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A primeira lição sobre a merenda escolar

Esther Dyson diz que a mudança nas regras de alimentação nas escolas dos Estados Unidos está mais ligada ao dinheiro e aos negócios do que à saúde e nutrição

Por Esther Dyson
1 mar 2014, 16h22

Se me dissessem, há um ano, que eu participaria de uma conferência dedicada ao assunto ‘merenda escolar’, eu teria dado uma boa gargalhada. O mais próximo que eu cheguei de uma merenda, ultimamente, foi na classe executiva de voos de longa distância.

No início deste mês, participei de um encontro nacional sobre merenda escolar – e achei aquilo comovente e instigante.

Antes, aqui vai um pouco de contexto: nos Estados Unidos, as merendas escolares começaram a ser subsidiadas em 1946 como um programa de bem-estar social – mas esse foco era no bem-estar dos agricultores, não de crianças em idade escolar. O objetivo principal era ajudar os agricultores a se livrar de – digo, distribuir generosamente – seus excedentes de produção.

O programa foi gradualmente se transformando ao longo dos anos porque os alunos, seja por escolha ou necessidade, contavam cada vez mais com a merenda escolar como fonte de alimentação em vez de trazer seus próprios lanches de casa. O porcentual de crianças que se qualificam ao almoço escolar grátis ou a preço reduzido tem crescido – para 48% do total, ou, aproximadamente, 20 milhões – e a merenda escolar (cada vez mais, café da manhã e até o jantar) é agora uma parte significativa das dietas de muitas delas.

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A nova legislação exige melhor nutrição, proíbe doces e bebidas açucaradas e a venda paralela de alternativas pouco saudáveis para o menu principal. Mas, as novas leis não especificam quão saudáveis devem essas merendas – e ainda se espera que os municípios financiem essa alimentação, exceto a parte composta por mercadorias excedentes. Uma coisa é promulgar a legislação. Mas, construir uma infraestrutura para implementá-la e, nesse caso, para oferecer uma refeição saudável por cerca de 1,50 dólar por criança, é outro assunto.

Na verdade, mudar a merenda escolar tem mais a ver com dinheiro e negócios do que com saúde e nutrição. (Os objetivo final é claro, o desafio é saber como alcançá-lo.) O encontro nacional chamado School Food FOCUS (Foco na Alimentação Escolar, em tradução livre) é um braço da organização sem fins lucrativos Public Health Solutions (Soluções para a Saúde Pública, em tradução livre). Eles convocaram seus membros – gestores de alimentação de 36 distritos escolares dos Estados Unidos, os quais servem mais de 4 milhões de crianças diariamente – e levou pesquisadores, organizações filantrópicas parceiras (principalmente os defensores de alimentos saudáveis) e fornecedores de alimentos. Com efeito, a FOCUS converteu os fornecedores em aliados – e patrocinadores. O encontro foi uma feira de negócios tanto quanto um evento para burocratas e filantropos.

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Eu esperava ouvir sobre esforços de lobby e nutrição, mas aprendi, principalmente, sobre cadeias de suprimentos. A discussão foi focada principalmente em como os alimentos podem ser adquiridos, preparados e entregues dentro dos limites de preços, disponibilidades e instalações de cada escola do distrito (que determinam que tipo de comida pode ser preparada e servida).

O programa de merenda escolar é o maior mercado discreto para comida saudável de baixo custo. Mas a maioria dos fornecedores de alimentos prefere seguir as vontades de seus acionistas e vender comida mais cara, com maior margem de lucro, pouca importando se é saudável ou não. Por anos, eles queixaram-se que as crianças (e adultos) rejeitavam comida saudável em favor de alimentos menos saudáveis que tivessem melhor sabor. Agora, cada vez mais forçados a ir em direção de alimentos saudáveis pelos regulamentos do governo, os fornecedores escolares estão tentando descobrir como melhorar tanto a salubridade quanto o sabor – porque o governo exige que as escolas mensurem não somente o que é dado às crianças, mas o que eles escolhem (o que eles realmente comem e não jogam fora).

Pode-se argumentar que um governo não pode e não deve controlar o que as pessoas comem. Mas neste mercado único, é o governo que está pagando e os clientes são incapazes – pelo menos em termos jurídicos – de escolher o que é de seu próprio interesse. Isso cria um ambiente de teste ideal não só para fornecedores da escola, mas também para um mercado de alimentos mais amplo.

O desafio para os fornecedores é simples: fazer comida saudável, barata, que agrade aos consumidores mais mimados do mundo, ou seja, as crianças de escola primária. Para isso, a primeira pergunta a ser respondida é: o que faz da merenda escolar algo tão ruim?

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Além do foco no preço e a necessidade de absorver os excedente de fazendas, a merenda reflete uma tendência mais aberta para transformar a preparação de alimentos em produção industrial. A homogeneidade é valorizada acima da qualidade, e a conveniência é avaliada mais que o frescor dos alimentos (e mais que o custo).

Cadeias de restaurantes como o McDonalds, por exemplo, têm transformado a agricultura ao redor do mundo com as suas necessidades de homogeneização de carne, pão, batata e afins, sob o pretexto que consistência é igual à qualidade. A variação no tamanho ou cor de, vamos dizer, tomates, chega a ser consideradas ruim (a menos que o chamemos pelo nome, como de tomate heirloom, e enfatizemos sua singularidade).

Nas escolas, alimentos pré-embalados são considerados melhores que comidas não-industrializadas, não só porque esse alimento pode ser oferecido novamente na terça-feira, se as crianças não quiserem comê-lo na segunda-feira, mas também porque são todos iguais.

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Esta tendência agora está sendo revertida para a merenda escolar, graças a inovações na legislação, como a preferência (de até cerca de 10%) para os produtos cultivados localmente. Mas há outra questão: servir melhor merenda escolar muitas vezes requer a reabilitação de instalações de preparação de alimentos que já existiam antes. Em vez de armazéns para desempacotar embalagens e armazenar caixas de carregamento, as escolas precisam de fogões, geladeiras, utensílios de cozinha e pratos, entre outras coisas.

Um orador no Encontro Nacional observou que é mais fácil obter financiamento para equipamentos de capital do que para a compra de alimentos. E fornecedores como a Revolution Foods, fundada por duas mães de crianças em idade escolar, oferecem não só alimento, mas também programas de nutrição para os alunos e, inclusive, formação para trabalhadores do setor de alimentos.

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Como a maioria das mudanças sociais em grande escala, modificar o consumo popular de alimentos mais saudáveis requer consciência e disposição. Assim como a reciclagem ganhou espaço através de princípios e uma nova consciência social, fornecedores que aprendem a vender alimentos saudáveis às escolas, um dia podem vir a atingir um mercado adulto muito maior, seja por causa de princípio, uma mudança nas expectativas ou pelo simples fato de seus clientes terem crescido.

Esther Dyson, diretora da EDventure Holdings, é uma empresária e investidora voltada para tecnologia e mercados emergentes. Seus interesses incluem a tecnologia da informação, cuidados de saúde, aviação privada e viagens espaciais.

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate, 2014

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