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No set com Tom Cruise

Diretor de fotografia de ‘Cidade de Deus’, César Charlone trabalhou com o ator em ‘Feito na América’

César Charlone é uruguaio de nascimento, mas, como está radicado no Brasil há muito tempo, pode ser chamado de brasileiro. Diretor de fotografia de filmes importantes como O Homem da Capa Preta (1986) e Feliz Ano Velho (1987), baseado no livro de mesmo nome de Marcelo Rubens Paiva, ele ficou famoso mesmo foi por sua parceria com Fernando Meirelles a partir de Cidade de Deus (2002). Em Feito na América, de Doug Liman, em cartaz agora no país, foi responsável por seguir um dos maiores astros do cinema, Tom Cruise, com sua câmera – inclusive em apertadas cabines de avião, pilotado pelo próprio ator.

No longa baseado em uma história real, Cruise é Barry Seal, um piloto comercial contatado pela CIA para fotografar pistas de pouso e campos de treinamento de guerrilhas esquerdistas na América Central nos anos 1970 e 1980. Aproveitando as viagens, Seal acaba trabalhando também para o Cartel de Medellín liderado por Pablo Escobar e para o departamento de combate às drogas (DEA).

Durante as filmagens, o diretor de fotografia aprendeu a admirar Tom Cruise, que é do tipo Caxias: o primeiro a chegar e último a sair. E ainda foi convidado para a festinha de aniversário do ator. Leia a entrevista de Charlone a VEJA:

 

Quanto você sabia sobre essa história? Do Barry Seal, eu não sabia nada. Não tinha a menor ideia. Claro que sabia do Cartel de Medellín. Mas como naturalmente você tenta se inteirar quando entra em um projeto, pesquisei na internet e logo vi que a HBO tinha feito um filme sobre ele com o Dennis Hopper, muito tempo atrás. Li o que tinha. É um personagem muito fascinante, muito louco.

Cidade de Deus teve a ver com sua escalação neste filme, não? Acha que existem semelhanças estilísticas entre os dois? Totalmente. Cidade de Deus mudou a vida de muita gente. Fui chamado para várias coisas. Recusei a maioria porque tinha coisas aqui no Brasil e preferia projetos que tivessem a ver com a América Latina. Eu topei este porque tinha a ver com a região. Quanto ao estilo, acho que o Doug (Liman) viu que Cidade de Deus tinha tensão, um pouco de thriller. É um filme de ação. O estilo de Cidade de Deus veio de uma conversa que tive com o Fernando Meirelles logo no início de que, pelo jeito como ele queria trabalhar com os atores, a melhor maneira era fazer uma aproximação no estilo documentário, sem planos marcados, seguindo o elenco e não com o elenco disposto em função da câmera. Foi essa a proposta que fiz ao Doug.

Mas como foi para o Tom Cruise trabalhar neste esquema? Ele adorou! Principalmente nos aviões que ele mesmo pilotava.

Diretor César Charlone nos bastidores do filme Feito na América

Diretor César Charlone nos bastidores do filme ‘Feito na América’ (A. Jason Roberts/Divulgação)

E como é trabalhar com ele? Foi maravilhoso. Ele é um super parceiro, um super ator, um super profissional. Um super conhecedor de cinema. Aprendi horrores com ele. E uma coisa sobre a qual eu acabei refletindo quando estava trabalhando com ele é que fatura mais do que muita empresa. Ele é como se fosse uma empresa. O Tom Cruise é uma unanimidade no mundo inteiro. E cuida disso. No set, é o primeiro a chegar e o último a sair. Repete a cena quantas vezes for preciso. Ele vê pela cara do assistente de câmera que o foco não ficou muito bom e se oferece para fazer de novo. Enquanto aqui no Brasil já vi muito ator se irritar por ter de repetir. Ou não querer contracenar com o outro ator em uma cena em que o foco não está nele. Ele, não. Um dia, fez questão de ficar até as 2 da manhã para contracenar com outro ator em uma cena de um telefonema. Aprendi a admirar o profissionalismo, a seriedade. Ele é exigente com a equipe porque quer trabalhar, quer filmar.

