Blogs e Colunistas

Sucessão 2010

03/11/2010

às 20:09

À PF, empresário revela “ajuda” à pré-campanha de Dilma

Por Leandro Colon, no Estadão. Volto depois:
O empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, conhecido como Bené, confirmou à Polícia Federal (PF), na sexta-feira, que deu no primeiro semestre uma “ajuda” à casa onde funcionou a coordenação de comunicação da pré-campanha da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT), dirigida pelo jornalista Luiz Lanzetta. Benedito contou que frequentava a casa, no Lago Sul, em Brasília, duas vezes por semana. O local, segundo ele, também era frequentado por petistas. Lanzetta deixou a campanha em junho após o estouro do escândalo da quebra dos sigilos fiscais de tucanos.

Benedito de Oliveira é sócio de empresas que têm contratos com o governo federal, entre elas Dialog Eventos e Gráfica Brasil. Juntas, faturaram mais de R$ 214 milhões desde 2004. As empresas são alvos de investigação do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Controladoria-Geral da União (CGU) por suspeitas de irregularidades em licitação e prestação de serviços. Benedito disse que bancou os custos de uma casa no Lago Sul na pré-campanha de Dilma. “Era apenas uma ajuda na questão administrativa para a empresa de Lanzetta”, afirmou, em depoimento prestado na sexta-feira sobre a violação dos sigilos fiscais de tucanos. “Por conta dessa ajuda, frequentava a casa onde estaria instalada a empresa de Lanzetta e que a imprensa chamava de comitê de campanha”, afirmou. Ele disse que, embora não fosse um comitê oficial, era “comum a presença de membros do partido do PT na referida casa”.

Dossiê
No local funcionou o bunker de comunicação então comandado por Lanzetta. O empresário e o jornalista participaram do encontro em Brasília no restaurante Fritz, em abril deste ano, com o jornalista Amaury Ribeiro Jr. e mais duas pessoas.Naquele dia, teriam discutido o dossiê que Amaury preparou contra pessoas ligadas a José Serra (PSDB), então candidato a presidente. O jornalista foi indiciado pela PF por ter encomendado e financiado a violação dos sigilos fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, da filha e do genro de Serra e de outros tucanos.

Foi o segundo depoimento prestado por Benedito. Na sexta, ele disse à PF que “quando efetivamente Lanzetta foi escalado como coordenador da campanha, isso por volta do início do ano de 2010, Lanzetta pediu ajuda ao declarante para ajudar na expansão de sua empresa”. O empresário, porém, disse que nunca participou de reuniões de “cunho político”. Ele contou que, no encontro no restaurante Fritz, não ouviu qualquer menção sobre um dossiê contra Serra. Disse que foi ao local apenas como convidado de Lanzetta. Indagado sobre as relações com o governo, Benedito afirmou que considera “normal” os contratos, já que seu grupo de empresas tem mais de 40 anos de atuação.

Jornal
A PF ouviu hoje o diretor do Estado de Minas, Josemar Gimenez - Amaury Ribeiro Jr. era funcionário do jornal na época em que teria encomendado os sigilos fiscais dos tucanos, entre setembro e outubro do ano passado. Josemar afirmou que jamais pediu qualquer investigação nesse sentido ao repórter, inclusive em relação a Aécio Neves, que à época disputava indicação do PSDB para a disputa presidencial.

Ele entregou à PF documentos comprovando que Amaury estava em férias no período da violação dos sigilos. Os papéis mostram ainda que o jornalista foi desligado da empresa no dia 15 de outubro do ano passado. Segundo Gimenez, a última viagem a trabalho paga pelo jornal ocorreu no dia 23 de julho, portanto, meses antes da violação dos sigilos fiscais. Ele disse que o jornal mantém uma relação “institucional” com Aécio. O nome do ex-governador surgiu na investigação depois que Amaury contou à PF que decidiu investigar Serra ao saber que pessoas ligadas ao tucano estavam investigando Aécio. Gimenez afirmou que nunca pediu para o repórter apurar esse fato.

Comento
Só uma pergunta: essa “colaboração” foi devidamente registrada ou integra aquilo que Delúbio Soares chama “recursos não-contabilizados”? O fato de o notório Benê prestar serviços para o governo federal e ser um dos milionários do lulismo tem alguma relação com a sua “colaboração”?

Por Reinaldo Azevedo

02/11/2010

às 8:07

Eleitores de Dilma foram traídos: votaram numa presidente e elegeram Madre Teresa de Calcutá! Ou: “Liberdade de imprensa pra quê?”

Depois de ver as entrevistas de Dilma Rousseff na TV e as reportagens sobre a sua eleição, já não tenho mais a menor dúvida. Os que a escolheram foram mesmo enganados. Votaram, sei lá, na “muié do Lula” ou até na pessoa que lhes pareceu a mais competente e acabaram elegendo Madre Teresa de Calcutá. A petista não tem nem mesmo aqueles pequenos defeitos que tornam críveis as qualidades de qualquer pessoa. Nem a sua proverbial rispidez surge como um contraponto mínimo. Ao contrário: é uma estratégia de ação e evidencia seu zelo pela coisa pública. Desde que nomeou Erenice Guerra no Ministério das Minas e Energia, Dilma não aceita que nada dê errado!

“Est modus in rebus”, escreveu Horácio: “Há uma medida nas coisas!”. A arte, queria Aristóteles, como representação da realidade, não podia ser inverossímil, ainda que fosse falsa. Talvez o jornalismo devesse também seguir a máxima da mimesis aristotélica. Se a verdade anda difícil no jornalismo, que se opte pela representação comedida ao menos. Ouvi ontem até no Jornal da Globo, no geral muito correto, um repórter afirmar que “Dilma já fez história” porque é a primeira mulher a ser eleita presidente do Brasil. Digamos que seu governo seja péssimo: terá feito história porque foi a primeira mulher a fazer um péssimo governo? Est modus in rebus! Dilma não precisa ser protegida de si mesma. O Brasil elegeu uma presidente da República, não um mito.

