Educação
Entrevista: Gustavo Ioschpe
'Sobram exames, falta política educacional'
Para especialista em educação, a implementação do Exame Nacional de Ingresso na Carreira de Docente é positiva, mas limitada.
Gustavo Ioschpe
Há avaliações demais e políticas de educação de menos no Brasil. A opinião é do economista e especialista em educação Gustavo Ioschpe. Ele afirma que o Exame Nacional de Ingresso na Carreira de Docente, anunciado na semana passada pelo governo federal, não deverá alterar a realidade do ensino no país. Para promover melhorias no setor sem a necessidade de criação de mais um mecanismo de avaliação, o especialista recomenda uma receita curiosa: "Feijão com arroz", ou seja, a adoção de medidas básicas. "Elas provocam impactos significativos no aprendizado", garante. Confira a seguir a entrevista que Ioschpe concedeu a VEJA.com.
Como o senhor julga a iniciativa do Ministério de Educação de instituir um exame para selecionar professores?
Vejo a medida como positiva. É sempre bom dispor de mecanismos acurados de avaliação. Mas o problema da educação brasileira não é a falta de avaliação. Até acho que ela é uma das mais bem avaliadas do mundo e dispõe de muitos instrumentos para isso. As provas aqui são bem realizadas, temos uma competência e uma sofisticação grande na elaboração de provas. O problema é que os resultados dessas avaliações não se traduzem na mudança de políticas públicas e em práticas de sala de aula, o que faz com que não haja melhora efetiva.
Quais as fragilidades desse novo exame?
Uma delas é que a prova é opcional. Fica a cargo dos estados e municípios decidir aplicá-la ou não, o que por si só já é um fator limitador. Mais delicado, porém, é o fato de que, da maneira que foi criada, não mexe na formação dos professores. Imagino que, se aqueles que aplicarem a prova forem muito exigentes, um grande número de professores não conseguirá atingir o patamar desejado. Em algum momento, será necessário reduzir o grau de exigência e assim nada tende a mudar.
Qual seria a saída?
Se essa fosse uma prova aplicada ao fim do curso de graduação, exigindo-se também uma performance mínima do candidato para a obtenção do diploma, teríamos impactos mais relevantes, porque os cursos de formação seriam obrigados a se modificar. Do jeito que as coisas foram colocadas pelo governo, provavelmente os cursos de formação vão continuar a funcionar da mesma maneira. O exame é um passo positivo, mas será mais um mecanismo a acender a luz vermelha, mostrando que os professores não estão tão bem preparados.
É possível identificar, por meio de uma prova, um bom professor?
Nenhuma prova é 100% eficaz, mas é um instrumento positivo. Até hoje, a literatura científica sobre educação ainda não identificou as variáveis que compõem um bom professor. Ainda não conseguimos identificar e isolar de uma maneira quantitativamente rigorosa do que é feito um bom professor. Conhecemos algumas variáveis relevantes, como conhecimento da matéria, formação, práticas de sala de aula: algumas delas são perceptíveis em uma prova, outras, não.
O senhor costuma afirmar que países que deram saltos educacionais o fizeram porque adotaram medidas básicas de aprimoramento, que o senhor chama de "feijão com arroz". Como deve ser preparada a receita brasileira?
Devemos formar bons professores, formar melhor os gestores das escolas e adotar práticas de sala aula cuja eficiência seja comprovada. O que são essas práticas? Usar mais o livro didático e o dever de casa, parar de inventar currículo, parar de fazer com que cada professor seja um pesquisador e invente a própria roda, fazer com que o tempo da sala de aula seja aproveitado de maneira mais eficiente e não usá-lo apenas para colocar matéria no quadro negro, avaliar mais constantemente o desempenho dos alunos, manter bibliotecas nas escolas e nas salas de aula. São medidas básicas, que provocam impacto significativo no aprendizado.









Comentários
Adriano Ribeiro
Ao se referir aos impactos da globalização nas políticas públicas em educação, devemos salientar que de fato pode-se afirmar que no terreno das políticas sociais públicas, configura-se uma proposta “reformista”, porém, sob o impacto da globalização econômica as políticas sociais passam para um segundo plano, uma vez que a ên(..)
04.12.2010
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profa Lidia
Muito interessante o artigo! Mas como motivar os bons professores? Por acaso alguem pensa em pagar um curso de licenciatura para entrar na sala de aula para ser humilhado, desrespeitado pelos alunos? Esta e a realidade escolas. O que precisa: melhorar a auto-estima dos professores! Selecionando os melhores, mais dedicados e(..)
17.07.2010
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Sergio
No final da década de noventa houve um crescimento enorme na entrada de alunos no ensino médio, quando se deu o fato da universalização do acesso a todos os meninos e meninas entre 14 e 17 anos de idade. Esperava-se, no entanto, que nos últimos dez anos alguma medida fosse realizada para melhorar a qualidade do ensino, pois (..)
17.07.2010
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Gonçalo
Sempre que posso leio os artigos de Gustavo Ioschpe. Concordo com alguns e com outros não. Mas tenho uma dúvida, ele foi ou é professor? Qual e por quanto tempo, foi ou é, sua prática em sala de aula?
17.07.2010
Carlos Magno
E o pior é que as Universidades Públicas gastam mal os imensos recursos que recebem. Assimilaram tudo que o serviço público tem de pior. São reféns de sindicatos de funcionários e professores que organizam greves, depredam o patrimônio público e ainda recebem salário durante as paralizações.
17.07.2010
Bira
Só o resultado do atual concurso já filtrou o joio do trigo. Em matemática, 928 aprovados em 30000!. Em matemática, por exemplo, voce trabalha das 7 as 12:20 h e corre para outra escola para entrar as 13 h. Enfrenta o ensino médio pela manhã e o fundamental a tarde, grupos distintos, familias distintas, tudo dentro de um cal(..)
27.06.2010
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