Petista que preside agência federal transforma audiência em ato político

Em audiência convocada pelo PT, presidente da Agência Nacional de Águas disse que o uso da 2ª cota do volume morto do Cantareira é 'pré-tragédia'

Na mesma semana em que a campanha da presidente-candidata Dilma Rousseff (PT) resolveu explorar à exaustão a crise de água em São Paulo para atingir Aécio Neves (PSDB), a bancada do PT na Assembleia Legislativa montou um ato político para o presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), o sindicalista e petista Vicente Andreu Guillo, atacar o governo paulista.

O presidente da ANA classificou o uso da segundo cota do volume morto do reservatório do Cantareira como uma “pré-tragédia”. Ele também ironizou a possibilidade de a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) usar a terceira reserva profunda do manancial. Segundo ele, se não chover nos próximos meses, a companhia precisará recorrer ao “lodo” do reservatório para captar água. “Eu acredito que tecnicamente será inviável. Do ponto de vista ambiental, essa água terá problema. Se a crise se acentuar é bom que a população saiba que não haverá alternativa a não ser ir no lodo”.

Sem a presença de parlamentares aliados do governo – a audncia foi convocada pelo deputado estadual João Paulo Rillo -, o festival de ataques continuou: “Os reservatórios existentes atualmente são pequenos para garantir o abastecimento em São Paulo. Só não faltou água anteriormente porque foram anos de chuva, mas sempre houve esse risco de escassez”.

Simultaneamente, em evento de campanha em Pernambuco, a presidente-candidata Dilma Rousseff (PT) citava a crise hídrica para atacar o PSDB. “O Estado mais rico do Brasil, o Estado de São Paulo não se preparou para a seca. Vocês do Nordeste se prepararam. Hoje, diante da maior seca nós temos condições de viver aqui em vez de ficar catando pingo d’água por aí”, disse a presidente, acompanhada Lula, que abandonou o papel de ex-presidente para capitanear a baixaria na reta final da eleição.

Em nota, o governo de São Paulo afirmou que o objetivo das declarações do presidente da agência foi “disseminar o pânico em São Paulo”. “É lamentável que o presidente de um órgão federal, financiado com o dinheiro do contribuinte, venha disseminar pânico em São Paulo. E pior: em horário de trabalho, participando de um evento patrocinado por um partido em plena campanha eleitoral. Em vez de solidarizar-se com o esforço do povo de São Paulo, o dirigente da agência tenta tirar proveito político de uma crise que se enfrenta com critérios técnicos e a união de todos. São Paulo enfrenta com união, planejamento e obras a maior seca já registrada na região Sudeste do país”, informa a nota, assinada por Saulo de Castro Abreu Filho, secretário-chefe da Casa Civil do governo de São Paulo.

Em evento de campanha nesta terça-feira, o candidato Aécio Neves disse que o aparelhamento da agência federal dificultou o combate ao problema de desabastecimento. “A Agência Nacional de Águas, se não tivesse no governo do PT servido a outros fins – nos lembramos bem quais foram os critérios para ocupar cargos de diretoria na ANA -, poderia ter sido uma parceria maior do governador”, disse o tucano após ser questionado pelo uso da seca pela campanha petista, em Caeté, em Minas Gerais.

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Filiação – Guillo foi nomeado ao cargo de chefia na agência reguladora pelo ex-presidente Lula em 2009. Ele é filiado ao PT desde 2001, quando foi nomeado presidente da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa) de Campinas, no interior de São Paulo. Antes, ele era diretor do Sindicato dos Eletricitários de Campinas, uma das tantas entidades ligadas à CUT, entre 1987 e 1995. Antes de ir para Brasília, Guillo foi secretário de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente de Campinas na gestão do ex-prefeito Hélio de Oliveira Santos (PDT), que sofreu um processo de impeachment após o Ministério Público descobrir um esquema de corrupção envolvendo vários secretários municipais – na ocasião, ele não foi acusado de nenhuma irregularidade.