco é o Banco Central errar a mão como em 2008, quando os juros foram elevados às vésperas da quebra do Lehman Brothers”, diz Lacerda.