Drogas
Os desafios para o tratamento do usuário de crack
É fácil tornar-se um dependente químico, mas é difícil fazer o caminho inverso, especialmente quando se depende do Sistema Único de Saúde
Grupo de usuários de drogas consomem crack em terreno na Rua Helvetia com a Alameda Barão de Piracicaba, no centro de São Paulo (Apu Gomes/Folhapress)
Especialistas que conhecem a fundo os efeitos do crack no organismo dizem que não basta uma tragada para que o usuário fique viciado, mas tornar-se um dependente químico é um processo rápido. Fazer o caminho contrário, contudo, é difícil. Estima-se que a taxa de sucesso dos tratamentos de desintoxicação gira em torno de 25% a 30%.
Ana Cecília Marques, coordenadora do departamento de dependência química da Associação Brasileira de Psiquiatria, explica que o tratamento anticrack é dividido em três fases: desintoxicação, diagnóstico dos fatores que levaram o indivíduo à dependência e controle dessa mesma dependência, que pode incluir uso de medicação. "Na última fase, o usuário precisa fazer essa manutenção, porque a dependência é uma doença crônica", diz. "Ele não vai ter alta: precisa fazer retornos periódicos. Além disso, é necessário avaliar seu processo de reinserção na sociedade."
O caminho para livrar-se da droga pode ser mais tortuoso se depender do Sistema Único de Saúde (SUS). "Infelizmente, no Brasil, não temos um tratamento público para a maior parte dos dependentes químicos", diz Ana Cecilia. Atualmente, para atender esses doentes, o governo federal mantém 8.800 vagas em hospitais psiquiátricos, 243 centros de atenção psicossocial álcool e drogas (Caps-AD), Núcleo de Saúde da Família e 35 Consultórios de Rua. É pouco se considerada a estimativa do Ministério da Saúde de 600.000 usuários somente de crack no país. A rede de saúde mental faz parte do SUS, que tem ações do âmbito federal, estados e municípios - é sempre este que responde pelo atendimento.
Em maio, o governo prometeu, por meio do Plano Integrado para Enfrentamento do Crack e outras drogas, repassar 140 milhões de reais aos municípios brasileiros para o tratamento dos dependentes. No pacote, está o financiamento de 6.120 leitos, que englobam vagas em hospitais gerais, nas comunidades terapêuticas (iniciativas do terceiro setor e de entidades religiosas), nos Caps AD 24 horas e em casas de acolhimento transitório. Os editais para tornar concretas as promessas foram publicados somente no fim de outubro. Ou seja, nada disso está de pé até o momento. Outra promessa: elevar, até o fim deste ano, de 35 para 70 o número de Consultórios de Rua, que levam equipes multiprofissionais até os locais onde estão os usuários. Outro objetivo do projeto é capacitar profissionais de saúde e de assistência social na prevenção e tratamento de usuários de crack e demais drogas - um ponto nevrálgico da questão, segundo Ronaldo Laranjeira, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp): "Capacitar essas equipes é um desafio", diz.
Promessas ambiciosas à parte, os especialistas criticam a qualidade do atual serviço de tratamento nos Caps: faltam médicos especializados, leitos e acompanhamento da evolução dos pacientes. No total, são 1.671 Caps no país, sendo 243 especializados em álcool e drogas. Um estudo publicado neste ano pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) revelou falhas importantes no funcionamento de todos as unidades: de 85 Caps avaliados, 69,4% apresentaram carência de profissionais e em dez deles, dedicados a álcool e drogas, havia um único psiquiatra disponível.
Simultaneamente às ações anunciadas pelo governo, a Secretaria Nacional Antidrogas realiza treze estudos clínicos, com um total de 1.200 pacientes, em parceria com seis universidades brasileiras. O objetivo é acompanhar os pacientes durante a jornada de busca por tratamento, reinserção social e diagnóstico de doenças mentais. "Esses estudos vão nos dar as direções em relação às melhores formas de abordar os pacientes", explica Paulina Duarte, secretária adjunta da Senad e responsável técnica pelo estudo.
As autoridades de saúde terão de responder à urgência do tema e também à demanda crescente por tratamentos. Segundo dados preliminares de um levantamento realizado pelo grupo de pesquisa de Ana Cecília, cresce a procura de usuários de crack por terapias de desintoxicação. A pesquisa acompanha anualmente um grupo de dependentes químicos: há dois anos, o percentual dos viciados em crack que procuravam a ajuda era de 30%; este ano, essa parcela saltou para 70%.
Leia mais:
Crack avança na classe média e entra na agenda política
O poder de destruição do crack e seu efeito no organismo
Depoimentos de usuários de classe média que tentam largar a droga


Comentários
Manoel Claudio
A droga entrou p valer e a policia, idem na cracolandia. Unica coisa que eu nao concordo foi a seguinte: deveriam criar uma barreira fisica e prender os drogado la dentro oferecendo tratamento - so saia de la quem realmente estivesse a fim de largar o vicio
31.01.2012
rita
eu preciso se eles conseguem largar esse vicio sozinho, ou precisam de um tratamento em clinica? se precisar se enternar ,como fica as pessoas q não tem condições financeira? o governo precisa entrar urgente nesta luta com as familias q mais nescesita.
28.01.2012
bento
Fumar crack é nocivo, quem faz isso deveria rever suas prioridades.
23.01.2012
alexandre
Conheci um usário de crack que era de uma família de classe média alta. Ele era formado em bioquímica e teve todos os recursos para uma boa vida, entretanto preferiu o vício. Ele morava na rua, quase não se alimentava, andava semi-nu e para ganhar dinheiro trabalhava como guardador de carros. Conseguia uma quantia considerá(..)
23.01.2012
| Ler Mais
Anonimo
Isso tudo é culpa do estado. Vamos acabar com isso. Vamos derrubar o estado e viver de acordo com nossas leis naturais!!!!
10.10.2011
dolores
onde desintoxicar intenar em s.p prec urgente org publibco q faz
10.10.2011
Daniel
Parabens a revista pela materia É fácil tornar-se um dependente químico, mas é difícil fazer o caminho inverso, especialmente quando se depende do Sistema Único de Saúde.muito oportuna a materia.
11.09.2011
Daniel
Parabens a Revista Veja pela Materia em hora muito oprtuna, vamos ver se o poder publico realmente investe em tratamento de verdade. senao essa maldiçao vai acabar com muitos Brasileiros que poderia tar trabalhando e produzindo.
10.09.2011
Thalita Mayara Silva Dos Santos
Alguem sabe me dizer se pode ser VOLUNTARIO nessas clinicas para os dependentes químicos?
31.08.2011
Elaine
O crack é destruídor, é necessário que as autoridades realmente queiram fazer investimentos na saúde, e ajudar essas pessoas que estas pessoas que estão doentes e que normalmente começam consumindo maconha, e tb compreender que o tratamento é longo e que necessariamente não precisa ser administrado por medicamentos e sim a p(..)
27.08.2011
| Ler Mais
Carregando...