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teoria política

15/12/2010

às 18:50

Lula, o “papai Noel dos gays”

renasPor Larissa Guimarães, na Folha Online. Comento em  seguida:
Em encontro com os movimentos sociais nesta quarta-feira, o presidente Lula foi chamado de “Papai Noel dos gays”.

Ao discursar durante o evento, o presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Toni Reis, lembrou que nesta semana o governo decidiu que casais gays, em união estável, podem declarar o Imposto de Renda juntos.

Também nesta semana, o governo decidiu criar um conselho nacional voltado ao movimento gay com a função de combater a homofobia e promover os direitos dessa comunidade.

“O Lula é muito gente boa. Tem até a barba branca, é o Papai Noel dos gays”, afirmou, arrancando gargalhadas da plateia, composta por lideranças do movimento social.

O presidente da ABGLT, no entanto, lembrou que tem crescido manifestações homofóbicas no país, como os recentes ataques a homossexuais na avenida Paulista. Ele reclamou também da atuação do Legislativo. “O Executivo bancou muitas coisas, mas o Legislativo está em falta com a gente”, criticou.

Ao fim do discurso, Reis entregou a Lula uma bandeira com as cores do arco-íris, do movimento gay.Comento
Eu, hein… A imagem do tal Toni Reis permitiria um verdadeiro ensaio psicanalítico. Disse-me certa feita um amigo gay que Lula se enquadra numa das categorias — não sei se a palavra é essa — em que se dividem os homossexuais quanto a seus respectivos objetos de desejo ou fantasia. Ele seria o típico “urso”: barbudo, paternal, protetor, poderoso,  mandão, essas coisas… É possível que essa perspectiva estivesse no substrato, como chamar?, emocional do evento de hoje.

A imagem de Reis é eloqüente o bastante para permitir alguma especulação. Ela certamente deixa apaziguados os impulsos mais primitivos, íntimos mesmo, de Lula. Não se esqueçam de que, mais de uma vez, ele já se apresentou como “pai” do povo — a fantasia do “Papai Noel” é só para a época natalina.

Seus comandados — todos os brasileiros! — se dividiriam entre as meninas bem-comportadas e os rapazes emasculados, que se apaixonaram pelo pai em vez de matá-lo… Tudo no mundo dos símbolos, leitor!

Essa história é tão antiga! Saturno (Cronus) se associou à sua mãe para cortar os testículos de seu pai, Urano, destronando-o e dando, na prática, origem ao mundo. Nascia ali o tempo, a história. No poder, Saturno não queria ser destronado por um filho mais poderoso do que ele e, então, engolia as próprias crias. Até que foi vítima do ardil de Réia (sempre as mulheres!!!), que lhe deu uma pedra para engolir, preservando Zeus, um dos filhos de ambos, que destronaria o pai…

A vida é cheia desses “golpes psicanalíticos”, entendem? Um país que não “mata” seu pai não nasce verdadeiramente para a história. Vai ficando ali, no limo dos tempos…

Ho, ho, ho…

Por Reinaldo Azevedo

19/11/2010

às 15:38

O futuro de Serra e o que dizem os arcanos

A Folha convocou um numerólogo/tarólogo, uma especialista na leitura de borra de café, um babalorixá, uma astróloga e um cientista político (aqui) para tentar desvendar o futuro do tucano José Serra. Como se sabe, todas essas especialidades podem ser definidas como “artes adivinhatórias” e têm os seus arcanos, só revelados aos iniciados. Além dos signos com os quais cada um deles lida, há a interpretação — que requer, como querem esses adivinhadores, sensibilidade.

As opiniões se dividem, mas não muito. A astróloga acha que a bola está com Aécio Neves. O cientista político não diz isso, mas tem um argumento científico imbatível, incontestável por qualquer ciência: “política tem fila” — uma fila que, parece, vem lá da caverna de Platão. O tarólogo, o babalorixá e a especialista em borra vêem Serra disputando de novo a Presidência da República.

O que eu acho? Bem, eu não pratico artes adivinhatórias. Acho que quem sai de uma eleição com as características que teve esta de 2010 com 44 milhões de votos pode reivindicar, gozando dos direitos partidários, o que bem entender desde que tenha condições objetivas para tanto. “Política tem fila”? Tem se aquele que a metafísica influente diz estar em primeiro lugar exibe condições de ganhar a eleição. E, obviamente, ter as condições não quer dizer alcançar o objetivo. O arcano das urnas é o eleitor.

O que não é aceitável — e quem entrar nessa vai quebrar a cara — é cobrar o suicídio político de quem teve 44 milhões de votos. É uma perspectiva boçal. A tese de que “Serra tem de sair para que o partido se renove” é uma tolice sem par. Não é ciência política, mas expressão de uma escolha e de um desejo. O adivinhador Alberto Carlos de Almeida,  “cientista político”, que previa a vitória de Dilma no primeiro turno com uns 15 pontos de diferença (era o que lhe diziam as cartas de Marcos Coimbra), escreveu dia desses um artigo em que cravou a seguinte delicadeza (vai com a sintaxe dele):
“Vão se os nomes, ficam as instituições. Vão se os derrotados, ficam os vencedores. Em algum momento o PSDB derrotará o PT. Para tornar isso mais tangível, para antecipar no tempo esse desfecho, seria fundamental que o PSDB fizesse a mais profunda possível renovação em sua direção partidária, uma renovação que eliminasse todos os serristas e desse a direção do partido a políticos jovens alinhados com Aécio Neves e Beto Richa.”

Almeida consultou a borra de sua “ciência” e descobriu no fundo da xícara o “Pogrom libertador”. Ele quer “eliminar” Serra e os serristas. Só assim ele acha que o PSDB terá futuro. Para que o pensamento desse gigante prospere, é preciso sair eliminando pessoas da vida pública. Essa é a qualidade do debate.

Bem, não será assim. É bom civilizar esse debate. Como se nota, o “Paradigma Almeida” não é exatamente composto de argumentos. Ele prefere quebrar uma lâmpada na cara daqueles a quem quer vencer. É seu jeito de caminhar na rua do pensamento.

Por Reinaldo Azevedo

17/10/2010

às 7:57

A voz do derrotado

O segundo turno na eleição presidencial de 2010 não derrotou apenas as pretensões megalomaníacas do PT e os arroubos cesaristas de Luiz Inácio Lula da Silva. Também dizimou a reputação de boa parte do colunismo político. Os inocentes se quedaram reféns dos institutos de pesquisa e escreveram bobagens às pencas. Uma hora me dá na veneta, e vou relembrar o que andaram pontificando alguns valentões e valentinhos. Os nem tão inocentes assim usavam os números para endossar preconceitos que precediam qualquer pesquisa. Como a história só é velha porque feita de fatos novos, as pitonisas do oficialismo quebraram a cara. Como a realidade estourou pela culatra, nas suas fuças, então decidem ser juízes do fato histórico, separando o virtuoso do que lhes parece vicioso. Quase sempre, o vício — ora vejam! — está com a oposição, e a virtude, com o governo.

O mais divertido da turma é, sem dúvida, Elio Gaspari. Ele tem a pretensão de ser, assim, um conselheiro dos jovens. Escreve como quem cantasse: “Esses moços, pobres moços, ah, se soubessem o que eu sei…” E, no entanto, ele sabe bem menos do que sugere a empáfia do estilo. Induziu muita gente a erro. Não cansou de matar a candidatura do tucano José Serra ainda no primeiro turno. Subjacente a seus prognósticos estava a tese da emergência das massas ao processo político, o que o PSDB não teria percebido, enquanto “Nosso Guia”, vocês sabem, com seus dons premonitórios e sua natural sensibilidades etc e tal…

E, no entanto, o segundo turno está aí. Qualquer que seja o resultado da eleição, uma coisa dá para prever: será uma peleja dura. A julgar pelo nervosismo dos petistas, certa histeria mesmo, eles não estão muito certos de nada. As tais “massas” que ascenderam ao processo político, aquelas que tanto encantavam Gaspari, começaram a emitir alguns recados. O diabo é que, para desaire do nosso pensador, dizem coisas que ele não gostaria de ouvir. Vocês sabem: povo bom é aquele cujo progressismo combina com as ambições do analista. Se ele começa a emitir mensaagens que a suposta boa consciência repudia, o que parecia virtude começa a ser vício, o que parecia ser manifestação de vitalidade começa a ser tratado como expressão de uma doença social. O nome disso? Vigarice intelectual.

Escreve Gaspari em sua coluna hoje:
Contumaz retardatário, José Serra conseguiu bater todas as suas marcas. Chegou com 46 anos de atraso à Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que juntou 200 mil pessoas no centro de São Paulo manifestando-se contra o governo de João Goulart.
A “Marcha da Família” foi a maior manifestação popular de 1964. Doze dias depois de sua realização, Goulart foi deposto.
Segundo o cônsul americano na cidade, “quase todas as famílias das classes médias e alta estavam representadas, com pequena participação das classes mais baixas”.
Quem deu musculatura à manifestação foram organizações religiosas e líderes políticos. Anos depois, as senhoras que lideraram a marcha tornaram-se um estorvo para os generais.

Vejam vocês.  Eu até acho que, em 1964, Serra estava um tantinho no lugar errado — no comício da Central do Brasil por exemplo, o que é exaltado em sua campanha, uma desnecessidade. Mas não vou escarafunchar isso agora. O que posso dizer em homenagem à biografia do valente colunista é que, enquanto o agora presidenciável tucano estava exilado — havia uma ordem de prisão contra ele no Brasil, e surgiu até um bilhete com instruções para eliminá-lo no Chile —, Gaspari estava por aqui mesmo, cantando as glórias do regime. Às quatro ditaduras que compõem a sua obra sobre o período — Envergonhada, Escancarada, Derrotada e Encurralada —, ele poderia acrescentar uma quinta: A Ditadura Aplaudida, que seria composta apenas de textos do próprio Elio Gaspari. Verdade ou mentira?