Isso não é bom. Isso, na verdade, é péssimo! Terá sido FHC o último brasileiro comum a nos governar? Depois dele, seremos governados apenas por mitos ou por “categorias inaugurais”? “O primeiro operário”, “a primeira mulher”… Que “primeiro” TERÁ DE VIR depois? O “primeiro negro”, o “primeiro japonês (nascido no Brasil por exigência constitucional), o “primeiro “fenilcetonúrico”, o “primeiro alérgico a gergelim” (que é o meu grupo!)? Voltaremos, um dia, a ser governados por brasileiros natos, alfabetizados, com 35 anos ou mais? Isso é uma tolice! Se o país é governado por um “operário” ou por “uma mulher”, o mandatário ou mandatária tende a ser poupado de seus próprios erros porque não se pode ofender a “minoria sociológica” eleita. Quantas vezes Lula foi muito além da conta sem que ninguém lhe cobrasse nada porque, afinal, vocês sabem, não podemos cobrar certas coisas de um operário…

Até a sua biografia já começa a ser reescrita com zelo. Ontem, no Jornal Nacional, um companheiro de militância de Dilma assegurou que ela nunca pegou em armas, embora tenha feito parte de dois dos grupos terroristas mais violentos que praticaram atentados  durante o regime militar. Não teve? E fazia lá o quê? Suas ações concorriam para que objetivo? Trata-se apenas de respeito pelos fatos. Uma coisa é Dilma não ter sido condenada por participação no episódio A ou B da luta armada; outra, muito diferente, é não ter participado de ações violentas. Quem organiza, planeja ou organiza as finanças de grupos assim “participa” ou não?

Nesse ponto, gostaria — é só retórica argumentativa, claro — de ter um petralhinha aqui do lado para me perguntar: “Mas que importância tem isso?” Ora, a importância que tem a verdade. Se o tema é desimportante, por que a mentira? Se a mentira pode ser enunciada e anunciada, por que não a verdade? E sobre qualquer assunto: luta armada, aborto,  liberdade de imprensa, dossiês, Erenice, a lei da gravidade….

A tese vagabunda
A petralhada, claro, está pegando no meu pé. Em primeiro lugar, não se conformam porque não estou deprimido. Contavam, sei lá, que eu fosse ficar uns três dias escondido debaixo da cama. E não é que, confesso, a eleição de Madre Teresa de Sófia até despertou em mim um ânimo novo? Mais tentam preservá-la de si mesma, mais eu escrevo para devolvê-la a si mesma.

Em segundo lugar, sustentam que, ao escrever o que escrevo, estou desrespeitando a maioria dos eleitores, que é choro de derrotado etc. Bem, quanto ao “choro de derrotado”, dizer o quê? Se acreditam nisso, por que não me ignoram e somem daqui? Quanto ao respeito à maioria, afirmo: desrespeitosos foram os setores do petismo que pregaram “Fora Itamar” em 1992 e “Fora FHC em 1999″; desrespeitoso foi Tarso Genro ao cobrar a renúncia de FHC no 19º dia do seu segundo mandato. Eu não! Exerço o direito de crítica. Fosse assim, seus abestados, nas democracias, só os derrotados seriam contestados, já que o contrário seria “desrespeito à maioria”; fosse assim, suas bestas lógicas, o valor intrínseco da democracia seria a antidemocracia. Espero que tenham entendido porque não vou colocar as duas mãos no chão para explicar.

Ademais, vejam quem está falando! Lula construiu a sua fortuna crítica construindo um edifício de mentiras sobre FHC, eleito e reeleito no primeiro turno, escolhas legítimas do povo. Enquanto fez oposição, jamais lhe atribuiu um miserável mérito. O petista o fez por amor à verdade? Por respeito à maioria? Eu reconheço méritos no governo Lula, sim. Não lhe concedo é a licença para degradar o estado de direito, para aviltar as instituições, para se comportar de modo indecoroso. São coisas absolutamente distintas!

E para encerrar
Finalmente, há os que insistem na tese do “preconceito”. Contra quem ou o quê? Contra a mais poderosa máquina eleitoral criada no país, que não respeitou quaisquer limites da legalidade? Ontem escrevi um texto que considero bastante esclarecedor e preciso sobre como essa questão se articula com a dita “legitimidade”. Não preciso de preconceito nenhum para criticar o PT. Bastam os fatos. O que se pretende com essa conversa é usar a “mulher” Dilma Rousseff para blindar a “presidente Dilma Rousseff”, assim como o “operário Lula” blindou o “presidente Lula”. Engraçado é que o “intelectual FHC” sempre foi usado para atacar o “presidente FHC”!

Prometi na madrugada de domingo, não foi?, que o blog voltaria na segunda, pouco importava o eleito. E continuará na terça, na quarta, na quinta… Agora, então, que Dilma se converteu à liberdade de imprensa (ver abaixo), eu fico ainda mais animado. Quando ouvi a presidente eleita falar isso na entrevista a William Bonner, no Jornal Nacional, fiquei superanimado e, confesso, pensei em mim mesmo. E disse cá com meus botões:
“Liberdade pra quê? Ninguém precisa de liberdade pra dizer ’sim’. A gente precisa ser livre é pra dizer ‘não’. Afinal, nas ditaduras também é permitido concordar”.

Sou grato a Dilma. Sua eleição me fez ter ainda mais clareza sobre o que eu penso e sobre o que ela pensa.

Por Reinaldo Azevedo

02/11/2010

às 8:03

“Nunca antes na história da Bulgária”. Ou: No JN, Dilma dá sumiço em Todorov e Canetti

A entrevista de Dilma Rousseff ao  Jornal Nacional teve início ontem com uma reportagem sobre um braço de sua família na Bulgária. De volta ao estúdio, comentou a presidente eleita:

Olha, Bonner, eu tenho a impressão que vai ser uma comoção. Uma emoção para mim e acho também uma emoção para eles, porque é um país pequeno. Você imagina nesse país pequeno, em que a visão do Brasil, o Brasil visto de lá é 190 milhões de pessoas, é um país que está se desenvolvendo, criando emprego, um país que é visto no mundo como uma das grandes oportunidades. Então, eu acho que vai ser muito interessante, até porque eu acredito que eu sou a única búlgara entre aspas para eles que teve algum sucesso fora da Bulgária. Eu não sei falar uma palavra, nada. Então vai ser muito difícil.

