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Radar Econômico Por Josette Goulart Análises e bastidores exclusivos sobre o mundo dos negócios e das finanças. Com Diego Gimenes.

Presidente da Embraer: Investidor cobra nosso compromisso, não de governo

Fabricante de aviões se prepara para entregar metas de ESG nas próximas décadas. Antes disso, seu carro voador estará no ar.

Por Josette Goulart, Diego Gimenes Atualizado em 30 ago 2021, 13h10 - Publicado em 30 ago 2021, 14h00

De uma hora para outra, a Embraer passou de empresa rejeitada pela Boeing para se tornar na empresa do futuro com seus eVTOLs, os carros voadores elétricos que estão sendo desenvolvidos pela sua startup Eve. O gráfico do desempenho das ações da empresa mostra claramente o movimento. Mas, daqui a cinco anos, quando a empresa se instalar no futuro com a entrega dos eVTOLs a seus clientes, ainda estará apenas no começo de uma outra agenda: o ESG. A começar pela igualdade de gênero. A empresa estabeleceu apenas neste ano uma meta de ter 20% de mulheres em cargos de liderança. Apenas 20%, até 2025. Ou seja, quando estiver entregando seus carros voadores ainda terá uma empresa essencialmente comandada por homens. O vice-presidente de pessoas e sustentabilidade se explica: “Toda a formação de talentos vem de uma engenharia eminentemente masculina”. O presidente da empresa quer mostrar que a mudança já começou: “Três das nossas mais importantes plantas são gerenciadas por mulheres. Apesar das dificuldades, são promoções feitas recentemente. São bons exemplos da nova política”.

A questão de gênero é apenas um dos pontos que a Embraer está abraçando para atender a demanda crescente de investidores, clientes, consumidores, pelo ESG. No seu último o balanço, o do segundo trimestre do ano, e que foi também o primeiro com lucro desde 2018, a empresa anunciou pela primeira vez metas claras para zerar emissão de carbono e tornar suas aeronaves menos poluentes. A mudança na empresa está sendo comandada por Francisco Gomes Neto, que chegou à companhia em 2019, vindo da Marcopolo, e que concedeu a seguinte entrevista ao Radar Econômico.

O que o senhor entende que é o ESG? O aquecimento global é um dos maiores desafios que nós temos. A temperatura do planeta continua a subir e a nossa sociedade continua enfrentando grandes diferenças sociais. As empresas têm um papel importante nessa missão. Na Embraer, temos melhorado nossa governança e aprimorado a parte social. Achamos que é um momento de sermos ainda mais firmes nesse sentido. Na última divulgação de resultados, anunciamos nossos novos compromissos para reduzir emissões de carbono e buscar uma sociedade mais inclusiva.

Como se deu essa mudança? Foi por pressão dos acionistas, dos consumidores, dos governos? É uma tendência global. Essa demanda por um foco maior no meio ambiente, na parte social, na inclusão e na governança é uma demanda global de investidores, analistas e, até, internamente na companhia. Não é um assunto novo na Embraer, estamos, simplesmente, assumindo compromissos mais arrojados nessas três frentes.

Quais são as metas? No meio ambiente, nossa meta é ser uma empresa carbono neutro até 2040. Para isso, temos de reduzir o máximo possível as nossas emissões. Cerca de 75% das nossas emissões estão no combustível para teste e entrega dos aviões, além da energia usada nas fábricas. Para atingir a meta, vamos focar no uso do combustível sustentável e no uso de energia solar e eólica nas fábricas. É dessa forma que pretendemos atingir a meta de ser empresa carbono neutro. Além disso, estamos apoiando a indústria aeronáutica para ser carbono neutro até 2050. No caso da edificação, estamos desenvolvendo o eVTOL, um veículo 100% elétrico. Vamos certificar o veículo até 2025 e, a operação, deve começar em 2026. Em julho, fizemos o primeiro voo do Ipanema elétrico, um demonstrador para testar tecnologia. A outra frente é no hidrogênio verde, onde esperamos testes nas aeronaves até 2025.

A frota muda também? Os nossos aviões já estão preparados para operar com combustível verde. Estão preparados para receber até 50% desse combustível. Vamos trabalhar para atingir 100% até 2030.