E é ele quem vem falar agora, nesse tonzinho moralista, da Marcha da Família? Há várias impropriedades na alusão. Em primeiro lugar, aquela manifestação era, sim, popular, goste o neocompanheiro ou não. E nada tinha de despropositada. O governo João Goulart havia levado o baguncismo para o palácio. O receio de que estivesse tramando um autogolpe estava ancorado em evidências. Mas deixo essa coisa pra lá. A segunda impropriedade é atribuir àquele protesto um caráter elitista e associá-lo, então, à manifestação de agora de milhões de brasileiros que repudiam, por exemplo, o aborto. Se, naquele caso, segundo Gaspari, a elite estava na rua, em 2010, com clareza insofismável, quem fala é o povo ao qual o colunista já começa a se apegar.

De resto, eu lhe proponho um desafio: ele convoca uma marcha pró-aborto, e eu convoco uma contra. Vamos ver quem vai reunir brasileiros com a melhor dentição e com a pele mais bem-tratada.  Não existe banguela de esquerda, não! As convicções homicidas dos esquerdistas (todas para salvar a humanidade, claro!), por incrível que pareça, se formam mesmo é no conforto. Vai ver é alguma estranha proteína do sucrilho…

Gaspari — o derrotado da eleição de 2010, mesmo que Dilma vença — queria ver Serra discutindo a questão cambial e a supervalorização do Real. Entendo! Ele queria que o tucano disputasse a eleição só para ter razão, não para vencer. Não que Gaspari, ele próprio, fosse elogiá-lo por isso. Continuaria com a sua metáfora haurida da construção civil para tratar da luta de classes: os tais andares de baixo e de cima… O companheiro gostaria de ver a oposição, no máximo, como uma espécie de ombudsman do governo Lula. Não deixa de ser um avanço: durante a ditadura militar, ele simplesmente a achava desnecessária.

Quem não tem memória ou arquivo que caia no truque. Eu tenho os dois. E o mau hábito de chamar as coisas pelo nome.

Por Reinaldo Azevedo

17/09/2010

às 17:39

Como se fazem salsichas, certo “jornalismo” e certa política

Uma revistinha aí, que funciona como cartilha do PT e de quem mais se interessar em atacar os “tucanos de São Paulo”, traz uma “reportagem” sustentando que Aécio Neves pretende deixar o PSDB e fundar um novo partido para fazer oposição moderada a Dilma Rousseff, tratada, seguindo entendi, como eleita. É claro que, como quase todo mundo, não li nem lerei a dita-cuja. Sabemos da história porque os sites noticiosos resolveram “repercutir” (como se diz por aí, espancando o sentido do verbo) a “matéria”. Publicações desse gênero existem para isso: imprimem ali um merrequinha de exemplares, pegam a grana, geralmente oficial e de estatais, e contam com a Internet para difundir o seu “jornalismo de servicinhos”.

Como dois e dois são quatro, daqui a pouco, alguém ligado ao ex-governador nega a intenção com a ênfase não mais do que necessária: não será uma negativa forte o bastante para que isso vire uma cobrança um dia nem fraca a ponto de caracterizar um trânsfuga precoce. E assim seguem sendo feitos certo jornalismo, certa política e as salsichas. Terá Marcos Coimbra escrito um pequeno ensaio sobre o assunto? Estaria à altura do conjunto da obra.

Acho cedo para esse, como posso chamar?, protagonismo, né? Até porque não existem “oposição moderada” e “oposição radical” em si. Se um governo propõe, por exemplo, mecanismos para controlar a imprensa, o que faria um “opositor moderado”? Tentaria “melhorar” a proposta de censura? Nesse caso, ele não seria um “moderado”, mas um canalha. A única coisa decente a fazer seria, obviamente, “oposição radical”. E quando a Constituição é agredida, como está sendo, e o chefe do Executivo abusa do poder? Qual é a posição do “moderado”? Fazer de conta que não está acontecendo ou se opor radicalmente a tais práticas?

De todas as bobagens e patifarias que se dizem por aí, esta é uma das maiores: a suposta “oposição radical” que o PSDB teria feito ao governo Lula. Ora, o que faltou foi justamente oposição. Tivesse havido, dadas as condições da economia no Brasil e no mundo, Lula seria, ainda assim, um presidente popular. Mas só vive a sua fase de mito — até que a história não corrija a estupidez — porque passou oito anos pontificando sozinho.

A propósito: digam aí uma só escolha “radical” feita pelos tucanos que não teria sido feita pelo suposto “partido moderado” conduzido por Aécio ou por outro qualquer. Sei lá se o ex-governador está nessa ou não. A conversa é tão bucéfala que tendo a achar que não. No molde em que a coisa vem a público, fica parecendo que é preciso, primeiro, escolher um candidato à Presidência da República para, depois, ver com que arranjo partidário ele disputará a eleição. Depois é só combinar com os eleitores.

Posso achar o petismo um horror, e acho, mas eu nunca disse que os petistas são burros — podem procurar. Eles não devem me achar grande coisa, compreendo os motivos, mas certamente reconhecem que os trato com o peso que realmente têm: pensam a política. Pensam um monte de porcaria, mas pensam. Diante de coisas como essas de que trato aqui, devem rir satisfeitos: “Pô, pode ser mais fácil do que a gente pensa ficar no poder uns 70 anos”…

Por Reinaldo Azevedo

15/09/2010

às 16:37

Quem zela pelo valor da democracia?

O UOL ouviu 32 pessoas nas ruas de São Paulo para verificar se elas sabem o que é quebra de sigilo. Nada menos de 23 não sabiam. Não é uma pesquisa que reflete necessariamente o grau de conhecimento da população sobre o assunto porque a amostra é aleatória. Mas não creio que seja muito diferente da realidade.

E “liberdade de expressão”, “estado de direito”, “Constituição”, “direitos individuais”, “habeas corpus”, “direito de defesa”, “instituições”, “democracia”? Será que a população sabe o significado dessas expressões e a importância que podem ter na vida em sociedade? A minha pergunta é meramente retórica. Todos sabemos a resposta.

Vá às ruas e pergunte se não seria uma boa cortar a mão de bandidos ou executá-los em praça pública para que sirvam de exemplo. Eis o problema: a democracia é mais do que uma soma de vontades que forma a maioria. Também é um conjunto de valores que tem de ser preservado ou das vontades da hora de grupos organizados de pressão ou da ignorância. E quem zela e vela por ele? As elites intelectuais.

O maior aliado dos vários fascismos no século passado foi a ignorância. Na semana passada, fez quatro anos que publiquei meu primeiro artigo na VEJA. Vale a pena recuperar alguns trechos. Poderia ter sido escrito hoje.

(…)
O voto do ignorante vale menos? Não. Mas também não vale mais. Nem muda a natureza das instituições. E não absolve ninguém, tarefa que continuará a ser da Justiça. A vacina contra o autoritarismo virótico de quem pretende cair nos braços do povo para ser absolvido de seus crimes está em Origens do Totalitarismo, da pensadora judia-alemã Hannah Arendt. Aprende-se ali que não devemos permitir que os inimigos da democracia cheguem ao poder, negando-nos, uma vez lá, em nome dos seus princípios, as liberdades que lhes facultamos em nome dos nossos.

A tese da absolvição serve ao propósito de pautar a imprensa com uma agenda virtuosa. O programa de governo do PT prevê, diga-se, o incentivo oficial à “mídia independente”. Em lulês, significa financiar, com o dinheiro dos desdentados, a sabujice disfarçada de jornalismo. A prática já está em curso. Felizmente, a democracia é um regime legitimado pela maioria, mas sustentado pelas elites intelectuais, de que a imprensa faz parte. As esquerdas se arrepiam diante dessa afirmação. Entendo.

A alternativa histórica às elites esclarecidas é o déspota esclarecido. Se, no passado, ele podia ser um homem, no presente, tem de ser um “partido”, um ente de razão com poder de se sobrepor às leis, embora não dispense o demiurgo. Lula é o Tirano de Siracusa (aquele que Platão tentou converter à filosofia, coitado!) dos intelectuais petistas. A decana do delírio é a filósofa Marilena Chaui. No livro Simulacro e Poder: uma Análise da Mídia, ela afirma que o discurso da direita se sustenta no senso comum. À esquerda caberia desmontá-lo para criar uma “nova fala”.

Marilena é a Tati Quebra-Barraco da academia. Seu funk filosófico apela à barbárie, mas tem o charme da resistência, a exemplo de certas canções de Chico - Lula é o “meu guri” que chegou lá. Ela ressuscita a tara do marxismo vagabundo de que o senso comum existe como falsa consciência, a ser superada pela iluminação de uma razão transformadora. Conclui-se que o povo, deixado à própria sorte, vai para a direita. Se educado pela militância, pode atravessar os umbrais da liberdade. Na China de Mao Tse-tung, 70 milhões morreram sob o efeito dessa luz.

Mas eu estou com ela. E com Shakespeare. Também acho que o povo não é de confiança. O bardo diz o que pensa no discurso de Marco Antônio diante do corpo de Júlio César, assassinado havia pouco. Leiam a peça ou vejam o filme dirigido por Joseph L. Mankiewicz - um judeu de origem alemã nascido nos EUA. Um minicoquetel de figuras retóricas transformou o tirano assassinado num herói, e o herói republicano, Brutus, num tirano. César era intuitivo, sentimental e tolerante com os de baixa estirpe; Brutus era tímido, racional e ensimesmado.