Comento
Huuummm… Não é, não! Vou prestar um serviço a Dilma para não repetir a besteira por aí, especialmente se o governo daquele país a convidar para comer uma “bureka”.  Há uma casa de “bureka” aqui perto. É uma delícia! Adiante! Um dos mais festejados lingüistas contemporâneos, com estudos em várias áreas das ciências humanas, nasceu em Sófia, capital da Bulgária: Tzvetan Todorov. É autor de uma penca de livros traduzidos no Brasil. Não há uma só pessoa com alguma intimidade com as ciências humanas que não tenha ao menos ouvido falar de “Todorov” — não quer dizer que eu goste dele, mas que é famoso, lá isso é. Há também a chatíssima, porém muito admirada em certos círculos, Julia Kristeva, filósofa, psicanalista, escritora… Os dois são figurinhas carimbadas na “intelectualidade francesa”.

Embora não tenha escrito em búlgaro, o judeu Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura, escritor e pensador de primeira, nasceu na Bulgária, na cidade hoje chamada Ruse. A família se mudou depois para a Inglaterra. É autor de obras-primas como “Auto-de-Fé” e  ”Massa e Poder”, este último um bom antídoto a tentações totalitárias. Recomendo a Dilma que leia a obra de um quase conterrâneo, que também não falava búlgaro, mas sabia a língua universal do humanismo e da tolerância política.

Vejam só: se eu for escarafunchar no Google, é possível que ache outros búlgaros com “algum sucesso fora da Bulgária”. É provável que Dilma nunca tenha ouvido falar de Todorov (quase uma carne-de-vaca) e Canetti  — por isso mesmo deveria ter evitado o “nunca antes na história da Bulgária”. Fosse Lula, diriam: “Pô, o cara é um operário! Não tem de saber mesmo!” Dilma não é. E não creio que se possa dizer que estou sendo preconceituoso com uma “presidente mulher”.

Por Reinaldo Azevedo

02/11/2010

às 8:01

Tolices às pencas

Escrevi um post ontem afirmando que 44% dos eleitores que foram às urnas, que votaram na oposição, disseram um “não” a Lula. E expliquei por que fazia aquela afirmação. Tinha sido de sorte contundente, evidente, escancarada, a intromissão do presidente no processo eleitoral que não havia quem a ignorasse. Como foi ele próprio quem colocou a eleição em termos plebiscitários, então recebeu um chega-pra-lá de quase metade de quem votou, embora tenha uma popularidade de 80% — segundo os pesquiseiros ao menos.

Bem, os tontos ignoraram as condições em que fiz aquela afirmação — que era, evidentemente, uma pequena provocação. O “não” ao Babalorixá só se deu por causa de sua saliência. Dizem ainda alguns que os 44%  tinham muitos “lulistas”, que, não obstante, viam em Serra o melhor para tocar os projetos do presidente.

Bem, acho isso uma rematada tolice se dita por petista ou por tucano. É bem verdade que Serra não foi “anti-Lula” nessa campanha, mas Lula foi claramente “anti-Serra”. Logo, ainda que existam nesses 44% um ou outro que julgassem o tucano o melhor para tocar os programas de Lula — uma ilusão inicial errada do próprio marketing do PSDB —, trata-se certamente de um contingente inexpressivo.

Não é, não! Os 44% que Serra obteve nas urnas SÃO VOTOS DE OPOSIÇÃO. Oposição ao PT e a Lula também! E aquele que pretender suceder Dilma sem se opor a ela e a seu partido vai perder. Os eleitores gostam de oposição, acreditem! E ensinaram que aprovar Lula não quer dizer dar carta branca a Lula. Essa é a mais importante lição das urnas.

Por Reinaldo Azevedo

02/11/2010

às 7:59

Não, não! Isso é coisa de petista, não da oposição

Há alguns vagabundos naqueles veículos já controlados pelo governo (ver acima) atribuindo à oposição a afirmação de que Dilma Rousseff ganhou nos grotões atrasados do país, e Serra, nos estados mais desenvolvidos. Não há uma só voz da oposição afirmando tal coisa. Os institutos de pesquisa é que cruzaram o eleitorado com beneficiários do Bolsa Família e chegaram à conclusão de que eles votaram maciçamente em Dilma. O maior número de atendidos pelo programa está no Nordeste, onde a petista obteve a sua vitória mais expressiva.

Nada disso! Quem resolveu fazer a clivagem “Brasil rico vota em Serra” e “Brasil pobre vota em Dilma” foi Marilena Chaui, como se vê abaixo. Eu até desmoralizei a besteira que ela disse, como se pode ler aqui. A tese é tão ruinzinha que só poderia ter saído da cabeça oca do Bozo da Filosofia. Assim, a tal clivagem não é coisa da oposição, não. É de petista mesmo!

Por Reinaldo Azevedo

01/11/2010

às 18:03

Agora entendi!

Vejam isso:

dilma-bulgaraSe algum leitor búlgaro se dispuser a traduzir, muito bem. Huuummm, não tenho a menor idéia do que eles estão escrevendo, mas me parece que é coisa positiva, né?

Numa entrevista já tornada histórica (aqui), Dilma tentava explicar as suas propostas para a saúde:
“Uma das propostas que conjuga, assim, não só, né?, tecnologia de ponta, tecnologia sofisticada para o tratamento da criança, mas também tem um grande nível de humanização, porque eles usam todo o…, toda aquela questão do envolvimento da criança, mostrando que a boneca vai, tamém (sic), cuidar da cabeça (…)”

Responda: ela faz mais sentido em português ou em búlgaro?

