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Os gastos sem precedentes do governo com juros da dívida em seis gráficos

Despesas com serviço da dívida pública passaram de R$ 1 trilhão em junho pela primeira vez na história e devem em breve superar a Previdência

Por Juliana Elias Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 3 ago 2026, 08h02 | Atualizado em 3 ago 2026, 08h28
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O governo federal nunca precisou de tanto dinheiro para pagar juros da dívida pública quanto agora. Dados do Tesouro Nacional e também do Banco Central divulgados nesta semana, atualizando o retrato das contas públicas até junho, dão uma ideia da conta gigantesca e sem precedentes com juros. Ela veio sendo gestada ao longo dos últimos anos, resultado de uma mistura explosiva de taxa de juros alta aplicada sobre uma dívida também em níveis recordes.

Nos 12 meses até junho, os gastos da União com o custo da dívida, que são os juros, passaram a marca de 1 trilhão de reais pela primeira vez na história. É o equivalente a quase 8% do PIB só em despesa financeira, um dinheiro que não produz nada. Para se ter uma ideia, os gastos públicos totais do país em educação são de pouco mais de 5% do PIB, e, com saúde, são da ordem de 4%. E, nesses dois casos, incluem-se também os gastos dos estados e municípios para os dois setores.

Ter uma conta muito alta com juros não só retroalimenta a dívida – o governo pega cada vez mais dinheiro emprestado e emite cada vez mais dívida para pagá-los -, como também vai drenando recursos que poderiam ser usados em outras coisas.

Veja a seguir os principais números que dão uma dimensão de quão disfuncional essa obrigação se tornou:

1. Mais de R$ 1 trilhão por ano

Pela primeira vez, em junho, os gastos do governo central com juros passaram de 1 trilhão de reais, de acordo com os resultados do mês divulgados na quinta-feira, 30, pelo Tesouro Nacional.

Desde 1997, quando começa a série, nunca esse gasto tinha sido tão grande – e os valores já são corrigidos pela inflação, ou seja, estão atualizados para preços de hoje.

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2. Um pedação do PIB

Os gastos anuais com juros da dívida pública, de apenas 100 bilhões de reais em 1998, eram bem menores do que são hoje. Mas o produto interno bruto (PIB) do Brasil também era. O PIB é, de maneira simplificada, uma medida da renda disponível que o país tem para pagar a sua dívida, juntamente com os juros gerados por ela. Então o que realmente importa é o que cresceu mais: o custo da dívida ou o PIB.

E o custo financeiro, ao menos por agora, ganhou essa corrida: só os gastos federais com juros chegaram a 7,9% do PIB em junho, nas estatísticas calculadas pelo Banco Central. É também a maior proporção desde 2002, ano em que a série do BC começa. Os dados do BC reúnem as contas do governo central (Tesouro Nacional e Banco Central), mas também as das empresas estatais federais.

3. A segunda maior despesa

As despesas com juros, que são de natureza financeira, não competem diretamente com as chamadas despesas primárias, que são os gastos diretos do governo nas coisas que mantêm a máquina pública e o país funcionando, como salários, benefícios, programas públicos ou investimentos.

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No caso dos juros, quase sempre o pagamento é feito com a rolagem da dívida – quer dizer, o Tesouro emite e vende novos títulos da dívida pública para pagar os que estão vencendo, já com seus juros embutidos. Ainda assim, quanto maior o valor pago com os juros, mais rápido a dívida cresce, e o governo vai ficando com uma folga cada vez menor para usar com as outras coisas o dinheiro que pega emprestado.

E a conta com juros é enorme: se fosse uma despesa como as outras, seria a segunda mais cara do orçamento, atrás apenas dos gastos com a Previdência feitos pelo INSS.

Nos 12 meses até junho, as despesas primárias totais – desconsiderados os juros – estavam em 2,66 trilhões de reais.

4. Gasto com juros já alcançou o INSS

Os gastos com juros da dívida, inclusive, ficaram tão monstruosos que já estão prestes a ultrapassar as despesas com a Previdência Social. Isto significa que eles devem muito em breve se tornar a maior despesa da União, um fato que não só é incomum como também nada natural.

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Os benefícios previdenciários concentram, essencialmente, os gastos do INSS, que incluem a aposentadoria urbana e rural. Eles, por si, já são um problemão, justamente por serem um gasto enorme, que drena sozinho quase a metade dos recursos do orçamento e que não para de crescer, conforme a população envelhece.

A única vez em que o serviço da dívida foi maior do que os gastos do INSS foi em 1999, quando a taxa de juros, a Selic, bateu o recorde de 40%, em meio à crise do câmbio fixo daquele ano, e a Previdência, por sua vez, ainda era uma conta bem mais suave em meio a uma população ainda amplamente jovem.

5. Juros altos

E o que aconteceu para essa fatura se tornar trilionária? Ter a taxa de juros alta certamente ajuda. A taxa Selic passou uma longa temporada recente em 15%, seu maior patamar em 20 anos, e está atualmente em 14,25%, num processo bem vagaroso de queda. É a segunda taxa de juros mais alta do mundo.

A Selic é a taxa básica de juros do Brasil, definida pelo Banco Central, e é justamente o juro que serve de referência direta para a remuneração dos títulos públicos, que nada mais são do que a dívida que o governo precisa saldar. E é literalmente a Selic o que o governo paga como remuneração na maior parte de seus títulos, enquanto os demais (prefixados e atrelados à inflação) flutuam ao ritmo dela.

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Com uma taxa de juros tão alta, não há outro resultado possível além de uma conta salgada de juros a pagar.

6. Coquetel explosivo

Mas o Brasil já pagou juros de 14% ou (bem) mais em diversos outros momentos do passado. Por que, então, ainda assim, a conta final de juros está maior agora do que em qualquer um deles?

É aí que entra e completa a equação o tamanho da dívida. Se juros altos são ruins, e dívida alta também é ruim, a combinação dos dois é um completo desastre. E a dívida pública brasileira também está em nível recorde – ela chegou perto dos 82% do PIB em junho, um tamanho que só tinha sido alcançado antes no auge da pandemia de coronavírus, em 2020 e 2021.

Como em qualquer empréstimo ou financiamento que tomamos, o valor total a ser pago em juros será um resultado da taxa e do valor do empréstimo sobre o qual ela é aplicada.

O Brasil, por exemplo, já pagou juros de 14% antes, como agora – mas sobre uma dívida que era bem menor, da ordem de 60% do PIB, e não 80% como agora. Foi o que aconteceu em 2008 ou em 2015. Por outro lado, essa dívida também chegou a ser bem maior, justamente durante a pandemia, quando ela bateu o recorde de 87% – mas com juros ineditamente pequenos. Em meio à recessão global gerada pela crise sanitária, a Selic chegou a ficar em apenas 2%.

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