Açulada pelos conspiradores, a massa primeiro tripudia diante do corpo inerme; chamada por Marco Antônio à sua natureza amorosa e primitiva, adora a memória do ditador. Afinal, “quando os pobres deixavam ouvir suas vozes lastimosas, César derramava lágrimas”, discursa Marco Antônio.
(…)
Se eu, Marilena e Shakespeare não confiamos no povo, onde está a diferença? O dramaturgo o trata como o vulgo instável de sempre, e Marilena quer educá-lo segundo os rigores de uma razão supostamente iluminista; ele só passará a ser uma categoria relevante quando acordar de seu sono e aderir a uma utopia finalista. Trata-se de um embuste utópico em nome do qual se institui o presente eterno na política, que passa a ser um jogo sem regras previamente definidas justamente para que qualquer conveniência possa ser considerada uma regra do jogo.

Quando, para defender o PT, um ator diz que a política pressupõe enfiar a mão na sujeira ou um músico dá um pé no traseiro da ética, ambos estão pondo em termos muito práticos o que a intelligentsia petista urdiu como teoria de poder: a superação do senso comum (de direita?), segundo o qual não se deve roubar dinheiro público. A “nova fala” do barraco de Marilena acena então com a pior de todas as tiranias: aquela exercida pelos servos.

E o “meu” povo? Ele é a fonte legitimadora das instituições democráticas e, portanto, tem de ser protegido de si mesmo se atentar contra os códigos que guardam seus direitos - e isso inclui absolver ladrões. Esse é, aliás, o aparente paradoxo das sociedades modernas, em que vigora o estado de direito: a cultura da reclamação, da permanente mobilização, da constante reivindicação de direitos resulta em grupos de pressão que querem impor a sua agenda, ainda que o preço seja o fim da universalidade das leis. A esquerda, faceira, torna-se porta-voz desse novo humanismo de tribo. O paradoxo é aparente porque uma democracia não proíbe a existência de tais movimentos, mas também não cede. E seu limite é a lei (…).

Por Reinaldo Azevedo

14/09/2010

às 18:35

O Coração das Trevas. Ou: Tiririca não copia Marta, mas Marta copia Tiririca

Tiririca ainda acabará rendendo ensaios de Sociologia & Política. Os “integrados” à nova ordem sustentarão que “superiores são os poderes do povo”. Se ele quer… Os fatalistas apelarão a certa ontologia para sustentar que “Tiririca é” porque o “povo é”. “E você, Reinaldo, diz o quê?” Ah, bem, eu tenho cá a minha “teoria das elites”. Já até escrevi a respeito: a democracia é assuntos sério demais para ficar só sob os cuidados do povo. No mundo inteiro, quem impede a barbárie são as elites intelectuais. Se e quando renunciam a seu papel, a vaca vai para o brejo. Mas deixo isso pra lá agora.

O fenômeno que está em curso no Brasil é fabuloso. Lembro de uma observação minha que rendeu muitos protestos, coisa lá do fim dos anos 90, segundo a qual a proximidade entre os intelectuais e o sindicalismo não havia deixado os sindicalistas mais ilustrados, mas certamente tinha tornado os intelectuais mais truculentos. E constatei: a USP não passou saber nenhum aos sindicalistas, mas eles conseguiram sindicalizar a USP. É o que se chama nivelamento por baixo.

O vídeo em que Tiririca pede voto para ajudar a própria família e em que declara que não sabe o que faz um deputado federal é bastante conhecido. Este que segue é menos. Assistam — é rapidinho:

Viram? O palhaço já estende até um olhar crítico sobre o processo eleitoral — deve estar com alguma assessoria, não? Esse vídeo já tem uma ironia alguns degraus acima da pura depredação do bom senso, do bom gosto, dos bons modos  — da civilização, enfim. Agora vejam isto:

“Vi minha mãe sair pra luta
Vi minha mãe se distanciar
Vi minha mãe sair do lar
para ao povo se dedicar”

A sofisticação dos versos me faz pensar que o autor é Supla. A levada meio “breganeja” sugere que a música é de João, aquele que gosta de “MPB cabeça”. Entre os dois, há o terceiro, cujo nome está no Google, que tem cara de contador.

O que diferenia Tiririca de Marta? Diria que o “abestado” é ligeiramente mais honesto intelectualmente. Vem daquele estrato da população que considera que política é coisa de espertalhões, oportunistas e larápios e decide também ele fazer parte da festa. Outros, com mais alcance do que ele, o colocam no picadeiro para puxar votos. O que  ele tem a oferecer? Isso aí.

Marta vem de outra linhagem e de um tempo em que os petistas diziam ter ambições verdadeiramente didáticas — campanhas centradas em valores etc e tal.  “Ah, mas ela tem história; goste-se ou não, faz um trabalho sério”, poderia ponderar alguém. E por que o ridículo? Qual dos dois vídeos trata a política como a arena pública, em que se debatem os problemas do país?

Mas eu entendo. Segundo pesquisas, há um certo risco de o pagodeiro Netinho (PC do B) ter mais votos do que sua colega de coligação. Assim, ela resolveu também aderir ao gingado. Esse é, vamos dizer assim, o pagode da “petista que veste Prada”, o “Pagode da Zona Oeste e Jardins”.

Quanto à letra — e já que a candidata pôs a família na vitrine,— dizer o quê? Esse negócio de “vi minha mãe sair do lar” vai acabar desestimulando algumas mulheres que são mães a  a entrar na política. Acabarão ficando com medo do resultado, se é que me entendem… Se bem que Marta não fez essa prole sozinha, justiça se lhe faça.

Por Reinaldo Azevedo

09/09/2010

às 7:03

O PT realmente inovou a política no Brasil: nunca antes na democracia um partido depredou tanto as instituições

Num dos posts abaixo, digo aos petralhas que podem botar a mula na sombra porque aqui eles não entram. Este é o meu blog — coisa que Lula não pode dizer sobre o Brasil, por exemplo. Quem não gosta da minha página ou não concorda com o blogueiro pode criar a sua própria, inclusive para me satanizar, como alguns já fizeram, conformando-se em ser apenas os que “odeiam o Reinaldo Azevedo”. Compreendo. Mas ninguém pode abrir o seu “próprio Brasil” se diverge daquele que Lula pensa ser dele e de seu grupo. E não estou nem aí se o Babalorixá de Banânia tem 35 mil por cento de popularidade. Desde quando apoio popular é evidência de que o líder está certo, não é mesmo, Hitler? Não é mesmo, Mussolini?

Isso não me assusta, não me constrange, não me intimida. Ao contrário: mais me anima a desconstruir o mito para chegar ao político real, àquele que de fato existe. Lula e a nova classe social que representa — a burguesia sindical do capital alheio — não são os donos do Brasil, e os que a eles se opõem não são a turma “do contra”; são personagens da democracia tão legítimos como aqueles que os apóiam. Os petralhas não sabem disso porque odeiam o regime de liberdades e gostariam de ver os opositores numa jaula, submetidos à expiação e à, vou inventar uma palavrinha, “espiação” públicas em nome do “controle social da divergência”. Aquele blogueiro palaciano pançudo, lembram-se?, até sugeriu que se fizessem reportagens para “identificar” as pessoas que acham o governo ruim ou péssimo. O próximo passo é sugerir que andem com uma tornozeleira eletrônica, antes de lhes meter um triângulo roxo no uniforme. Gente vigarista!

Mas por que tanto ódio? Em primeiro lugar, porque os totalitários não se conformam que possa haver uma “minoria” (como dizem) que não se subordine à linha que consideram justa. Eles não se contentam em ter a maioria. Querem a totalidade. Como escrevi ontem, é preciso transformar o adversário num inimigo e esse inimigo num “não-ser” para que possa, então, ser eliminado. É a manifestação política da psicopatia — que chamo esquerdopatia. Existir “uma minoria” que insiste em não ceder ao charme do demiurgo lhes parece um grande risco, é como se, e George Orwell percebeu isso precocemente no livro 1984, o Grande Irmão tivesse falhado.

Em segundo lugar, não suportam ser confrontados com a verdade, que confundem com sabotagem. Querem ver o que os deixa possessos? Pensemos nos oito anos de governo Lula. Eu desafio qualquer um dos velhos áulicos do lulo-petismo — seja o pensamento mais musculoso de Marilena Chaui, seja o mais delgado, de Renato Janine Ribeiro, seja o de qualquer um desses neovigaristas do adesismo que se dizem pragmáticos — a apontar uma só, BASTA UMA, mudança institucional importante implementada pelo governo Lula. Não! Não estou cobrando uma porção delas, uma lista de realizações. Basta umazinha só, uma coisa miserável que seja! Não há! Formalmente, o país não deu um miserável passo no avanço institucional.

Ao contrário: ele regrediu! Deu passos para trás. Violações da intimidade aconteceram antes, em outros governos? É possível! Mas só no governo do PT o desrespeito sistemático aos sigilos bancário, fiscal e telefônico se tornou uma verdadeira indústria — e as pegadas dos companheiros na manipulação do crime são evidentes, escancaradas. Pretendem diluir a clara perseguição política a um grupo de tucanos e a familiares de José Serra — filha e genro — em centenas de outros crimes, como se a) aqueles anulassem estes; b) a inocência fosse construída por meio do excesso de culpas. É uma gente politicamente doente.