Por Reinaldo Azevedo

01/11/2010

às 7:29

44%, SENHOR LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, E NÃO APENAS 3%, LHE DISSERAM “NÃO!!!”

Ah, a petralhada gostaria de me ver arrancando os cabelos, agora que os tenho, desesperado, a esmurrar as paredes! De fato, é não me conhecer. Trabalhei e produzi ontem normalmente, apesar de alguns percalços de ordem pessoal, quase inteiramente superados, e que nada tiveram a ver com as urnas. Ao contrário! Estou frio como uma lâmina para pensar e com o coração sempre quente para escrever, hehe. Morno, como disse no texto de ontem, jamais! Há dias, Lula, repetindo o seu blogueiro pançudo, dizia que os 3% que acham seu governo “ruim ou péssimo” deveriam estar no “comitê de certo candidato”. A isto Lula gostaria que a oposição estivesse reduzida: a 3%!!! Ele bem que tentou! Mas não! Nas urnas, ela se revelou 44% dos que foram votar. A oposição fez ainda 10 governos estaduais — 8 do PSDB (Paraná, São Paulo, Minas, Goiás, Tocantins, Alagoas, Pará e Roraima) e 2 do DEM (Santa Catarina e Rio Grande do Norte) . Governará 52,3% da população e bem mais da metade do PIB.

O presidente dos “83% de ótimo e bom” — que era, na verdade, quem disputava a eleição, já que Dilma fez questão de não existir — obteve 55% dos votos totais nas urnas, correspondentes a 41% do eleitorado. Como demonstrei em outro post e está historicamente provado, a esquerda leva sempre um terço do eleitorado pelo menos. Esses números dão conta do real poder mágico de Lula. O PT elegeu 5 governadores — Acre, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Bahia e Sergipe. Os outros 12 “governistas” são do PMDB (5), PSB (6) e PMN (1). A oposição, se quiser ser oposição, está viva e pode respirar muito bem. Só precisa parar de errar — e alguém poderia dizer: “É aí que mora o problema!” Sim, é aí. Dilma Rousseff terá uma maioria folgada na Câmara e no Senado, garantida, como sempre, pelo PMDB — e é aí que mora o problema dela.

De saída, cumpre notar que este, definitivamente, não é um país que vota com a esquerda coisa nenhuma! Não é de esquerda o Congresso e não são de esquerda — nem mesmo essa esquerda petista — a esmagadora maioria dos governadores. O PT exerce a hegemonia na grande aliança em razão da força pessoal de Lula e do aparelhamento do estado e de sindicatos, base de sua, digamos, força material. Para levar adiante o “Projeto Dilma”, o partido teve de ceder os anéis em muitos estados, dividindo o poder com o PMDB e com o PSB. Os dois partidos logo estarão se batendo pela divisão do butim. Os ditos “socialistas” cresceram no Parlamento e elegeram seis governadores: 4 no Nordeste (Piauí, Ceará, Paraíba e Pernambuco), 1 no Norte (Amapá) e 1 no Sudeste (Espírito Santo). Lula está doidinho para fundir a legenda com o PT. Eduardo Campos, governador reeleito de Pernambuco e líder inconteste do PSB, não deve ser tolo: de chefe de um grupo com razoável poder de pressão, passaria a ser um não-petista no PT. Seu projeto presidencial já estará na rua no dia 2 de janeiro de 2011— no mínimo, para negociar.

Assim, o PT não sai das urnas como o partido que faz o que bem entende, nem Lula se sagra como o demiurgo palpiteiro que, mesmo fora da Presidência da República, decidirá os destinos da nação. Dilma poderá se aconselhar com ele quantas vezes quiser, mas sabe que sua influência será limitada. “Mas e a dos governadores, Reinaldo, é assim tão grande? Não é o Congresso que conta?” Mais ou menos.

Deputados federais paulistas e mineiros, para citar dois estados com bancadas grandes, ainda que petistas ou governistas, sabem que não convém entrar em choque com os respectivos governadores — essa questão será especialmente candente caso Dilma queira, de fato, fazer uma reforma tributária. Se os 10 da oposição conseguirem — e eu sei que é difícil — um consenso mínimo (em vez de ficarem se estapeando, o que Dilma adoraria) —, o tamanho da oposição no Congresso perde um pouco de importância. Desde logo, teriam de criar uma espécie de fórum permanente para discutir as questões que dizem respeito a seus respectivos estados.

Os 43,7 milhões
Outra questão muito relevante a ser considerada são as condições em que a oposição obtém esse número de votos, reduzindo em mais de 10 pontos a diferença na comparação com 2002 e 2006. O jogo, desta feita, foi muito mais pesado. Lula e a máquina que ele mobilizou no subjornalismo não tiveram limites. Ele despiu-se completamente do decoro — ainda ontem, falou mais um absurdo (veja abaixo). Seus aliados naquela variante do crime que se confunde com imprensa trilharam cada palmo da abjeção.  A estrutura do estado foi mobilizada para eleger a sua criatura eleitoral. Manifestou-se de diversos modos: quebrando sigilos e impedindo ou procrastinando a investigação; escalando ministros de estado e chefes de estatais para falar como líderes de facção; organizando a agenda do governo e das empresas públicas para produzir factóides eleitorais. O auge da manipulação foi o anúncio, obviamente apressado, da descoberta de uma “nova possível quem sabe provável é bem capaz” reserva de petróleo no pré-sal dois dias antes da eleição. Fez-se ainda profissão de fé na mentira, com o fantasma ressuscitado das privatizações — a que a campanha do PSDB, é fato, respondeu, de novo, de modo desastrado, o que não retira o caráter vigarista da acusação.

