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Missa via satélite e ‘aeróbica do Senhor’: a escalada do padre Marcelo Rossi

Em 1998, ao ascender ao posto de sacerdote mais popular do país, Rossi estampou reportagem de capa de VEJA

Capa de VEJA de 4 de novembro de 1998

Capa de VEJA de 4 de novembro de 1998. Clique para ler a reportagem (Reprodução/VEJA)

VEJA desta semana mostra a recuperação do padre Marcelo Rossi, depois de uma temporada severa mergulhado na depressão e na anorexia. O retorno foi catapultado com sua entrada nas redes sociais. No próximo mês ele começa a gravar um CD e um DVD e um novo livro será lançado em 2018. “Voltei para o ataque”, diz à reportagem. Em 1998, quando ascendeu ao posto de mais popular sacerdote do país, Rossi estampou a capa de VEJA – em pleno ataque.

A reportagem de 4 de novembro daquele ano mostrava como Rossi, principal figura do movimento católico Renovação Carismática, se tornara uma celebridade no rádio e na TV. “Os fatores que levaram à escalada de Marcelo Rossi são tão simples de explicar quanto difíceis de ser reunidos numa só pessoa. Ele é bonito, alto, forte, olhos azuis. Canta bem. É alegre. Fala em nome de uma fé que 83% dos brasileiros designam como sua — a católica. Tem uma habilidade incrível para aplicar a pregação pastoral a temas muito próximos de milhões de brasileiros que ligam a TV todos os dias”, observava a reportagem.

Rossi tinha então apenas 31 anos e havia sido ordenado padre havia apenas quatro. “Antes de aderir à batina, tinha uma vida comum”, contava VEJA. “Foi criado em Santana, um bairro tradicional de classe média na Zona Norte de São Paulo, e nunca teve hábitos sofisticados. Seu prato predileto é uma boa pizza. Quando adolescente, gostava de ouvir as músicas de Chico Buarque, Legião Urbana e Oswaldo Montenegro. Ainda hoje seu filme preferido é um de pancadaria pesada — Operação Dragão, estrelado pelo astro do caratê Bruce Lee. Antes de entrar para o seminário teve duas namoradas e algumas aventuras. Fez sexo com algumas garotas”. À reportagem, Rossi resumia: “Eu era um garoto comum. E ponto final”.

Rossi descobriu a inspiração para se tornar padre ao ver um programa – e revê-lo onze vezes – sobre a vida de João Paulo II:

O fato de ter descoberto a vocação em uma minissérie de TV mostra bem: está-se diante de um padre de tipo novo. Para o padre Marcelo é difícil entender as coisas de que falam os adeptos da Teologia da Libertação. Fidel Castro, o ditador cubano, para ele é apenas um ditador. Nada soa mais bizarro para o jovem padre Marcelo do que a cantilena revolucionária dos padres de passeata, que exaltavam a luta de classes como forma de trazer a justiça divina à terra. O padre que hipnotiza as multidões é um protótipo dos sacerdotes que a Igreja espera formar para o próximo milênio. Quando entrou no seminário, em 1991, o Muro de Berlim já desabara, João Paulo II já imprimira sua marca pessoal no comando da Igreja e os defensores da Teologia da Libertação já haviam sido quase silenciados. Marcelo Rossi pôde ver a encruzilhada em que o catolicismo se metera. Durante três dos quatro anos em que cursou a Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, dedicou-se a um trabalho missionário na favela do Buraco Quente, perto do seminário. Aos poucos, foi percebendo que a intervenção social da Igreja na manutenção de uma grande creche era exemplar, mas os católicos que moravam no bairro careciam de amparo espiritual. Como não tinham, iam até a igreja evangélica mais próxima. “Eu comecei a fazer celebrações da palavra dentro da creche e os fiéis adoraram. Desde então não tive dúvidas de que deve haver um equilíbrio entre o trabalho social e o espiritual. A Igreja estava voltada demais para os problemas sociais.” Mas, como Marcelo Rossi é do tipo que prefere fazer a criticar, nos quatro anos que se passaram desde sua ordenação dedicou-se a corrigir o que julgava errado. Ele não se cansa de repetir que quer trazer os católicos de volta à Igreja. Criou até uma campanha inusitada. Os fiéis devem colar adesivos em seus carros com a inscrição “Eu sou feliz por ser católico!” Sempre que avistarem um outro automóvel com o distintivo, devem dar um pequeno toque na buzina e rezar uma oração em benefício do companheiro de trânsito.

Sempre atenta a estrelas ascendentes, a TV não custou a descobrir o potencial de Rossi para turbinar o ibope. O Domingão do Faustão saiu na frente: transmitiu o final de uma missa assistida por 40.000 pessoas. “Nunca se viu coisa igual. A missa, em São Paulo, era regida, via satélite, por Faustão, que estava nos estúdios da Globo no Rio de Janeiro. Fausto Silva mandava parar a missa, entrevistava o padre e, depois, como num show, ordenava um novo número musical”, dizia a reportagem.

Do ponto de vista formal, a missa de Marcelo Rossi, que, ontem como hoje, atrai multidões, é impecável. “A liturgia segue à risca as determinações do Concílio Vaticano II. Ritos iniciais, liturgia da palavra, liturgia eucarística, comunhão e ritos finais. Está tudo lá, pronto para passar pelo crivo do católico mais ferrenho. Mas quando o padre Rossi irrompe no palco, quer dizer, no altar, sob aplausos e assobios da platéia, não é difícil perceber que se está diante de um evento diferente. Cada celebração é um megaespetáculo”, relatava VEJA. “Acompanhado pelos músicos da banda Ministério de Libertação, o padre engata uma música atrás da outra. Vai para a frente do altar, rodeado por seis coroinhas, e começa o que chama de ‘aeróbica do Senhor’. São coreografias que lembram o filme Mudança de Hábito, em que um grupo de freiras agita multidões com gingados moderninhos. O padre balança os braços, levanta as pernas, dá voltas e pulinhos. Os fiéis saem da missa como espectadores de um concerto de rock.”

Clique aqui para ler a reportagem na íntegra no Acervo Digital de VEJA:

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