Quando é que entes do estado foram tão escancaradamente usados para proteger um grupo político, como agora, a exemplo da vergonha a que se assiste na Receita Federal? Já nem se ocupam mais de disfarçar. Os mecanismos a que recorrem são típicos da ditadura. Desde a redemocratização, este é o ponto mais baixo a que chegou o estado de direito no Brasil. Nisso, com efeito, o PT representa uma inovação institucional. E também está sendo bastante original nas desculpas. Os tempos em que Paulo Maluf era visto como a grande ameaça de retrocesso da democracia chegam a ser ingênuos, não? Ainda que ninguém acreditasse, ele não cedia: “A as-se-na-to-ra não é me-nha” — em português, queria dizer: “A assinatura é minha, mas não confesso porque, no fundo, sei que é errado”. Maluf teria aula de decoro a dar ao PT…

Com o petismo, tudo mudou: acabam admitindo o crime, geralmente por bons motivos, claro!, e mobilizam seus bate-paus para produzir textos que a) procurem, num primeiro momento, dar alcance teórico à patifaria; b) recontem a história aos poucos, de modo que a safadeza vá sendo diluída numa narrativa alternativa. Pensem no mensalão: Lula começou admitindo caixa dois, depois passou a negar a existência de qualquer irregularidade e agora espalha a fantasia de que tudo foi uma tentativa de golpe dos adversários. Ninguém nunca tentou recuperar o malufismo como, sei lá, uma mudança de qualidade da ação política. Já o petismo pretende ser uma forma superior de apreensão do mundo — aquele modelo teórico Marilena Chaui, vocês sabem: Spinoza com Delúbio Soares. Aquela senhora promete agora uma releitura do filósofo holandês mediada por Tiririca. Tudo bem: o abestado nada entende de democracia. A abestada também não!

Faço a pergunta de novo: cadê os avanços institucionais do governo Lula? Ora, o país regrediu barbaramente, por exemplo, no acompanhamento das contas públicas. Boa parte dos gastos do governo federal e das estatais se faz hoje ao arrepio do controle do Tribunal de Contas da União. Vale dizer: tornaram-se menos transparentes. O que o PT promoveu nestes oito anos de governo foi a privatização do estado — inclusive das estatais, transformadas também elas, como os fundos de pensão, em braços do partido.

É nesse ambiente que se dá a violação de sigilos, e essas são as grandes contribuições institucionais do PT ao Brasil, isso para não falar do Babalorixá, ele próprio o grande depredador das leis. Não é casual que sua candidata à Presidência da República tenha sido tirada do bolso do colete, notoriamente inepta para a política, incapaz de enfrentar o debate público por seus próprios meios. Dilma é o Tiririca que freqüentou as aulas do Colina e da VAR-Palmares. Não pertencem à mesma coligação por acaso. Representam uma momento da institucionalidade.

Volto ao começo. Quais serão os valores deste blog a partir de 1º de janeiro de 2011? Esses que se percebem acima, pouco importa quem vá ocupar aquela cadeira, que não pertence a Lula, mas ao governo do Brasil. Os petralhas podem contar comigo. Eu os estarei combatendo estejam no governo ou na oposição.

Por Reinaldo Azevedo

06/09/2010

às 17:37

Viva a oposição! Qualquer oposição em qualquer democracia!

Ficou um pouco longo, mas acho que vocês vão gostar.
*
No texto da madrugada, escrevo sobre a prática antiga de petistas de invadir dados sigilosos — e setores da imprensa, infelizmente, foram “usuários” desse serviço. De fato, o partido não mudou; continua a operar como sempre. Há nisso uma questão de alcance mais geral, que se desdobra na disputa eleitoral que está em curso, que marca os últimos oito da política no Brasil e que pode vir a ser importante no futuro.

O PT nunca se transformou num partido governista, justificador da ordem e do statu quo. Ao contrário: mesmo no poder, continuou na oposição. Já falo a respeito. O PSDB, ao contrário, nunca conseguiu ser oposição; ao longo de oito anos, foi a legenda que encarnou a ordem. Alguém dirá: “Então está tudo certo; continuaram a se opor, a fazer a polarização”. É verdade, mas ambos fora do lugar, com discursos trocados. Explico-me.

No poder federal, o PT não poderia atirar contra si mesmo, é evidente. E os que tentaram fazê-lo acabaram tendo de sair da legenda. Mesmo Marina Silva, com a sua agenda monotemática, não encontrou espaço para seu ambientalismo globalizado e outros substantivos abstratos e adjetivos sonoros que apelam a todas às alturas da, sei lá eu, sustentabilidade holística.

Se não dava para atirar contra si mesmo e se era preciso se manter na oposição, cumpria, então, eleger um governo de plantão que pudesse servir como espantalho. Qual? Ora, o do antecessor imediato: FHC. Não por acaso, os governantes da fase democrática ligados aos descalabros econômicos pré-Real tornaram-se satélites do… petismo! Vejam que notável: foram oito anos da mais acirrada, implacável e inegociável OPOSIÇÃO a um governo que já não existia mais. Não é que o PT conservasse apenas a prática policialesca dos tempos da oposição; conservava também a linguagem.

Assenhoreou-se da narrativa sobre “o outro”: reinventou o passado, reinventou a do próprio PSDB, reinventou a sua própria trajetória, tornou influente e, finalmente, triunfante a sua versão dos fatos. E o antigo governo, nova (nestes oito anos) oposição, ficou no meio do ringue, tomando porrada na cara, inerme, sem reação. Em vez do contra-ataque — ou do ataque, que costuma ser prerrogativa de oposicionistas nas democracias —, deu-se, o que é fabuloso, a fazer ela o “discurso da ordem”. Quando a gente lembra que, em 2003, os petistas queriam derrubar Antonio Palocci, e os tucanos o defendiam com energia no Senado, tem-se uma noção clara desses papéis trocados.

Os tucanos bem que insistiam, e era verdade, no “eles estão seguindo o nosso programa”; “eles não estão mudando nada” e afins. Mas era, obviamente, insuficiente para começar a caracterizar a oposição. Mais do que isso, fazia-se necessária uma denúncia muito dura, firme, clara, da bravata mesmo! E, seguindo o que faz qualquer oposição, apontar o que não funcionava no governo. Acontece que a popularidade de Lula, relativamente alta mesmo no auge do mensalão, começava a intimidar a oposição — que recuou, todo mundo sabe, na hora de fazer o que a Constituição lhe cobrava: deixar que Lula caminhasse para o impeachment. Quando Duda Mendonça confessou que o PT pagara o seu trabalho com milhões de dólares do caixa dois, depositados no exterior, a porta do líder petista ficou bem estreita. É bíblico: quem passa por ela renasce logo à frente.

Poder fabuloso
Antes que prossiga, cumpre notar que o Executivo tem um poder fabuloso no Brasil, quase imperial — na política e, especialmente, na economia. Guardadas, claro, as devidas proporções, um Barack Obama não tem, sobre a massa de recursos dos EUA, o domínio que tem Lula sobre a massa de recursos do Brasil. Só para ilustrar: o presidente americano não conta com a verba bilionária do governo federal e de estatais para cantar as glórias do governo e comprar o apoio de boa parte da “mídia regional”. Mais: os governadores, na verdadeira república federativa que são os EUA, dependem pouco da vontade do poder central, e os congressistas não ficam, de pires, na mão pedindo a liberação de caraminguás para a emenda que vai criar aquela pontezinha sobre o riacho de Xiririca da Serra. Para encerrar: sempre existirá uma sólida “imprensa de oposição”, pouco importa o governo de turno. A coisa é tão curiosa — e saudável! —, que a CNN, simpática aos democratas, ganhou muitos telespectadores durante a campanha de Obama. Eleito o democrata, foi a audiência da Fox News, mais próxima dos republicanos, que disparou.

Quer um governo sempre na rota da democracia? Vigie-o! .

A realidade americana tem, pois, suas particularidades — ou, para ser franco, numa república democrática, nós é que somos muito “particulares”, com nosso Executivo quase absolutista. Mas não e só um Executivo fraco (na comparação com o Brasil ao menos) que faz a diferença na democracia americana, não. Aludindo, com ironia, a um clichê que vem de lá, o que também faz a diferença “é a política, estúpido!”

Os republicanos
Obama foi eleito pelos americanos e pelo mundo, certo? Nunca antes na história do mundo, um governante chegou ao poder cercado de tantas expectativas. Atribuíam-lhe poderes divinos, premonitórios, redentores. E olhem que deu suas escorregadelas na política à moda Terceiro-Mundo, satanizando o adversário mais de uma vez. Pois bem: estava no poder havia 15 dias, e os republicanos deram o grito de guerra. E quem o fez foi o homem mais odiado pela imprensa liberal americana: Dick Cheney.

Sabem o que faziam os republicanos naquela hora? Honravam os votos daquela parcela dos americanos que os elegeu como oposição. Porque, na democracia, é a existência de oposição que legitima o governo.

O resto é história. Veio a reforma da Saúde promovida pelo presidente, que saiu diferente do planejado porque os republicanos não se intimidaram — nem mesmo quando lhes atribuíam uma espécie de “herança maldita” (e olhem que, lá, isso era muito mais verossímil do que aqui). Também mantiveram o confronto em torno do plano de recuperação da economia. Não são pequenas as chances de passarem a ter a maioria na Câmara e no Senado.

Os adversários de Obama não permitiram que outros fossem os autores de sua história. Eles tomaram a iniciativa de contá-la. E não me venham com a cascata de que, nos EUA, a economia prejudica o presidente, enquanto, aqui, ajuda. Isso é fator não mais do que lateral. Reitero: os republicanos deixaram claro que estavam vivos desde o primeiro dia.