Pois bem, ainda assim, apesar de tudo isso, a despeito de toda sem-vergonhice, de um constrangedor endeusamento da figura de Lula, que tocou as raias do ridículo, nada menos de 44% dos eleitores que compareceram às urnas disseram “NÃO”. E esse “NÃO” FOI DITO A LULA, NÃO A DILMA. Os petistas confundiram — e, infelizmente, o marketing eleitoral da oposição também (e pela segunda vez) — a aprovação ao governo Lula com uma carta branca para ele falar o que bem entende, fazer o que entende, eleger quem bem entende. O petralha assanhado logo dirá: “Ué, mas elegeu Dilma, não foi?” Foi, sim! Mas a que expedientes recorreu para isso? Até onde teve de descer? Quanto teve de gastar de recursos públicos — arreganharam-se os cofres —  para lograr o seu intento?  E tudo isso para que, no fim, a campanha convergisse para o terrorismo. Lula teve de renunciar a todos os princípios do republicanismo e do decoro para que 6,05% dos eleitores lhe garantissem a vitória. A distância de 12 pontos numa polarização tende a esconder a margem relativamente estreita de seu triunfo.

Mar de votos. O que fazer?
Os oposicionistas saem desse pleito com um mar de votos. E votos, insisto, qualificados porque conseguiram resistir a todas as vagas da empulhação e à mais desonesta campanha eleitoral a que assisti desde a redemocratização — ou antes, desde a eleição direta para os governos de estado, em 1982. Muitos podem até apoiar o “Lula presidente”, mas não aprovaram o “Lula cabo eleitoral”.

Se as atuais oposições optarem por se opor apenas nos seis meses finais de 2014, serão jantadas de novo pelo petismo — afinal, Lula estará dando sopa, em busca de emprego. Pode-se apostar que dificuldades virão pela frente, inclusive no cenário internacional, e que Dilma acabará fazendo bobagem. Mas essa é sempre uma aposta arriscada. As oposições, nas democracias, devem se preparar para disputar com adversários bem-sucedidos. Opor-se não é sinônimo de dizer “não” apenas; também é sinônimo de alternativas, pelas quais se deve brigar, procurando mobilizar pessoas e correntes de opinião. Mais: precisa estabelecer uma agenda e um conjunto de valores em nome dos quais vai lutar.

Por mais estranha que possa parecer a proposta, e sei que parece, o primeiro passo do PSDB, reitero, é mergulhar na sua própria história para recolocar os fatos no seu devido lugar. Não pode mais continuar seqüestrado pelo PT. No ano que vem, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso faz 80 anos. As oposições, os 44 milhões que não se deixaram levar pela estupidez de que ele foi um mau presidente e os que têm apreço pela história devem-lhe mais do que um desagravo; devem-lhe a verdade: fundou as bases do Brasil viável. Sem esta “volta para o futuro”, quem não tem futuro é o PSDB porque fica sem passado.

Por Reinaldo Azevedo

01/11/2010

às 7:25

Discurso de Serra foi compatível com a natureza da disputa; petistas não abriram mão da baixaria mesmo com a votação encerrada

Aqui e ali se diz que a mensagem de José Serra, ontem, depois de conhecido o resultado das urnas, foi dura. Pois eu gostei, é evidente! Não gosto é das coisas mornas, lembram-se? Não foi, de fato, aquela fala usual, típica da gramática da derrota. Ao contrário. Ele a refugou: “Pode parecer estranho para um candidato que não ganhou a eleição, mas vim aqui não para falar de minha frustração, vim falar da esperança. Nesses meses duríssimos, quando enfrentamos forças terríveis, você alcançaram uma vitória estratégica. Cavaram uma grande trincheira, construíram uma fortaleza, consolidaram um campo político em defesa da liberdade e da democracia no Brasil. Em defesa das grandes causas econômicas e sociais do país.”

É isso aí! Uma fala inusual para uma campanha inusual. Não dá para fazer de conta que Serra enfrentou forças típicas de numa eleição. As franjas do estado policial mobilizadas para fazer dossiês, invadindo direitos protegidos pela Constituição, não são corriqueiras. Um presidente da República que, por meio de uma fala irresponsável, beirando a chacota, condescende com a violência de uma horda cujos líderes ele abraçara pouco antes, não faz uma disputa convencional. Ter como âncora de uma campanha uma rematada mentira, como a história da privatização, não deve ser recebido como expediente aceitável.

Por isso, nesse caso, o decoroso é ser sincero!

E Serra deixou claro que seus quase 44 milhões de votos não lhe permitem pendurar a chuteira: “Para os que nos imaginam derrotados, saibam de uma coisa: apenas começamos a lutar de verdade. Vamos dar nossa contribuição ao país em defesa da pátria, da liberdade, da democracia, do direito que todos têm de falar e serem ouvidos. Da integridade da vida pública. Essa será nossa luta nos próximos anos. Por isso, minha mensagem de despedida para vocês não é um adeus, é um até logo. A luta continua.”

Vai disputar isso ou aquilo? Parece um tanto cedo para esse tipo de questão.

Há quem queira que a fala convencional teria sido melhor. Discordo obviamente! Horas antes, ninguém menos do que Lula afirmava que “Serra havia saído menor da disputa”. Decoro? Para quê? Marco Aurélio Top Top Garcia, este monumento moral, reiterava que “Serra terá um final melancólico”, mesmo com a vitória de sua candidata já consolidada. Tarso Genro, governador eleito do Rio Grande do Sul, fingindo que o PT teve uma vitória esmagadora, o que é falso, atribuía o resultado à suposta agressividade da oposição. São esses os petistas, a começar de Lula, decorosos?

O PT não sabe nem perder nem ganhar. Chegou a hora, parafraseando Marina Silva, de a oposição ganhar perdendo! Até porque sai das urnas muito mais forte do que a prancheta dos petistas previa. E a hora de fazer oposição, nas democracias,  sempre é já tanto quanto nas ditaduras é nunca.

Por Reinaldo Azevedo

01/11/2010

às 0:49

Primeiro discurso da Dilma eleita: “Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa”

Abaixo, segue trecho do primeiro discurso de Dilma Rousseff, falando já como presidente eleita do Brasil. Comentarei mais tarde.
*
Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui. Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida. Este fato, para  além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode!

Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

- Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.
- Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.
- Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.

- Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.

- Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.

    Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões. O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família. É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

    Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.
    Íntegra aqui

    Por Reinaldo Azevedo

    01/11/2010

    às 0:29

    Íntegra do primeiro discurso de Dilma Rousseff depois de vencer a eleição presidencial

    Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,   é imensa a minha alegria de estar aqui. Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida. Este fato, para  além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.   A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: “Sim, a mulher pode!”

    Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

    • Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.
    • Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.
    • Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.
    • Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.
    • Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.

    Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões. O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família. É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

    Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.   Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte. A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.   O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro.

    Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.   Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.

    No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.   Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.

    Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.   É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem  e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo. Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade.

    O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos  gastem acima do que seja sustentável.   Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos. Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos. Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública.

    Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público. Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo. Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros.   As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.

    Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades.   Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.   Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais.

    Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança.   O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos  para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas.   Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas. Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde.

    Me comprometi também com a melhoria da segurança pública. Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.   Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos. Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo.

    A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade. É aquela que convive com o meio ambiente sem agredí-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.   Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa.

    Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.   Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental.

    Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.   Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.

    A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política. Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.

    Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.   Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei.

    Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia. Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho. Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.

    Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento. Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silencio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.

    Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida.   Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é  difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado. Saberei consolidar e avançar sua obra.

    Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo. Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.   Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união. União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país.   Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela.   Muito obrigada.

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    Por Reinaldo Azevedo
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    01/11/2010

    às 0:26

    A fala de Serra - “Minha mensagem de despedida para vocês não é um adeus, é um até logo”

    No dia de hoje, os eleitores falaram e nós recebemos com respeito e humildade a voz do povo. Quero aqui cumprimentar a candidata eleita Dilma Rousseff (PT) e desejar que ela faça bem para o nosso país.

    Eu disputei com muito orgulho a Presidência da República. Quis o povo que não fosse agora. Mas digo, aqui, de coração, que sou muito grato aos 43,6 milhões de brasileiros e brasileiras que votaram em mim. Sou muito grato a todos e a todas que colocaram um adesivo, uma camiseta que carregaram uma bandeira com Serra 45.

    Quero agradecer também aos milhões de militantes que lutaram nas ruas e na internet por um Brasil soberano, democrático e que seja propriedade do seu povo.

    Eu recebi tanta energia nessa campanha, foram sete meses de muita energia, de muita movimentação e de muito equilíbrio também, que foi necessário. E eu chego hoje, nesta etapa final, com a mesma energia que tive ao longo dos últimos meses. O problema é como dispender essa energia nos próximos dias e semanas

    Ao lado desses 43,6 milhões de votos, nós recebemos, também, votos que elegeram dez governadores que nos apoiaram. Dos quais, um está presente. Um companheiro de muitas jornadas, Geraldo Alckmin. Ele se empenhou na minha eleição, mais do que se empenhou na dele

    A maior vitória que nós conquistamos nessa campanha não foi mérito meu, mas foi de vocês [imprensa]. Nesses meses duríssimos, onde enfrentamos forças terríveis, vocês alcançaram uma vitória estratégica no Brasil. Cavaram uma grande trincheira, construíram uma fortaleza, consolidaram um campo político de defesa da liberdade e da democracia do Brasil

    Vi centenas e milhares de jovens que me lembraram o jovem que eu fui um dia, sonhando e lutando por um país melhor, como eu faço até hoje. Onde os políticos fossem servidores do povo e não se servissem do nosso povo

    Para os que nos imaginam derrotados, eu quero dizer: nós apenas estamos começando uma luta de verdade. Nós vamos dar a nossa contribuição ao país, em defesa da pátria, da liberdade, da democracia, do direito que todos têm de falar e de serem ouvidos. Vamos dar a nossa contribuição como partidos, como parlamentares, como governadores. Essa será a nossa luta

    Por isso a minha mensagem de despedida nesse momento não é um adeus, mas um até logo. A luta continua. Viva o Brasil

    Por Reinaldo Azevedo

    01/11/2010

    às 0:21

    Foi a política que fez a oposição encurtar a distância; logo, faltou ainda mais política

    Como escrevo em outro texto — e jamais vou perder isso de vista —, assistimos nessa campanha a uma truculência inédita do poder federal. Lula aviltou as instituições para eleger a sua criatura eleitoral. Isso não nos deve impedir, no entanto, de apontar erros essenciais na campanha do PSDB, em especial no horário eleitoral.

    Comecemos do básico: Lula será mesmo esse demiurgo, que pode eleger quem bem entender — daí a necessidade de a oposição fazer uma campanha que evite o confronto, abstendo-se tanto de falar bem de si mesma como de falar mal do governo? Pois é. Estamos diante de uma doxa. Contra todas as evidências aparentes, a resposta é “não”. Querem ver?

    Em 1989, quase um terço dos eleitores que foram às urnas votou na esquerda: 16,08% em Lula e 14,45% em Brizola. Em 1994, a mesma coisa: 27,04% em Lula e 3,18% em Brizola. Em 1998, idem (31,71% em Lula). Em 2002 e 2006, com discurso novo e política agressiva de alianças, o PT saiu daquele terço tradicional: Lula obteve, respectivamente, 46,44% e 48,61% no primeiro turno, índice quase igual ao de Dilma em 2010: 46,91%.

    A seqüência de números nos indica algumas coisas: um terço do eleitorado pertence à esquerda e ponto final. Um terço vota contra a esquerda e ponto final. E é sempre aquele terço intermediário que está em disputa. Qualquer que fosse o candidato do PT, com ou sem as bênçãos de Lula, esse potencial está garantido. O resto tem de ser conquistado. Por três eleições seguidas, o PT fez a sua maioria naquele grupo — desta vez, bem menos do que nas duas anteriores.

    O eleitorado brasileiro tem 135 milhões de pessoas — e é nessa base que os institutos avaliam a popularidade do presidente. Se ela for mesmo de 83%, estamos falando na aprovação de quase 113 milhões de pessoas. Dilma se elegeu presidente com 55,7 milhões de votos. Compareceram às urnas 106.050.082 pessoas, 78,55% do eleitorado. O candidato da esquerda levaria um terço disso ainda que fosse um poste — logo, não haveria por que Dilma não levar: 35,35 milhões.  O real poder de transferência de votos de Lula é, pois, de 20,35 milhões de pessoas no máximo — 15% do eleitorado total, ou, contando com generosidade, 19% do que compareceu para votar. É rigorosamente disso que se trata. É histórico e é matemático.

