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A receita do Nobel de Economia para o enfrentamento da pandemia

Abhijit Banerjee explica que estudos de campo podem auxiliar a implantação de programas sociais eficientes; Prêmio de 2020 será anunciado no dia 12

Por Luisa Purchio Atualizado em 2 out 2020, 14h54 - Publicado em 1 out 2020, 16h20

O economista Abhijit Vinayak Banerjee conhece bem as mazelas da desigualdade social. Nascido em 1961 na metrópole indiana de Mumbai, dedicou sua vida acadêmica como professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) a estudar assuntos como os impactos econômicos das políticas assistenciais em regiões de extrema pobreza pelo mundo. O esforço para desenvolver métodos de pesquisa de campo que colocam à prova as teorias de políticas públicas o levaram até Estocolmo, em outubro do ano passado, para receber o mais recente Prêmio Nobel em Economia, junto com a sua esposa e parceira de pesquisas, a francesa Esther Duflo, e com o americano Michael Kremer. Em uma pesquisa, conduzida no Quênia, nos anos 1990, que foi das pioneiras nesse campo de estudos, Kremer comprovou por exemplo que a distribuição de vermífugos tinha impacto muito mais positivo do que subsidiar livros para combater a evasão escolar; e a custos mais baixos. Os alunos que tomaram pílulas contra vermes também acabaram tendo melhor desempenho escolar anos depois. Banerjee e Duflo, depois, expandiram essas pesquisas, comprovaram que remédios gratuitos traziam muito maior impacto social do que subsídios parciais para saúde e incentivaram a criação de programas globais adotados pela Organização Mundial da Saúde, a OMS. Além disso, Banerjee estabeleceu estratégias de incentivos para professores na Índia que melhoram o desempenho nas classes. Autor de sete livros que abordam a desigualdade de renda, sendo que o último deles chamado “Boa Economia para Tempos Difíceis” acaba de ser publicado no Brasil pela editora Zahar, o economista falou a VEJA pelo telefone da França, país para onde acaba de se mudar com a esposa e os dois filhos. Na semana que vem, os novos laureados pelo prêmio Nobel serão anunciados.

O sistema de pesquisas de campo que o senhor desenvolveu, que utiliza grupos de controle aleatórios para comparar impactos de ações diferentes, tem sido utilizado em meio à pandemia do coronavírus. Já existem resultados? Os estudos ainda não foram concluídos, mas já sabemos algumas coisas. Por exemplo, como mandar corretamente mensagens para a população de forma que isso produza impacto na tomada de decisões. Você pode mandar mensagens e as pessoas simplesmente as ignorarem. Estamos estudando isso nos Estados Unidos e em países como a Índia e Bangladesh. Nesse momento, avaliamos os resultados preliminares das informações que os estudantes têm nos mandado. Nos Estados Unidos, a inconsistência do presidente Donald Trump no trato da epidemia foi muito negativo e fez com que as pessoas perdessem a confiança nas informações passadas por ele. E, pior, isso acabou se ampliando para seu círculo próximo e a todo o governo, o que afeta até mesmo o Centro de Controle de Doenças, organização muito profissional, mas que acabou ficando associada a Trump.

Que tipo de informação não foi transmitida corretamente? Coisas prosaicas como a forma correta de se lavar as mãos, a importância do uso de máscaras, o que deve ser feito e o que deve ser evitado ao sair de casa. Há um outro estudo, por exemplo, que fizemos no Quênia, onde estamos observando o impacto e a força do dinheiro no comportamento da população em relação à saúde. Queremos saber quais padrões de atitude que adotam quando se sentem doentes – se buscam o sistema de saúde de imediato ou se relutam em procurar um médico por não terem dinheiro e não poderem custear o tratamento.

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    Como é possível tornar campanhas de informação mais efetivas em casos como o da pandemia de Covid-19? Nós fizemos um experimento na Índia, e a pergunta foi: como as pessoas responderiam a mensagens enviadas por celebridades? Tratou-se de uma pesquisa ampla, em que mandamos mensagens para 28 milhões de pessoas, com um link de um vídeo do YouTube. Aqueles que receberam a mensagem mudaram seu comportamento. Lavaram mais as mãos, usaram mais as máscaras e saíram menos de suas vilas. O objetivo é descobrir a melhor forma de influenciar a decisão pública e a nossa maior descoberta foi que isso acontece quando uma fonte confiável fala. Se a mensagem é inconsistente, as pessoas basicamente a ignoram, mas com uma celebridade que admiram é o oposto. Elas ouvem a informação.

    Quais os maiores obstáculos que existem hoje na realização de pesquisas sobre a Covid-19 voltadas a populações em situação de extrema pobreza? O distanciamento social é provavelmente a maior dificuldade. Com isso, é preciso encontrar formas que usem recursos digitas para se medir o comportamento das pessoas. A maior parte dos custos de uma pesquisa desse tipo está na coleta dos detalhes. Se você não observar minuciosamente, pode-se simplesmente inventar qualquer coisa que quiser e fugir da realidade. Para um programa social que custa 50 milhões de dólares, talvez a pesquisa custe 300 000 dólares. É um bom ou mal negócio? Acho uma ótima barganha, para ser honesto. Uma intervenção ruim custa muito mais.