De volta ao Brasil
Não estou dando a eleição como favas contadas, não. Mas o quadro é evidentemente difícil para a atual oposição. Aqui e ali, lêem-se especulações sobre como se comportariam o PSDB e o DEM num eventual governo Dilma. Por incrível que pareça, surgem vozes sugerindo que houve erros, sim: o maior deles teria sido, olhem que escândalo!, a prática do confronto. Ou ainda: PSDB e PT precisam parar de polarizar a política e se juntar em benefício dos interesses da pátria. Vale dizer: há quem pense que ainda não se errou o bastante; há quem considere que, caso se dobre a dose do erro, vai se chegar a um acerto. Ora, que Eduardo Campos, governador de Pernambuco, que será reeleito, venha com essa conversa, compreendo. Na oposição, é anúncio de suicídio.

Se Dilma for eleita, quem quer que decida lhe fazer oposição terá de ser, vejam que fabuloso!, OPOSIÇÃO! Sim, claro, claro, o que for bom para o Brasil deve contar com o apoio das pessoas de bem etc. e tal. Como sempre (só petista não segue essa regra quando está fora do poder). A conversa, no entanto, de que será preciso estabelecer uma “interlocução” ou coisa parecida para “defender as reformas de que o Brasil precisa” (essa cascata é de lascar!) só serviria para reforçar o continuísmo e para impedir o surgimento de lideranças com capacidade de enfrentar aquela que seria, então, o rosto de turno da força hegemônica. Se Dilma for eleita, terá tal maioria no Congresso que a oposição não vai lhe fazer falta. Essa oposião não pode é faltar aos milhões que terão resistido ao petismo — e essa será sua contribuição à democracia.

O Brasil precisa de mais democracia, não de menos. E esse regime supõe quem governe e quem vigie o governo; quem tente usar a maioria que alcançou nas urnas para fazer a sua vontade e quem tente, nos marcos da lei, criar empecilhos para que ela se exerça plenamente. Sem isso, governantes podem se tornar déspotas sem dar um tiro; podem fazê-lo por uma espécie de via cartorial. Ou fraudando o que está em cartório, se é que vocês me entendem…

Por Reinaldo Azevedo

02/09/2010

às 16:53

A corrupção dos homens e a corrupção da sociedade

Acho que vocês vão gostar deste mini-ensaio sobre o exercício do poder. Leiam e me digam.

César separou-se de Pompéia, sua mulher, porque ela foi publicamente considerada culpada de uma ofensa religiosa — pesquisem —, embora ele soubesse, pessoalmente, que ela era inocente. Líder máximo de Roma (ainda era uma República; ele nunca foi imperador), a questão de estado se sobrepôs à pessoal. E então disparou a máxima, sempre muito citada: “À mulher de César não basta ser honesta; é preciso também parecer honesta”.

Pensemos a frase de César à luz — ou à escuridão — da atuação de Otácílio Cartaxo, secretário da Receita, e da corregedoria do órgão.

Alguém que age pensando nos interesses do Estado pode, o que deve ser terrível, ser compelido a tomar certas decisões — contra aliados e amigos — que, mesmo ferindo seu senso pessoal de justiça, concorrem para o equilíbrio da República. O desejável é que o  governante não seja levado a fazer tal escolha. Compelido a tanto, os honestos farão como César. Notem que, nesse caso, estamos diante de uma soma de atributos: o “parecer honesto” não contradiz o “ser honesto”.

Uma mentalidade, digamos, essencialista — coisa muito em voga em nosso tempo; vocês sabem, a turma do “self”… — logo indagaria: “Que importância tem o ‘parecer’? É o ’ser’ que importa”. Na vida pública, tal contradição é descabida. A verdade é tão importante quanto a aparência, daí a necessidade das regras do decoro, que buscam uniformizar a atuação dos homens públicos, lembrando aos cidadãos que os governantes zelam pela res publica. Notável desdita para o homem de estado, nesse caso, obrigado a ser injusto na esfera privada para garantir a justiça na esfera pública. Um governante honesto, assim, é sempre mais angustiado do que feliz.

A distorção populista
Pode-se submeter a máxima cesariana a uma distorção muito típica dos populistas — e de demagogos de um modo geral. Se pensassem a frase de César como um norte moral, encontrariam nela um excesso de rigor. A esquerda brasileira, por exemplo, e seus esbirros na imprensa diriam que há ali um excesso de moralismo; que a política, como arte dos cínicos, não pode ser, assim, tão justa; que a lambança é mesmo parte do jogo.

Nesse caso, o governante ainda conserva o senso do “decoro”, das necessidades da res publica, mas tende a considerar que ele é só o tributo que paga a virtude para que o vício possa ser exercido às escuras. A mensagem que esse governante passa aos seus poderia ser resumida assim: “A mulher de César até pode ser desonesta, mas não pode parecer desonesta”.

Esse norte instrui os mais diversos comportamentos. Governantes assim costumam ter os seus “operadores sujos”, que fazem “o necessário” (seja lá o que for). A regra de ouro é uma só: o público não pode ficar sabendo. Se a informação “vazar”, como se diz no jargão jornalístico, será preciso sacrificar o “operador”. Assim se conduziu, por exemplo, o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. A cúpula do PT que chegou ao poder com ele caiu — ao menos formalmente.

Pegue-se um exemplo: José Dirceu serviu Lula ao, segundo a Procuradoria Geral da República, chefiar a quadrilha do mensalão. O presidente e seus aliados estavam pouco se lixando se ele era honesto. Essa exigência não estava dada. Mas ele precisava parecer honesto.

A bandalheira
Pode acontecer, no entanto, de o governante viver naquele que é, para si mesmo, o melhor dos mundos — e o pior para a res publica. Nesse caso, os homens de estado não precisam nem ser nem parecer honestos. A corrupção do próprio caráter faz com que transformem o exercício do poder em fonte de satisfação pessoal e do grupo. Para que possam viver o poder como um festim, como celebração orgíaca da desordem, aí contam com a corrupção moral de setores importantes da própria sociedade.

Esse padrão define o segundo mandato de Lula. Otacílio Cartaxo não precisa seguir as regras estritas da Receita Federal, por exemplo. E não precisa nem mesmo fingir que as segue. Luiz Inácio Lula da Silva ignora as leis, faz chacota e vê exaltada a sua formidável habilidade política. Petistas não se indignam com a lambança de seus pares —  nem mesmo fingem que estão indignados. Setores importantes da imprensa acham irrelevantes os agravos à Constituição — nem mais executam a mímica da defesa do estado de direito.As sociedades que exigem ao menos o decoro dos seus governantes deixam claro que não aceitam ser cúmplices de crimes. As que passam a tomar a falta de decoro como evidência de esperteza e de habilidade política fazem um pacto com o desastre. Pode até tardar, mas vem.

Por Reinaldo Azevedo

30/08/2010

às 7:07

Os frutos do trabalho sistemático de destruição da inteligência. Ou: é claro que é inútil argumentar com eles

Vou lhes contar uma coisa aparentemente bobinha, cujo alcance, à primeira vista, parece dizer respeito só à minha vida privada. Mas eu lhes asseguro que se trata da crônica de um tempo e que nos fala um tanto de certo estado de coisas. Recebo muitos pedidos de entrevista para os tais Trabalho de Conclusão de Curso de universitários — em especial de estudantes de jornalismo.

Ainda nesta semana respondi a uma longa entrevista, bem-conduzida, sobre Lula, O Filho do Brasil. “Como eu vejo o filme no contexto político brasileiro?” “Acredito que a arte possa ter uma função política?” “A arte é eficiente como arma política?” “A política empobrece a arte ou lhe confere especial vigor?” Respondi com gosto porque aqueles que me faziam as questões estavam realmente interessados em saber o que eu pensava. Não sei qual será o resultado do trabalho, e é provável que não saiba. Mas a entrevista, vejam vocês!, queria saber o que pensava o entrevistado!!! Está entre as exceções. No mais das vezes, os estudantes querem saber O QUE EU PENSO DO QUE ELES PENSAM, entenderam? A rigor, querem saber o que eu penso do que eles pensam que pensam. Explico-me.

Não chegam questões, mas teses — e a formulação evidencia o ambiente em que são, se me permitem o neologismo, “DESPENSADAS”. Sim, trata-se de “despensamento”, uma vez que nada mais fazem do que vocalizar os lugares comuns já nem digo da militância de esquerda (que isso é coisa do meu tempo), mas da “burritsia” esquerdista, que vem a ser o avesso da “intelligentsia”. Até na gramática a má consciência — que é a má fé que não tem nem mesmo consciência de si mesma — se manifesta. As “teses” dos entrevistadores vêm embarcadas nas perguntas:
- “O senhor não acha que o senhor foi muito injusto com o Programa Nacional dos Direitos Humanos?”;
- “O senhor não acha que a sua crítica ao programa foi parcial?”;
- “O senhor não acha que a imprensa (atenção para esta!) é mais severa (!!!) com o governo Lula do que foi com o governo FHC?”;
- “O senhor não acha que a mídia (sic) é muito preconceituosa?”