    Medos
    Foi com medo desses 15% ou 19%, na prática, que a campanha da oposição — e sempre se deve relevar o jogo sujo, reitero — tomou o caminho errado, repetindo, diga-se, o erro de 2006. Alguém dirá: “Pô, mas somem-se esses 15% ou 19% àquele terço, e se tem praticamente mais da metade, Reinaldo”. Pois é. Eu me referi ao potencial máximo de transferência. Não quer dizer que ele se realizasse fatalmente e que pessoas desse grupo não pudessem ser convencidas. Mais ainda: a abstenção passou de 20%. É gente pra chuchu, que tem de ser chamada a votar. Como?

    Eis o busílis. O PSDB passou boa parte do primeiro turno dedicado à maximização do minimalismo administrativista, sem uma mensagem política clara aos eleitores. Aquele que é sabidamente o homem público mais preparado do país — e isso não é chavão ou clichê, mas fato — foi convencido, deixou-se convencer ou foi tragado pelo argumento de que a política era um mau caminho: o confronto haveria de se dar no terreno da administração, da gestão, da comparação de biografias (a dele é infinitamente mais rica) e das obras realizadas. A questão seria esta: “Quem é mais competente para dar seqüência à obra de Lula: a Dilma ou o Zé?” A intenção de voto murchava.

    Não por acaso, esse era a escolha do PT. Também o partido de Lula deixou a política de lado — a não ser para fazer comparações falsas, vigaristas, entre os oito anos do PT e os oito anos do PSDB. Obreirismo contra obreirismo, o do PT se mostrava mais festivo; promessa contra promessa, o lulismo será sempre imbatível.

    Quem politizou?
    A diferença entre Dilma e Serra é bem menor do que apostavam os petistas. Não tenho dúvida de que ela se deve à politização havida na reta final do primeiro turno, que QUASE teve seqüência no segundo. E é bom deixar claro: não foi uma escolha do PSDB, não! Foi uma escolha da sociedade. Questões como o aborto e a liberdade de expressão — às quais Dilma se viu obrigada a se referir em seu primeiro pronunciamento — serviram para aproximar mais o PT de si mesmo; criaram uma justa sombra desconfiança. Justa porque ninguém atribuía ao partido e à candidata nada que não fosse de sua natureza e de sua história. A sociedade levou a disputa para o segundo turno. E a primeira pesquisa  feita depois do dia 3 indicava uma diferença de apenas 8 pontos entre os dois candidatos — acabou sendo de 12.

    Aquela primeira semana era decisiva. As ruas respiravam um certo clima de virada — e se esperava que ao cruzado no queixo se seguissem outros golpes firmes da oposição. A PT ficou visivelmente aparvalhado. Antes mesmo que pudesse se reorganizar, a campanha do PSDB, reiniciada na sexta seguinte, dia 8, voltava a oferecer aquele mais do mesmo do primeiro turno: a tal maximização do minimalismo administrativista, em que o homem preparado para ser estadista se dedicava a propostas pontuais para resolver a saúde, a educação, o transporte. Em vez de a campanha embarcar na onda que estava nas ruas, quase fez o contrário: mandou todo mundo pra casa para esfriar a cabeça.

    Privatização
    No seu segundo programa na TV, o PT decidiu partir, ele sim, para a politização aberta e para o escracho. Não só passou a acusar os tucanos de desvios éticos por causa de Paulo Souza — se isso contou, contou pouco — como passou a pespegar nos adversários a pecha de privatistas, inventando a mentira de que, se eleito, Serra privatizaria o pré-sal e a Petrobras. A reação tucana, como escrevo num texto abaixo, foi tardia e falha. Exibiu as suas reais conquistas na área de telefonia quase com preguiça e praticamente aderiu à tese do PT de que concessão em petróleo corresponde a privatização, tentando inverter a acusação. Ora, quem consegue ser mais verossímil, mesmo mentindo, ao atribuir este suposto “defeito” ao adversário? É evidente que o caminho era outro. O PSDB foi vítima duas vezes da mesma vigarice, da mesma patacoada. Teve uma reação errada em 2006. Teve uma reação errada agora. Na segunda semana da campanha do segundo turno, o PT havia estancado o que poderia ser a sangria de votos de Dilma Rousseff.

    Temas essenciais para os brasileiros — cito um óbvio: a baderna que o MST promove no campo, por exemplo — entraram na campanha na reta final, como mera ilustração de uma crítica que Serra fez ao MST em um dos debates. A politização tinha levado ao segundo turno e àquele clima de virada. E a possibilidade de vitória estava em oferecer mais política, não menos, como se fez. O administativismo tinha quase conduzido à derrota no primeiro turno. Era improvável que ajudasse a conquistar a vitória no segundo.

    Para encerrar
    Lula, Tarso Genro e Marco Aurélio Top Top Garcia comentaram o resultado das eleições — o presidente ainda antes do fim da votação. Foram brutais, como de hábito. Para eles, Serra perdeu porque partiu para o ataque. Bem, se é petista falando sobre tucano, então deve ser o contrário. Faltou dureza e faltou política, isso, sim! O presidente dos 83% de popularidade ganhou uma disputa, num eleitorado de quase 136 milhões de habitantes, por uma diferença pouco superior a 12 milhões de votos: menos de 9%!

    Ele não imbatível, intocável ou incriticável. Com mais política, desde o começo, talvez se tivesse conseguido chegar lá. Teria chegado fatalmente? Como é que eu vou saber.  Sei o que a política fez em benefício da democracia: levou as eleições para o segundo turno e deu às oposições um oceano de votos.  Dilma e o PT já  perceberam isso. O seu discurso da vitória já incorporou o recado das urnas (comentarei a sua fala). Que a oposição tenha claro: sempre será a política!

