Presidenta x presidente: a língua também pode ser política

“Estou com uma dúvida sobre a palavra ‘presidente’. Na campanha eleitoral, o presidente Lula se referiu a Dilma como a próxima ‘presidenta’. Eu queria saber se está certo o feminino de presidente: presidenta.” (Karla Emerich)

Como em tantas questões de língua que vêm parar aqui, convém abandonar logo de saída as noções estreitas de certo e errado. Não está errado usar “presidenta” como feminino de presidente, assim como não está errado tomar presidente como palavra de dois gêneros, invariável. Esta é a forma dominante, aquela uma variação emergente – que, no entanto, já foi reconhecida por nossos principais dicionários.

Esquecida a ideia primária de erro, a discussão fica bem mais interessante. A lógica desse tipo de embate na língua costuma ser muito mais política do que técnica.

Os argumentos a favor de presidente como substantivo e adjetivo de dois gêneros costumam se concentrar em duas frentes, ambas fortes. A primeira é a tradição dos bons autores, que sempre se inclinaram maciçamente por essa forma. A segunda é etimológica: vinda do latim praesidentis, particípio presente do verbo praesidere (tomar assento à frente), a palavra seria invariável desde a origem. Se são indiscutivelmente invariáveis até hoje termos como assistente e dependente, de formação semelhante, e a ninguém ocorre dizer que tem uma assistenta ou uma dependenta, por que precisaríamos da palavra “presidenta”?

Do lado oposto, porém, os argumentos também são consideráveis. Descobrimos que os tais bons autores podem ser invocados com sinal trocado. Parente, por exemplo, também é um termo unissex, mas isso não impediu a palavra “parenta” de ter amplo uso desde a infância do português, inclusive na obra de Machado de Assis (encontramos certas “qualidades de senhora e de parenta” em “Memorial de Aires”, por exemplo). Etimologia, afinal, nunca foi uma camisa-de-força que constrangesse as mudanças da língua. E se, como diz o jornalista Marcos de Castro em seu curioso livro “A imprensa e o caos na ortografia”, de 1998, falar em “a presidente” for “machismo puro, vigente na velha gramática como em tudo no passado”? Em outros termos: só não se usava “presidenta” porque a sociedade não admitia que uma mulher presidisse coisa alguma.

No fim das contas, cabe ao falante julgar os méritos de cada palavra e fazer sua escolha – exatamente como na política. Ou fazer sua escolha de forma inconsciente, de orelhada – o que também ocorre com frequência, infelizmente, na política.

E para não dizerem que fiquei em cima do muro: no meu dicionário pessoal, presidente é uma palavra de dois gêneros. Acho que tem sonoridade melhor, além de evitar um possível surto politicamente correto que acabe por povoar o mundo de (argh!) gerentas, atendentas e adolescentas. Se o Brasil terá ano que vem um presidente ou uma presidente, só pretendo mudar o artigo.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br
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  1. Comentado por:

    angélica beserra

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…… num tem nada a ver com machismo….kkkkkkkkkkk…. é gramática pura….. substantivos comum de dois, onde a diferenciação se faz pelo artigo definido, este, o artigo, é que, por definir o gênero, se feminimo ou masculino, é que é declinável, nunca o substantivo. Se assim for, a palavra presidente não pode ser considerado na gramática como substantivo comum de dois, mas sim, substantivo biforme, aquele que tem forma masculina e feminina com apenas um radical…… kkkkkkkk partir pro campo do ultraje feminista foi o Ó…..kkkkkk

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  2. Comentado por:

    Jorge Nobre

    da ate raiva ler que alguem com a experiencia que o articulista demonstra defenter tamanha asneira.
    so porque uma “dementa” decide que a partir de agora muda-se a lingua portuguesa para se adaptar a sua posicao.
    as linguas tem que ser dinamicas mas nao maleaveis as pretendentas ao “trono” da “burrica”
    nao existe estudanta nem amanta nem comercianta.
    as diarreias verbais deveriam ser contidas mesmo que sejam duma presidANTA
    Leia de novo, Jorge, acho que você não entendeu direito.

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  3. Comentado por:

    Dominguita Lühers Graça

    Para conhecimento de pessoas que não tem o hábito de usar um livro tão interessante como o dicionário, minha versão do Aurelião de 1986, a palvra presidenta significa “mulher que preside”. Esta mensagem visa uma vasta periferia de pseudoconhecedores do vernáculo.

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  4. Comentado por:

    Marcos Carvalho

    Francamente penso o seguinte: Dizer “A PRESIDENTE” está correto certo? Ótimo continuarei usando desta forma, no dia em que disserem que está errado, passo a falar inglês. Pelo menos nesta lingua respeitam o invariavel.

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  5. Comentado por:

    rosa

    Não se esqueça que se “presidente” for machismo, o será também termos “governanta”. É comum utilizar “governante” para “chefe” de nação. Parece-me nenhuma mulher gostaria de ser “governanta” de uma nação!

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  6. Comentado por:

    Ronaldo

    Presidenta é crachá linguistico da corja que puxa o saco da ocupante atual da cadeira. É a maneira mais rápida e fácil de identificar os dementes e aduladores.

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  7. Comentado por:

    João

    É um absurdo ficarem discutindo isso. Quem é que aprendeu na escola infantil que presidente é uma variável? Agora que uma mulher assume uma presidência ficam todos querendo discutir essa questão. Essa forma incomoda os ouvidos, não dá para digerir.

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  8. Comentado por:

    João

    Queria ver se ela tivesse ganhado para governador de algum estado se usaria o termo de governanta.

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