E as asnices vão se sucedendo. Contaminados pela praga do “outro-ladismo”, alguns ainda se adiantam: “A gente também vai ouvir Fulano de Tal, que tem uma visão oposta à sua” — e lá me vem o nome de um desses blogueiros do nariz marrom.  Desnecessário dizer que esses monstrinhos — com índices evidentes de alergia aos livros — querem “ouvir” o Reinaldo Azevedo como, digamos, o lado negro da força. Eles querem certamente o bem da humanidade, o belo, o justo, o generoso… E eu, evidentemente, o contrário…

E com quem está, então, o “bem”? Ora, com o Programa Nacional de Direitos Humanos ou com a Confecom — há uns dez pedidos de entrevista sobre a Conferência de Comunicação de Franklin Martins, o ministro da Supressão da Verdade. Vale dizer: estudantes, muitos de jornalismo, querem saber por que diabos, afinal, esculhambei aqui propostas que, se efetivadas, extinguirão a livre expressão do pensamento, a liberdade de imprensa e, no limite, a ordem democrática, uma vez que até mesmo a Justiça deveria se vergar à pressão de grupos organizados. Por que será que eu sou contra??? Sou mesmo um homem esquisito!

É a marcha da boçalidade. Vocês certamente já repararam que é um impossível —  e, de fato, inútil — argumentar com esquerdistas. Imaginem, então, quando se trata de estudantes, coitados!, que nem sabem direito o nome do que praticam. E por que toda argumentação é vã? Porque não se consegue debater uma miserável política pública — ou um evento histórico qualquer — sem que eles evoquem o seu natural alinhamento com os pobres, com os que sofrem, com os sem-isso-e-sem-aquilo, com os excluídos… Se você discorda do que dizem, então está alinhado com as injustiças históricas do Brasil. E do mund0. Não por acaso, na sexta, o Babalorixá de Banânia, Lula, num comício em Recife, afirmou que Marco Maciel (DEM) é senador desde o Império e não “fez nada por Pernambuco”. Fez, sim, um monte de coisa! Mas Lula é aquele que fala em nome do combate às injustiças. Em Pernambuco, opõe-se a Maciel; no Maranhão, juntou-se a Sarney.

Os militantes, evidentemente, são movidos pela mais escandalosa má fé. Os jovens estudantes apenas embarcam na onda. Se e quando vierem a ser bem-sucedidos na vida profissional, passando a responder pelo próprio sustento, podem até sair dessa lama moral. Se derem com os burros n’água, já saberão a quem culpar: “os outros”, aqueles que são favoráveis às injustiças do mundo.

A universidade brasileira, nas chamadas áreas de “Humanas” e “Comunicação” — e é claro que há exceções — transformou-se numa verdadeira máquina de destruição da inteligência e da racionalidade. E não porque essa meninada, como fica evidente, discorda de mim. Mas porque é visível que lhes faltam os instrumentos com que analisar o mundo: faltam, antes de tudo, livros. A escola não lhes oferece nem mesmo bibliografia para as suas certezas — imaginem, então, a bibliografia que deveria abalar essas certezas. Quando menos, cumpriria explicar ao candidato a repórter que um entrevistado não é um comentador das teses do entrevistador…

Por quanto tempo ainda vamos viver nessa areia? Não sei. O que constato é que o trabalho sistemático de destruição da inteligência rende frutos evidentes.

Por Reinaldo Azevedo

26/08/2010

às 19:27

Para vocês

Este escriba vai publicar, naquele texto principal da madrugada, um pequeno ensaio de política. Acho que vocês vão gostar e também se surpreender. Vocês verão que pode haver ciência nesse negócio de política…

Por Reinaldo Azevedo

23/08/2010

às 19:10

As formidáveis bobagens de um professor de filosofia da USP em artigo na Folha: um vermelho-e-azul com o “mestre”

Vocês conhecem Vladimir Safatle, professor de filosofia da USP, embora ele não tenha importância nenhuma. Na verdade, eu contribuí um tantinho para que ele se tornasse quase célebre. Seu feito mais notável foi ter levado para o jornalismo uma espécie de justificação teórica do terrorismo. Aconteceu no dia 13 de janeiro de 2009. Numa resenha publicada no Estadão, este fazia indagações sobre a relação entre as instituições e o terrorismo. Escreveu então:
“como construir estruturas institucionais universalizantes capazes de dar conta de exigências de reconhecimento de sujeitos não-substanciais que tendem a se manifestar como pura potência disruptiva e negativa?”

Para Safatle, os terroristas, cuja existência de reconhecimento estaria dada, seriam apenas “sujeitos não-substanciais que tendem a se manifestar como pura potência disruptiva e negativa?”. Nem parece que isso mata inocentes, não é mesmo? Escrevi à época que os gases instestinais também podem ser definidos como “sujeitos não-substanciais que tendem a se manifestar como pura potência disruptiva e negativa” — especialmente quando o atentado ocorre no elevador, no cinema ou no metrô lotado.

O Estadão, de gloriosas tradições, foi o primeiro jornal brasileiro a publicar um artigo que justificava o terror como uma nova essencialidade do homem. Antes de Safatle, outro esquerdista, Octavio Ianni, já havia chamado de “revolucionária” a ação da Al Qaeda no 11 de Setembro. Mas estava claro que era só proseltimo antiamericanista da pior espécie. Safatle pretende produzir biscoito mais fino. No artigo em questão, ele alçou o terror à condição de categoria filosófica. Os pósteros hão de lhe reconhecer essa notável contribuição ao humanismo.

Safatle agora é articulista da Folha. É uma das pessoas que se revezam no jornal numa coluna diária sobre a eleição de 2010. Nesta segunda, ele escreve um artigo intitulado “O colapso do PSDB”.  Ok. Quem descobriu a “potência disruptiva” do terrorismo pode decretar o “colapso” do PSDB com igual percuciência e verdade. Comentarei seus argumentos porque eles são uma síntese de boa parte das bobagens que a imprensa brasileira escreve, porém com aquela aparência de que há ali algum pensamento. Ele segue em vermelho. Eu vou de azul.

Há algo de melancólico na trajetória do PSDB. Talvez aqueles que, como eu, votaram no partido em seu início, lembrem do momento em que a então deputada conservadora Sandra Cavalcanti teve seu pedido de filiação negado. Motivo: divergência ideológica.
De fato, o PSDB nasceu, entre outras coisas, de uma tentativa de clarificação ideológica de uma parcela de históricos do MDB mais afeitos às temáticas da socialdemocracia européia.
Notem a preocupação de Safatle de demonstrar a sua isenção e a sua condição de analista não-comprometido. Ele até “votou” no partido em seu “início”. Então não venham dizer que ele é movido por qualquer forma de preconceito. O homem do “terrorismo como potência disruptiva” é apenas um analista frio, sem paixões. E, como se nota, se ATÉ ELE votava no PSDB, então o partido era mesmo bom… Santo Deus! Sim, vocês sabem que fui trotskista e assinei a ficha de filiação ao PT, no primeiro ano de existência do partido. Mas jamais usei isso para evidenciar alguma qualidade da legenda. Eu é que estava estupidamente equivocado.

Nota à margem: adoro a lambança que os nossos “inteliquituais” gostam de fazer com substantivos, tornando-os meras abstrações incapturáveis pelo mundo real. Aquele “temáticas”, assim, no plural, mereceria um pequeno tratado de linguagem, especialmente num moço que declara seu amor pela “lacanagem” — referência a Lacan, claro! A “temática” já é um conjunto de temas. As “temáticas” seriam conjuntos de conjuntos de temas, o que nos leva a supor que possa haver o conjunto de conjuntos de conjuntos de temas, numa seqüência cujo fim chegaria ao princípio: Deus!

Basta lembrarmos dos votos e discussões de um de seus líderes, Mario Covas, na constituinte. Boa parte deles iam na direção do fortalecimento dos sindicatos e da capacidade gerencial do Estado. Uma perspectiva contra a qual seu próprio partido voltou-se anos depois.
Aqui começa, vênia máxima, viu, Safatle?, a impressionante delinqüência intelectual deste rapaz. Começo apontando o truque vagabundíssimo da argumentação: exaltar os mortos para poder espicaçar os vivos. O procedimento é comum no Brasil, muito usado contra a direita: “Ah, bom era José Guilherme Merquior, não estes que andam por aí.” O Safatle faz o mesmo com o PSDB: “Ah, bom era o Covas…” Assim como o articulista usa o seu suposto passado de eleitor tucano para evidenciar a lisura de sua crítica, exalta Covas para provar que nada tem contra o partido na sua essência; ataca o que seriam os seus desvios.

Segundo Safatle, o PSDB voltou-se contra, então, o “fortalecimento dos sindicatos” e a “capacidade gerencial do Estado”. Está mentindo. No primeiro caso, digam um único caso de ação tucana contra os sindicatos nos oito anos de governo FHC. Ao contrário: infelizmente, foi na gestão tucana (e Safatle jamais criticaria tal aspecto, claro!) que os fundos de pensão, que hoje detêm o real controle do movimento sindical, se fortaleceram brutalmente. Nessa perspectiva, e um mínimo de honestidade intelectual o obrigaria a reconhecer, as privatizações contribuíram para fortalecer o sindicalismo. Eu desafio este senhor a demonstrar que estou errado.

Quanto à capacidade gerencial do Estado, quem, de fato, a fortaleceu? O governo que criou agências reguladores independentes ou aquele que as subordinou a um partido, usando esses entes para a distribuição de cargos entre os partidos da base aliada? Quem fortaleceu a capacidade gerencial do Estado? Quem sempre procurou, ao longo dos anos, submeter as suas contas a um órgão como o TCU ou quem retirou da alçada do tribunal boa parte das obras das estatais e do próprio governo federal, pretextando a “urgência”? Pois foi o que fez Lula. Quem elevou o padrão de gerenciamento do Estado? Quem exigia que o “S” do BNDES estivesse presente num projeto para garantir financiamento ou quem transformou o banco numa agência que define ganhadores e perdedores do capitalismo brasileiro?