Como o cronograma é montado? Esse combustível depende muito dos motores dos aviões, que não são produzidos pela Embraer. Temos de trabalhar em conjunto para fazer a certificação de motores de maior nível de combustível verde. É importante ter disponibilidade a preços competitivos. O Brasil não produz isso hoje e aquele que é feito nos Estados Unidos é 100% mais caro que o querosene da aviação. Nosso compromisso é trabalhar com os fornecedores para atingir a meta até 2030.

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Estamos atrasados em termos de meio ambiente? É um grande desafio. Por conta do foco maior no ESG, é uma missão de todos acelerar esse processo. Estão todos anunciando as metas e compromissos com essa mudança.

Quando teremos um primeiro modelo mais sustentável na área comercial? Os jatos E2 já trazem contribuição importante porque são mais eficientes. Contudo, já é um mercado mais complexo pelo tamanho das aeronaves e pelas grandes distâncias. Vai depender do uso do SAF e, num segundo momento, da propulsão, com hidrogênio ou via elétrica, no desenvolvimento de baterias, mas é uma solução mais complexa.

E as outras letras do ESG? No G, a Embraer já tinha padrões internacionais de governança, mas, recentemente, nomeamos a segunda mulher para o conselho de administração e, agora, estamos aguardando aprovação dos acionistas para nomeação de dois conselhos internacionais, para diversificar e reforçar nossa governança. No S, a gente tem preparado jovens no Instituto Embraer, com alto nível de aprovação no Enem. Continuamos investindo no instituto. Outra meta que assumimos é de ter metade das contratações na Embraer oriundas de minorias até 2025. Temos o objetivo de ter pelo menos 20% da liderança sênior da Embraer composta por mulheres. São dois compromissos na linha do S.

 O eVTOL é um carro voador, algo do futuro. Não parece pouco ter só 20% de mulheres em cargos de liderança em 2025? Carlos Griner, vice-presidente de pessoas e sustentabilidade, responde: O motivo é que temos uma indústria majoritariamente masculina. Toda a formação de talentos vem de uma engenharia eminentemente masculina. A gente tem o alcance de fazer a transição na porta de entrada. No nosso programa específico de mestrado em engenharia aeronáutica, onde podemos acelerar esse processo, vamos aumentar esse compromisso para 25% de mulheres. A empresa está totalmente aberta a acelerar. Francisco Gomes Neto completa: três das nossas mais importantes plantas são gerenciadas por mulheres. Nossas plantas de Gavião Peixoto, Melbourne e a de trens de pouso são comandadas por mulheres e, apesar das dificuldades, são promoções feitas recentemente. São bons exemplos da nova política.

Como vocês pensam a questão racial? Carlos Griner: Nós estamos realizando um censo para ver o que cada um se considera do ponto de vista étnico e racial. Primeiro estamos conduzindo um trabalho de treinamento e sensibilização de toda a liderança no tema da diversidade. Até o final do ano, teremos toda a liderança treinada e, no ano que vem, vamos treinar todos os colaboradores da Embraer para criar um ambiente mais inclusivo e aberto. No segundo semestre, vamos conduzir um censo para ter números e referências mais sólidas para, a partir do ano que vem, trazer compromissos ligados à questão racial e a outros temas que devem aparecer no censo que será feito no segundo semestre.

O senhor teve de mudar o seu jeito de pensar para incluir mais mulheres e negros? Eu sempre usei como ferramenta de gestão o trabalho em equipe, e para ele ser mais bem-sucedido, deve ter diversidade de pensamento e de cultura. Eu tive a sorte de ter experiências nacionais e internacionais com diferentes tipos de cultura e pessoas. Eu, pessoalmente, nunca tive nenhum problema em relação a isso. Sempre valorizei a diversidade em todos os aspectos, e tem sido tranquilo abraçar a todos esses projetos, que vão fortalecer esse espírito de equipe e informação que conseguimos com os times. A Embraer tem uma equipe muito competente e apaixonada pelo que faz. Vou apoiar as iniciativas.

O Brasil está com uma imagem de preservação do meio ambiente ruim lá fora. Isso afeta o negócio da companhia? Nos eventos que temos participado, vemos que eles querem ouvir da Embraer o que será feito, como a companhia se posiciona. Claro que é importante todo mundo caminhar na mesma direção, mas o foco maior é nos nossos próprios compromissos.

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