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Parece artista, mas é a subcomandante da UPP da Mangueira

A tenente Tatiana Lima, de 27 anos, jogou futebol no Botafogo, no Vasco e na PM, e diz que a presença feminina ajuda a aceitação da polícia na favela

No meio dos 403 policiais militares que ocuparam o morro da Mangueira nesta quinta-feira, a tenente Tatiana Lima chama a atenção. Magra, com os olhos pintados e com a manicure em dia, ela não é mais uma no meio das centenas de PMs. Tatiana, de 27 anos, é a subcomandante da 18ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Acima dela, o comandante da UPP, capitão Leonardo Nogueira. Abaixo, 61 mulheres e 342 homens. Na cerimônia de inauguração da unidade, preferiu a discrição. Ela não gosta de câmeras, se diz tímida. Para tirar foto, não quis posar sozinha. Com uma criança a tiracolo, sentiu-se mais à vontade. Tatiana gosta dos jovens, e já tem alguns projetos para as crianças mangueirenses.

Aos 11 anos, quando ainda morava no Grajaú, na zona Norte, costumava participar de alguns eventos na Mangueira. A sua proximidade com a favela foi um dos motivos pelos quais o comandante das UPPs, coronel Seabra, escolheu o nome de Tatiana para compor o comando da unidade. Além de conhecer o local, o currículo da tenente a credencia para criar projetos voltados para as crianças. Tatiana foi animadora de festas e jogou futebol profissional. Foi atleta no sub-17 do Botafogo e depois no sub-20 do Vasco. Não perdeu o hábito na polícia. Pela corporação, foi campeã brasileira com o seu time de PMs.

A tenente pretende implantar um projeto de futebol para crianças. Outra ideia é dar aula de canto para os menores. Além das realizações fora da polícia, Tatiana ganhou experiência ao ser subcomandnate da UPP da Cidade da Deus. Em apenas três anos de polícia, ela sabe os benefícios de ser mulher no meio de tantos homens. “A comunidade aceita mais, confia mais. É o amor de mãe. Nós temos um olhar diferente”, explica.

As Forças Armadas eram um sonho para Tatiana. A Polícia Militar, força auxiliar, foi vista pela tenente como a possibilidade de ter contato direto com a sociedade. A fala mansa e o empenho em promover a interação entre os moradores da Mangueira e a polícia parecem esconder a mulher que anda armada e é uma das principais vozes, a partir desta quinta, no morro. Sem alterar o tom, ela explica como age diante de um criminoso: “O bandido quando vê mulher tenta crescer (intimidar). Eles tentam usar a força. Mas eu tenho os meios necessários para imobilizá-lo”, afirma.

Tatiana é atenta. Durante a implantação da UPP, ela esteve no palco ao lado de secretários e do governador Sérgio Cabral. Uma música de Sérgio Cabral, o pai, foi cantada pelo presidente da Mangueira, Ivo Meirelles. Ao final, todos aplaudiram. Ela bem que tentou ser discreta com o comentário que fez para seu comandante, o capitão Leonardo Nogueira, mas diversos olhares perseguiam a moça. Com o seu jeito calmo de falar, deu o alerta: “Bata palmas”. Nogueira nem piscou. Obedeceu.