Existe a verdade. E existe o que diz Safatle — e outros tão engajados ou tão ignorantes como ele o aplaudirão.

A história do PSDB parece ser a história do paulatino distanciamento desse impulso inicial. Ao chegarem ao poder federal, os partidos socialdemocratas que lhe serviram de modelo (como os trabalhistas ingleses e o SPD alemão) haviam começado um processo irreversível de desmonte das conquistas sociais que eles mesmos realizaram décadas atrás. Um desmonte que foi acompanhado pela absorção de suas agendas políticas por temáticas vindas da direita, como a segurança, a imigração, a diminuição da capacidade de intervenção do estado, entre outros.
Este movimento foi reproduzido pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.
Coitado deste rapaz! Zero em redação! A argumentação nada tem a ver com a tese original e introduz um tema novo — e errado. Parece a Dilma pensando… Observem que o suposto fenômeno ocorrido com o PSDB não é, então, coisa nativa, mas um mal que teria acometido a social-democracia no mundo inteiro. Sabe-se lá por quê — seria a natural tendência do homem para o mal e para a direita??? —, os partidos identificados com essa corrente de pensamento decidiram mudar um tantinho a sua plataforma. Pois é… A Alemanha “conservadora” assistiu àquela bobagenzinha da reunificação; a Grã-Bretanha do novo trabalhismo, seguindo, sim, a trilha aberta pelos conservadores, manteve-se como economia competitiva depois de ter chegado à lona; o “socialismo” francês de Mitterrand teve de recuar para que a economia saísse do buraco; o PSOE, da Espanha, mudou, sim, e fez alguns dos atores globais do capitalismo. Safatle tem razão: essa guinada da “social-democracia” foi um desastre em escala planetária!

Assim, víamos uma geração de políticos que citavam, de dia, Marx, Gramsci, Celso Furtado e, à noite, procuravam levar a cabo o “desmonte do estado getulista”, “a quebra da sanha corporativa dos sindicatos”, ou “a defesa do Estado de direito contra os terroristas do MST”.
O mundo de Safatle é mesmo pelo avesso, não é? Eu diria que “desmontar o estado getulista” é que é coisa para se dizer de dia — e Marx e Gramsci é que poderiam ser citados à noite, nos becos sórdidos, de preferência, com uma pistola na mão… Em nenhum outro país relevante do mundo um “intelequitual” usaria citações daqueles dois para qualificar positivamente um político. A universidade brasileira —  na média, claro!, há exceções — é a única no mundo em que Marx e Gramsci ainda são empregados como referências aceitáveis.

Isso não é o mais importante de todo modo. O fato é que a síntese que Safatle faz da ação tucana é falsa. Quando foi que FHC ou qualquer um de seus ministros chamou de “terroristas” as ações do MST, embora muitas delas sejam, de fato, terroristas? Nos oito anos do governo anterior, morreram menos pessoas em conflitos de terra do que nos oito anos de governo Lula. Não chamou, mas deveria ter chamado em benefício da verdade e até para se conectar com a esmagadora maioria do eleitorado, que repudia as ações do movimento. Quais? Depredação da infra-estrutura das fazendas e de laboratórios de pesquisa, derrubada de plantações, roubo de incrementos agrícolas, abate de gado. Entendo: Safatle deve achar que tudo não passa de “sujeitos não-substanciais que tendem a se manifestar como pura potência disruptiva”… É o pum do pensamento!

O resultado não foi muito diferente do que ocorreu com os partidos socialdemocratas europeus. Fracassos eleitorais se avolumaram, resultantes, principalmente, de uma esquizofrenia que os faziam ir cada vez mais à direita e, vez por outra, sentir nostalgia de traços ainda não totalmente extirpados de discursos classicamente socialdemocratas. No caso alemão, o SPD acabou prensado entre uma direita clara (CDU, FDP) e uma esquerda renovada (Die Linke).
Quanta bobagem! O paralelo é escandalosamente errado, até porque, na versão de Safate, a social-democracia foi derrotada pela direita. A menos que ele considere que o mesmo aconteceu com os tucanos no Brasil — e a direita seria o PT —, o que ele diz não faz o menor sentido.

No caso brasileiro, esta eleição demonstra tal lógica elevada ao paroxismo. Assistimos agora ao candidato do PSDB ensaiar, cada vez mais, um figurino de Carlos Lacerda bandeirante; com seu discurso pautado pela denúncia do aumento galopante da insegurança, do narcotráfico, do angelismo do governo com o terrorismo internacional das Farcs e, agora, o risco surreal de “chavismo” contra nossa democracia. Um figurino que não deixa de dar lugar, vez por outra, a uma defesa de que é de esquerda, de que recebeu palavras carinhosas de Leonel Brizola, de que vê em Lula alguém “acima do bem e do mal” etc.
Safatle, na sua esquizofrenia argumentativa — e esse moço dá aula; penso nos seus alunos… —, compara a social-democracia brasileira à européia, registrando que aquela teria sido engolida pela direita (o que é besteira) à medida que foi “endireitando” o seu discurso. No Brasil, teria acontecido o mesmo, mas, curiosamente, ela teria sido engolida pela “esquerda” (parece-me que ele considera o PT mais à esquerda do PSDB…). O mau analista não estaria completo sem o apreço pela mentira.

Quem faz o discurso do medo sobre a segurança pública é o PT em São Paulo, mentindo descaradamente sobre a realidade do Estado. Serra propôs um Ministério da Segurança, sem avançar na linguagem do terror. Quem a pratica por aqui é Mercadante. Quanto às Farc, bem, Safatle quer negar o óbvio. Mas entendo: ele acredita que precisamos mudar os nossos valores para ver com outros olhos o terrorismo. Quanto à questão chavista, está fazendo alusão ao discurso que Serra fez na Associação Nacional dos Jornais, quando acusou o governo de mobilizar o estado em favor da censura à imprensa — o que é verdade comprovada. As propostas estão redigidas. Foram parar no primeiro programa de governo de Dilma.

Mas o “inteliquitual” quer que os fatos se danem. Isso seria apenas evidência do “lacerdismo” de Serra. Reitero: esse cara dá aula; ele é, para seus alunos, uma referência de pensamento e, professor de filosofia, apego à verdade. Se o incentivo dado pelo governismo às propostas de controlar a imprensa não são o chavismo à moda da casa, então são exatamente o quê?

Nesse sentido, o caráter errático de sua campanha não é apenas um traço de seu caráter ou um problema de cálculo de marketing.
Trata-se do capítulo final da dissolução ideológica de uma sigla que só teria alguma chance se tivesse ensaiado algo que o PS francês tenta hoje: reorientação programática a partir de um discurso mais voltado à esquerda e (algo que nunca um tucano terá a coragem de fazer) autocrítica em relação a erros do passado.
Trata-se de uma bobagem em dose cavalar. Safatle ia se equilibrando sobre duas mãos, como esses ginastas capazes de fazer os membros anteriores funcionaram como os posteriores, com as pernas no ar — vale dizer, andava de ponta-cabaça. Com essa conclusão, arriou os membros posteriores e plantou os quatro no chão, gloriosamente! O Partido Socialista Francês “mudou” enquanto estava no poder — e o fez por “precisão”, não por boniteza, para lembrar Guimarães.

Quando Safatle decidir estudar em vez de disparar no jornal os seus “sujeitos não-substanciais que tendem a se manifestar como pura potência disruptiva e negativa” — vale dizer: GASES” —, vai procurar saber quem foi Jacques Delors.

Eu explico. François Mitterrand, nos primeiros anos de governo, tentou realmente empurrar a França para a esquerda, mas deu com os burros n’água. Optou, então, pelas saídas oferecidas pelo capitalismo, o que deixou a esquerda furiosa - especialmente aquela lotada na imprensa. Perguntaram a Delors, ministro das Finanças, qual era a diferença entre o que o esquerdista Miterrand fazia e o que faria a direita. Sua resposta não poderia ter sido mais, como direi?, “progressista”. Mandou ver: “A diferença em relação à direita é que nós, da esquerda, fazemos a mesma coisa, mas com dor no coração”.

Ah, sim, não me digam que fui muito duro com Safatle. Quem escreve o que ele já escreveu sobre o terrorismo merecia ainda mais dureza. Mas debatam as idéias do rapaz, ok?, até com certa generosidade. Esse Vladimir talvez estivesse destinado a ser um Lênin, mas acabou professor de filosofia da USP. Aliás, até Lênin desprezava os terroristas…

Por Reinaldo Azevedo

19/08/2010

às 5:17

Regredindo às emoções primitivas

Pode ser que FHC tenha chorado em público outras vezes. Lembro-me de uma apenas: na morte de sua mulher, Ruth Cardoso. Com o rosto congestionado pela emoção, também o vi nos velórios de Sérgio Motta e de Luiz Eduardo Magalhães.  Talvez tivesse chorado. A “irrevogável das gentes” convoca, por óbvio, as nossas emoções. O choro, a emoção, anda em alta na política brasileira. Quando o Senado decidiu mudar a lei dos royalties do petróleo, Sérgio Cabral, por exemplo, não se conteve: debulhou-se em público! Pouco antes, as centenas de mortos nos deslizamentos de terra do Rio não lhe arrancaram um miligrama de sódio.

Lula é um chorão. O horário eleitoral de Dilma carrega no que os analistas falam de boca cheia “emoção”. Não tenho informação, mas imagino que Serra deva receber centenas de e-mails com o mesmo conselho: “Demonstre mais emoção!”. Sobre FHC, aliás, diziam os críticos, que era um político muito frio — inclinado, às vezes, à ironia e à auto-ironia.

