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A globalização do Fed

Ngaire Woods e Geoffrey Gertz afirmam que, apesar dos problemas domésticos dos países emergentes, a culpa maior pela crise cambial deve ser atribuída ao Fed

Por Ngaire Woods e Geoffrey Gertz - 3 mar 2014, 14h46

Os Estados Unidos devem se preocupar porque os efeitos de sua política monetária causam estragos devastadores em países emergentes e em desenvolvimento? Essa foi uma questão confrontada pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), no auge do seu programa de afrouxamento quantitativo (ou quantitative easing), quando suas compras mensais de ativos induziram investidores a sair mundo afora em busca de maiores retornos e, consequentemente, inundar alguns mercados de dólares. Tal questionamento ainda permanece, agora que o Fed está diminuindo suas compras de ativos, invertendo os fluxos de capital e deixando um alto número de emergentes por sua conta e risco.

Ao contrário do que a maioria dos observadores parece acreditar, a resposta não está em examinar o mandato do Federal Reserve ou debater a atuação dos legisladores dos países em desenvolvimento. Em vez disso, é preciso avaliar como e se os Estados Unidos querem assumir a liderança na economia global. Se os EUA pretendem preservar uma ordem financeira global aberta e estável, não devem ignorar a crise atual nos mercados emergentes.

Desde que se começou a mencionar o tapering (jargão em inglês usado para explicar a redução gradual no volume dos estímulos monetários do Fed) no ano passado, um número crescente de emergentes sofreu pressão: suas moedas foram depreciadas, o capital está desaparecendo e seus bancos centrais estão sendo deixados com a difícil tarefa de combater uma desaceleração do crescimento interno, mantendo a estabilidade externa.

A recuperação incipiente nas economias avançadas parece estar provocando instabilidade generalizada, da Argentina à Turquia até a Índia.

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Alguns dos problemas recentes dos países emergentes decorrem de falhas no mercado doméstico. Mas a política interna é apenas parte da equação. Isso explica o fato de alguns países com fortes fundamentos econômicos e políticas macroeconômicas responsáveis – como o México – ainda enfrentarem dificuldades.

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Assim como as rodadas sucessivas de flexibilização de política monetária dos EUA e da União Europeia causaram grandes mudanças nas condições financeiras e nos preços dos ativos dos emergentes que estavam atreladas aos seus próprios fundamentos, a instabilidade que vivenciam hoje é conduzida mais pelo desenrolar dessas políticas do que por fatores domésticos. Por isso, há algo que os emergentes possam fazer para evitar serem vítimas de entradas e saídas maciças de capital externo?

Em relação a uma década ou duas atrás, os emergentes têm, hoje, um conjunto de ferramentas à sua disposição. Essas ferramentas incluem gestão do fluxo de capital, intervenções no mercado cambial, regulação macroprudencial e acumulação de reservas – que fornecem alguma margem de manobra.

Embora sejam dispendiosas e tecnicamente complicadas – mesmo que executadas perfeitamente -, tais mecanismos nem sempre são eficazes. Aliás, até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI) apoiou o uso de medidas de controle de fluxo de capital, sob certas condições. Muitos países ricos continuam cobrando alinhamentos para os acordos de comércio e de investimento. Por exemplo, a Parceria Trans-Pacífica – que impediria qualquer uso de controles de capital.

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O fato é que os emergentes se encontram num verdadeiro beco sem saída. As ferramentas nacionais à sua disposição são de uso limitado frente ao esmagador fluxo de capitais que se movimenta em escala mundial, conduzido por decisões de política monetária praticadas em outros países. No entanto, simplesmente sentar e observar como suas moedas giram em círculos, dependendo da variação do capital, é uma alternativa politicamente e economicamente insustentável.

Podemos imaginar vários cenários. Os países emergentes e em desenvolvimento podem isolar-se cada vez mais, erguendo muros ao capital estrangeiro, isolando-se, para isso, do mercado mundial – uma inversão da globalização. Alternativamente, eles podem revelar-se atores poderosos – sobretudo a China – apoiando-se e se protegendo dos caprichos dos mercados globais sobre o qual eles têm pouca ou nenhuma influência. Num terceiro cenário, os EUA podem se tornar mais atentos aos seus próprios interesses na manutenção de uma ordem financeira internacional aberta, trabalhando para mitigar os conflitos decorrentes da incompatibilidade entre os fluxos financeiros globalmente integrados e a política monetária interna.

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Os EUA obviamente seriam mais favorecidos se incentivassem o terceiro desses cenários e desencorajassem os dois primeiros. Quanto maior a indiferença dos EUA para com as fortunas flutuantes dos emergentes, mais eles estarão sendo empurrados em direção a uma dessas duas opções. Uma política monetária isolada dos EUA será recebida como política monetária isolada no exterior – e todos perderão.

O que os EUA podem fazer para garantir que os principais mercados permaneçam abertos à sua política monetária? No início deste mês, o G-20 declarou aos EUA que “suas políticas monetárias precisam ser efetivamente e cuidadosamente calibradas e claramente comunicada”. Não é suficiente. Os EUA precisam continuar fornecendo linhas de swap para os emergentes que necessitem de liquidez em dólar. Também precisam aumentar o envolvimento no sentido formal e informal da concepção de processos consultivos monetários, bem como apoiar acordos regionais entre países, tais como a iniciativa de Chiang Mai (que prevê auxílio financeiro entre países asiáticos).

Igualmente, os negociadores norte-americanos precisam parar de insistir que os países abram mão de seus direitos do uso de medidas para se protegerem dos efeitos adversos da política monetária dos EUA. Crucialmente, os EUA também precisam parar de impedir o FMI de reformar e implantar recursos adicionais de todos os países.

Declarações e recentes medidas sobre a política monetária dos EUA refletiram a crença de que a participação dos Estados Unidos na estabilidade financeira dos PED é limitada à extensão em que a volatilidade representa um risco de curto prazo nas perspectivas econômicas dos EUA. Esta estratégia míope contraria a objetivos mais amplos de geopolítica e economia do governo dos EUA.

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Os EUA recebem inúmeros benefícios de uma ordem financeira global aberta, que agora está em risco. Uma política monetária que reconhece a interdependência de hoje irá proteger os interesses de longo prazo da América.

Ngaire Woods é reitora da a Blavatnik School of Government e professora e reitora do programa de governança econômica global da Universidade de Oxford. Geoffrey Gertz é diretor de pesquisa do programa de governança econômica global da Universidade de Oxford, que recentemente organizou uma conferência sobre as consequências monetárias e regulatórias do programa de estímulos do Fed.

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate, 2014

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