Mas qual a dinâmica de filmar com ele? Uma vez eu caí na besteira de falar que tinha uma cena fácil em um aeroporto, que precisava só do Tom Cruise, do diretor e eu. O produtor deu risada e falou: “Você esquece que o Tom Cruise são 11 pessoas, né?” Ele tem segurança, porque é muito assediado. Tem nutricionista sempre com ele – o cara deve ter perto da minha idade (Charlone tem 59, e Cruise, 55) e parece 20 anos mais jovem do que eu (risos). Ele se cuida muito. Na base de produção, cada ator tem um trailer. Ele tem dois. O preto é a casa dele, onde descansa, se troca, tem cinema. O outro é uma academia. Porque ele malha muito para se cuidar. Isso não é frescura, é ele cuidando dessa “empresa”. Ele participa em tudo, dá opinião em tudo. Mesmo que ele não produza, quando forem falar do filme, vão dizer que é o filme “do Tom Cruise”. Ele tem consciência disso e cuida para que seja o melhor filme possível. O cara é fera, ídolo total. Ficamos amigos.

Diretor César Charlone e assistência, nos bastidores do filme Feito na América

Diretor César Charlone e assistência, nos bastidores do filme Feito na América (A. Jason Roberts/Divulgação)

Conviveu com ele fora do set? Em julho, minha filha estava lá e foi aniversário dele. Teve uma festinha simples com bolo e champanhe. Ele nos convidou para ir a uma sessão particular no cinema. É super respeitoso, interessado. A gente passou um tempão sem se ver e, quando nos reencontramos, ele perguntou se minha filha, que tem interesse em alpinismo, tinha ido à montanha que ele recomendou. Super parceiraço. Sou tiete total.

Como foi filmar no avião? Foi muito legal. Meu primeiro contato com o Tom Cruise foi num aeroporto em Atlanta. Saímos logo para testar o avião. Daí em diante, foram muitas tomadas dentro do avião. Em algumas, só fui saber do risco depois, quando eles comentaram, porque não sou especialista. Você sabe que a gente teve um acidente grave em que morreram duas pessoas, dois pilotos super especialistas em cenas perigosas de avião. E não foi na filmagem, foi quando eles estavam voltando para casa, em Medellín, um voo de 17 minutos. Foi uma tragédia. Muito doloroso.

Tom Cruise e Domhall Gleesom, em cena do filme ‘Feito na América’ (Divulgação/Universal/Divulgação)

Tom Cruise e Sarah Wright, durante cenas do filme Feito na América

Tom Cruise e Sarah Wright, em cena do filme ‘Feito na América’ (Foto/Divulgação)

O Doug Liman disse que você trouxe uma perspectiva sul-americana para o filme. No que acha que contribuiu? Como eu estava falando, eu peguei o filme porque me interessava. Eu recusei muitos projetos nos Estados Unidos porque não me identificava com o assunto. Porque, quando você entra num projeto como diretor de fotografia, é uma dedicação grande, e você tem de se identificar com o assunto, ou ele tem de te motivar, pelo menos. Quando vi que o filme tinha esta temática de que gosto, de falar do nosso continente, da nossa realidade, para um grande público, fui fazer. Eu funcionava um pouco como um assessor, até ajudei na escolha da produtora que nos sediou na Colômbia. E estava o tempo todo com o Doug Liman, dizendo que isso era assim ou assado, que tal coisa as pessoas não entendiam, pelo nosso ponto de vista. No roteiro, eles terminaram achando algumas coisas racistas, quando eu apontava. Diziam: “Não queremos ser racistas”. Para mim, era mais colonialista, mas eles usavam essa palavra. Por exemplo, quando Barry Seal encontra o Cartel de Medellín, no roteiro eram três camponeses meio humildes, com chapéu de palha. Quando na verdade o Cartel de Medellín eram três feras dos negócios. O Ochoa era um aristocrata, seu pai era fazendeiro. Isso demonstrava um desconhecimento deles da nossa realidade latino-americana. Mas o filme brinca com isso, tem uma hora até que mostra o país errado da América Central no mapa.

Diretor César Charlone e assistência, nos bastidores do filme Feito na América

Diretor César Charlone e assistência, nos bastidores do filme Feito na América (A. Jason Roberts/Divulgação)