Se bem se lembram, Collor era um homem muito “emocionado”, né? Itamar tinha lá seus momentos “mercuriais”. O presidente tucano foi sempre muito discreto, investiu muito pouco no personalismo, pôs o governo para funcionar — houve coisas fabulosas; houve o que não foi bem —, mas sem arroubos. Isso lhe rendeu a fama de “frio”. E, para variar, parte da crônica política embarcou nessa besteira.

O que será que caracteriza as democracias avançadas? O governante que se coloca de modo racional e não-personalista no debate das questões de estado ou o que gosta de manter a sociedade com a temperatura da euforia e do ódio relativamente elevada, para poder mobilizá-la para seus propósitos? O que será que caracteriza as democracias avançadas? Um dirigente que põe as instituições democráticas para  conter homens ou o que põe homens para conter as instituições democráticas?

Essa conversa de “emoção” é uma das coisas mais cretinas e obtusas do debate político. Emocionado era Mussolini. Emocionado era Hitler. Emocionado é Hugo Chávez. Fidel Castro é emocionadíssimo! Dilma só despertava uma simpatia em mim: não era “emocionada”. Os marqueteiros se encarregaram de torná-la uma “fofa”.

Quanto a este escriba, posso me emocionar com as minhas filhas, com a minha mulher, com aspectos da memória familiar, lendo um poema, assistindo a uma cena de filme, até comendo pipoca. Nesses casos, posso ser bastante chorão. No que respeita à política, só instituições democráticas sólidas me emocionam. Emoção do tipo seca. Em política, os “emotivos” estão sempre a um passo da vigarice — quando não são vigaristas.

Por Reinaldo Azevedo

17/08/2010

às 17:14

Acho que vocês vão gostar disto; leiam e me digam. Ou: a religião lulista desde o fim

Suportam um texto longo, assim, no meio da tarde? Então vamos lá. Acho que vocês vão gostar.

Reportagem do Portal G1 (abaixo) informa que a dificuldade de se concluírem obras no Brasil, segundo Lula, se deve à “inveja” e ao “olho gordo”. Mas não só a elas: o presidente também evoca as dificuldades legais relacionadas a licenças ambientais, Ministério Público etc — áreas que, não é segredo para ninguém, foram palcos preferenciais da militância “de base” do PT durante muito tempo. Mas isso fica para outra hora. Quero tratar um pouco do discurso da “inveja” e do “olho gordo”.

Alguns “analistas” vêem essas batatadas de Lula com certo encanto, evidência, dizem, de que temos, de fato, um “homem do povo” no poder. Eu, como sabem, vejo de outra maneira: evidência de que temos no poder o representante de um partido autoritário, destinado a fagocitar as legendas que lhe são próximas, organizado para eliminar os adversários, recorrendo, se preciso, ao jogo sujo. Lula é o principal operador dessa máquina e faz uso consciente de sua origem e do conhecimento que efetivamente tem da mentalidade popular para reduzir as disputas a um jogo entre o Bem, que ele representaria, e o Mal, que os adversários encarnariam.

E são “adversários” — de fato, inimigos — todos aqueles que não se subordinam ao PT. Oponentes antigos, uma vez abrigados sob o guarda-chuva petista, tornam-se forças benignas: Sarney, Collor, Renan, Jader e quantos outros queiram pertencer ao grupo. Basta ajoelhar: Lula lhes colocará a espada sobre os ombros, cobrando fidelidade eterna, e lhes concederá os ducados onde podem pintar e bordar, submetendo, assim, o coronelismo a uma espécie de aggiornamento, desde que ele se subordine às vontades do Moderno Príncipe.

Um projeto de poder (na verdade, uma construção cada vez mais sólida) complexo, organizado racionalmente, segundo princípios muito claros e estabelecidos de economia política — que tem nos fundos de pensão, fazendo uma piadinha, a “acumulação primitiva do capital” desta economia de mercado gerida pelo PT —, tem, no entanto, numa suposto homem primitivo o seu grande animador e propagandista. Vejam como Lula pode apelar a aspectos de, sei lá como dizer, feitiçaria e bruxaria para ganhar a adesão popular.

Não se enganem: são milhões os brasileiros que estão certos de que não conquistam isso ou aquilo porque o vizinho os inveja; porque uma má sorte determinada pelo olhar maligno do outro os persegue. Não por acaso, proliferam as seitas neopentecostais — nem todas são picaretagem, mas boa parte não passa disso — que se oferecem para tirar o “demônio” da vida do fiel, mediante, evidentemente, generosas doações em dinheiro, já que um inimigo do capeta não trabalha de graça. Para que o Coisa Ruim se vá, é preciso apenas se transformar num fiel, pagando o dízimo.

É minha a frase, antiqüíssima, de que, por exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus é o PT da religião, e o PT é a Igreja Universal da política. Lula e Edir Macedo se dão muito bem, são hoje aliados inquebrantáveis, porque, de fato, são muito parecidos. O petista submete a política, a história, as relações sociais, tudo, a seu “livre exame” e diz a respeito o que lhe dá na telha. O “bispo” faz o mesmo com a Bíblia. Lula é capaz de relegar ao lixo formidáveis conquistas do Brasil, como o Plano Real, por exemplo, porque isso interessa à construção de seu império político. Macedo é capaz de recorrer ao Eclesiastes, como já fez, para justificar o aborto porque isso interessa a seu império religioso. Ocorre que a religião, em certos casos, precisa se colar à política porque o “reino de Deus” ainda depende do “reino dos homens”. E a política precisa, em certos casos, grudar-se à religião porque a utopia, os amanhãs que cantam, são parentes da crença.

Assim, Macedo, o religioso, é um político; Lula, o político, é um religioso a seu modo. Se preciso, o demiurgo pedirá aos brasileiros que coloquem um copo d´água perto do rádio quando ele engrola o seu “Café com o Presidente”.

Irrelevante
Uma fala como aquela é irrelevante? Claro que não! Trata-se de um  fator de deseducação política e de apelo ao cretinismo. Ainda que poucos a tenham lido agora, o fato é que é expressão de uma cultura política que se espalhou. Lula conquistou, com esse jeito, a condição de inimputável e de protagonista do jogo do “ganha ou ganha”: o que der certo no Brasil é obra sua, pessoal, intransferível, fruto de sua genialidade; o que der errado deve ser atribuído ao desejo que seus adversários têm de prejudicá-lo. Não podendo, no entanto, apontar uma só ação concreta de sabotagem — E COMO O PT SABOTOU GOVERNOS PASSADOS!! —, resta a esse prosélito da religião petista acusar o poder sobrenatural dos adversários: inveja, olho gordo, mandinga…

Qual é o efeito desse discurso em boa parte dos brasileiros? O emburrecimento. E o país, evidentemente, perde porque não se consegue debater um só de seus problemas reais ou potenciais, que vão se manifestar daqui a pouco, sem ter de enfrentar a “popularidade” do  líder.

Limites dessa fala
A má notícia, obviamente, é que essa construção é complexa, difícil de desmontar, e só perderia seu vigor se o país vivesse um grande desastre em razão das escolhas de Lula, o que, obviamente, ninguém quer. A boa notícia, ainda que isso demande algum tempo, é que o “esquema” petista depende visceralmente deste animador de templos, deste “pastor” de imposturas. E essa é uma experiência que não mais se repetirá porque aquele país que o deu à luz politicamente também não existe mais. Não haverá outro Lula saído das entranhas de nossa complexidade sociológica; não haverá outro Lula com essas características, se me permitem, psicológicas — destituído até mesmo de um resquício de superego…

Peguem essa fala da “inveja” e do “olho gordo”. Caso Dilma venha a ser eleita, vocês a imaginam explicando assim um insucesso do governo, a demora para realizar obras. Poderia até, já que petista, culpar os outros, mas lhe faltaria a “legitimidade” — que eu chamo de “inimputabilidade” — para enveredar pelo caminho do misticismo vulgar e, assim, desqualificar os adversários. A boa notícia, em suma, é que o PT é um partido com tempo de duração — o tempo de duração de Lula.

Subsistirá, sim, como aparelho por muitos anos, mas vai se rarefazer eleitoralmente quando não mais tiver seu líder místico. A ascensão eleitoral de Dilma é a maior evidência disso. Numa esfera estritamente psicológica, Lula só a escolheu porque ela vinha rigorosamente do nada, era uma gaveta vazia. Ao fazê-lo, ele reiterou o seu poder absoluto sobre a máquina e a prevalência dos “Carismas” no confronto com a estrutura eclesiástica do partido, que preferia outro nome. Curiosamente, caso leve Dilma à vitória, conduz o partido a uma espécie de derrota. A gigantesca Igreja Petista não sobreviveria sem seu profeta.

Encerrando
Lula parece muito saudável — e eu jamais desejo a má sorte de quem quer que seja (à diferença do que fazem os petralhas, com sua permanente urucubaca contra mim) — e vai continuar com seus dons “proféticos” e “carismáticos” por um bom tempo. Isso faz dele e de seu partido forças invencíveis? Eu acho que não. Mas ambos têm de ser enfrentados  — e esse enfrentamento terá de se dar menos na esfera administrativo-gerencial do que na de valores, para voltar a tese antiga minha. Desdobrarei este aspecto em outros textos, ao longo dos dias, dos meses, dos anos se preciso.

Porque de uma coisa os petralhas podem ficar certos: sei que eles não desistem de mim, mas eu também não desistirei deles. Eles continuarão a me esconjurar em seus rituais macabros de exorcismo. Eu continuarei a dissecá-los.

Por Reinaldo Azevedo


 

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