    Pesquisas que se valem de seu método permitem conseguir melhores resultados com menos investimentos? Sim e há exemplos disso. Na Índia, uma grande questão era identificar formas de se mandar dinheiro do tesouro nacional para uma infinidade de aldeias de forma mais eficiente. O governo central precisava transferir para o estado, do estado para o distrito, do distrito para uma subdivisão administrativa que na Índia chamamos de bloco e finalmente do bloco para a aldeia. São muitos e muitos passos. Em vez de continuar fazendo dessa forma, experimentamos o envio de recursos por transferência eletrônica, diretamente para a aldeia, sem as múltiplas etapas. Só na fase experimental foi possível evitar perdas de 35 milhões de dólares. Se ampliado, pode significar muitas centenas de milhões de dólares.

    Houve alguma implementação de programas baseados em pesquisas que teve impacto de larga escala? Na Indonésia, fizemos experimentos para melhorar a entrega do subsídio destinado à compra de arroz. Esse projeto é a maior iniciativa voltada aos pobres daquele país. No começo da pesquisa, só 20% do dinheiro enviado alcançava o destino. O restante desaparecia nos meandros da burocracia até chegar às mãos dos beneficiários. Mandamos, então, para todos, um cartão com os dizeres “Se você está cadastrado no programa, esse é o valor correto previsto para receber”, seguido da cifra e a quantidade de arroz destinada a cada pessoa. Ao saber o quanto receberiam exatamente, os cadastrados passaram a exigir o valor correto. A perda de recursos caiu para 20%. Foi um resultado muito relevante para um programa de 1,5 bilhão de dólares.

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    No Brasil, o enfrentamento da pandemia levou a um embate entre duas correntes econômicas: o desenvolvimentismo defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e seus aliados e o liberalismo do ministro da Economia, Paulo Guedes. O que é mais importante para as finanças de um país num momento de crise como o que vivemos? A pandemia é um choque monumental para a economia de um país e a preocupação excessiva com um eventual déficit fiscal talvez não seja indicada nesse momento. Claro que uma política de aumento nos gastos públicos pode ser feita de forma eficiente ou não. Muito dinheiro gasto erroneamente pelo governo traz consequências péssimas para um país, mas a disposição de investir em ações bem planejadas é positiva em momentos como o atual. Afinal, muito dos empregos simplesmente tem deixado existir, principalmente entre as faixas mais vulneráveis da população. Não há demanda suficiente para a produção econômica. Então, não é uma má ideia gastar dinheiro – e nesse caso as cifras costumam ser bem altas. Mas, depois que a pandemia acaba, a relação com os gastos precisa mudar.

    Como avalia a resposta dos Estados Unidos à pandemia, com a injeção de trilhões de dólares na economia? Há duas coisas separadas: a política econômica e a política da pandemia. A segunda foi totalmente baseada em desinformação, um desastre total e muito abaixo do desempenho de muitos países da Ásia, por exemplo. Trump tentou dizer às pessoas que a doença não existia, que usar máscaras não era uma boa ideia, e arranjou desculpas para reabrir as atividades precocemente. Muitos estabelecimentos abriram cedo demais e pessoas morreram como consequência disso. No lado econômico, a reação americana na gestão da crise foi razoável. Em certo sentido, agora, há dificuldades porque os parlamentares ligados ao Partido Republicano estão se recusando a autorizar mais gastos. No começo da Covid-19, houve muita disposição para dar benefícios aos trabalhadores, ajudar as companhias e manter empregos, mas de uns tempos para cá isso mudou.

    Como o senhor avalia o posicionamento do ponto de vista econômico do presidente Trump, que está em meio a uma campanha eleitoral? Não concordo em nenhum grau com o que o presidente Trump tem feito. Antes da pandemia, ele expandiu o déficit massivamente. Um governo pode até achar que está tudo bem ampliar seus gastos – uma medida que durante uma pandemia, de fato, é necessária. Mas a volta ao patamar normal de gastos é um desafio que não tem respostas óbvias. Trump e sua equipe não entendem as consequências de suas políticas e não há competência em nenhuma das suas decisões de política econômica. Não só nas contas públicas, mas também na política de exportação e importação. Houve muita conversa sobre como combater a desigualdade social, mas nada foi feito sobre isso. Ele travou grandes brigas contra a Amazon, de Jeff Bezos, um empresário que toma como inimigo, mas nenhuma contra a Apple, por exemplo. Ele faz simplesmente o que acha que será politicamente bom e sempre é simpático com seus amigos. Espero que o programa de Joe Biden seja um pouco diferente, mas não tenho ideia de como será.

    O mundo ainda está polarizado, com as nações adotando o protecionismo. As instituições internacionais reagiram adequadamente à crise? Essas organizações passam por uma situação de muito estresse. Em certo nível, será interessante ver o que isso causou, porque os países estão sob grandes déficits e sofrem muita pressão. As nações estão se movendo para o individualismo ao invés de cooperar. De outro lado, a pandemia mostrou aos países que o isolamento pode ser perigoso. Na Europa, há uma força de união, surgida imediatamente após a pandemia. Aqui, o relacionamento entre os países se fortaleceu.

    Depois da pandemia a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China pode se acirrar? É fácil culpar politicamente a China pela pandemia ou por alguma outra coisa qualquer. Por isso, talvez a rivalidade piore. Por outro lado, você não pode simplesmente deixar que todos os países adotem a postura que desejam, porque, no fim das contas, acabará com um vazio no comércio mundial. Espero que as pessoas fiquem mais sensíveis a isso.

     

     

     

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