    Por Reinaldo Azevedo

    31/10/2010

    às 22:19

    Qual é o futuro da oposição? Sair do armário. Ou não tem futuro.

    Começo este texto pela ressalva: qualquer comentário que não leve em conta a truculência oficial no processo eleitoral será sempre manco. Nunca se viu uso tão descarado da máquina pública em favor de uma candidatura. O desassombro com que o presidente Lula renunciou a qualquer resquício de decoro, à tal liturgia do cargo, para se entregar ao bate-boca eleitoral é certamente inédito. Nunca se viu uma agenda administrativa tão colada à agenda eleitoral e partidária. Até mesmo o anúncio de uma possível nova reserva gigante de petróleo no pré-sal - que pode conter “x” bilhões de barris ou “5x” - se fez de acordo com as exigências do calendário político: dois dias antes da eleição. E assim se fez quando a peça da resistência da campanha eleitoral petista era justamente a suposta, porque falsa, intenção dos tucanos de privatizar a Petrobras e o pré-sal. A ressalva se estende por mais um parágrafo ainda, antes que retome o fio da primeira linha.

    Nunca antes nestepaiz se viu tanta sujeira numa campanha. Já na largada, descobriu-se um verdadeiro bunker montado em Brasília destinado à produção de dossiês. Constatou-se, o que endossou as acusações de Serra, que o sigilo fiscal de tucanos e de familiares do candidato havia sido violado. Em todos os casos, as digitais do petismo se fizeram presentes. No bate-boca eleitoral, atribuiu-se, com a colaboração de setores da imprensa - o que é fabuloso -, o jogo bruto à vítima. Isso também é inédito Feitas as ressalvas, retomemos o fio.

    Há pelo menos oito anos, esta que se chama hoje oposição é refém da narrativa que o PT inventou para ela. As três campanhas eleitorais tucanas - 2002, 2006 e 2010 - mostraram-se incapazes de responder à vaga de desqualificação do petismo. Nem mesmo se pode dizer que consegue ser apenas reativa porque nem a isso chega. Ao contrário até: faz um enorme esforço para mudar de assunto. E a estratégia tem falhado reiteradamente. Disputou com candidatos ruins? De jeito nenhum! José Serra e Geraldo Alckmin eram personagens eleitoralmente viáveis. O problema é de outra natureza. Parece haver um erro básico de leitura da realidade.

    Tenho pra mim que há três eleições pelo menos os tucanos se tornaram reféns também de pesquisas qualitativas: em 2002, o fantasma era a “impopularidade” de FHC, o que fez com que a campanha da oposição tentasse se descolar do governo - governo que tinha, sim, passado pela crise energética em 2001, mas que reunia méritos gigantescos, muitos deles então frescos na cabeça do eleitor. Mas as pesquisas diziam: “Não toquem no nome de FHC pelo amor de Deus!”. E o governo que havia estabilizado a economia, domado a inflação, tirado muitos milhões da miséria, inaugurado os programas sociais que viraram o Bolsa Família, bem, aquele governo parecia um anátema.

    Em 2006, com Geraldo Alckmin candidato, o PSDB insistiu no mesmo erro básico - medo de sua história. Às mistificações do lulo-petismo, respondeu com o que chamo “maximização do mínimalismo administrativista”, erro, entendo, reiterado desta vez. O fantasma da privatização, brandido de novo pelo petismo, é um bom emblema. O marketing tucano caiu duas vezes no mesmo truque, tropeçou duas vezes na mesma pedra, permitiu que João Santana risse duas vezes da mesma piada.

    Ora, é falso, mentiroso, mistificação barata, sustentar duas coisas, a saber: a) que a concessão de áreas para a exploração de petróleo seja privatização; b) que os tucanos queriam privatizar a Petrobras e o pré-sal. Mas qual foi a reação, TARDIA, da propaganda do PSDB na TV? Agasalhar a tese de que concessão é privatização; tomar a privatização com um  malefício e depois devolver a acusação: “Quem fez, sei lá, 108 ‘privatizações’ foi a Dilma”. Ou seja: tentou falar a linguagem do inimigo, aderir à sua racionalidade vigarista, para tentar inverter o jogo. Em nenhum momento os programas eleitorais do PSDB se lembraram de INFORMAR aos eleitores que, quando FHC chegou ao poder, o Brasil produzia 700 mil barris de petróleo por dia; quando ele deixou o governo, em 2002, o país produzia 1,4 milhão de barris - o dobro. No governo Lula, o aumento da produção foi de 50%.

    Não quero me ater neste texto aos muitos erros do horário eleitoral. Até porque esses poucos que citei servem apenas para ilustrar uma tese: se quer voltar ao poder federal, a oposição terá, em primeiro lugar, de se tonar senhora de sua própria história, recolocando os fatos em seu devido lugar. E terá de enfrentar o lulo-petismo sem receio - terá de enfrentar, inclusive, o mito do “Lula intocável”. Porque os números,ao contrário do que rezam as aparências, demonstram que isso também é falso, o que fica para outro texto.

    Desde já
    Se as atuais oposições pretendem voltar ao poder em 2015, vencendo, pois, as eleições de 2014, têm de começar a enfrentar o governo desde já - ou, vá lá, a partir de 2 de janeiro de 2011.Assim se faz nas grandes democracias do mundo. Barack Obama estava no poder havia 15 dias, e o odiado Dick Cheney deu o grito de guerra. Alguns chegaram a dizer que ele estava enterrando o Partido Republicano. É mesmo? Pois os republicanos estão prestes a tomar de Obama a maioria no Senado e na Câmara. E olhem que, em matéria de mito, o presidente americano dá surra em qualquer um.

    De fato, foram oito anos de quase não-oposição - essa é a verdade. E não se consegue despertar para esse mister nos quatro ou cinco meses que antecedem uma eleição. Nesse tempo, o PT contou a história como bem quis. “Então você sugere que os tucanos digam ‘não’ ao governo mesmo quando a proposta é boa, seguindo o modelo petista?” Não! Eu sugiro que os tucanos, democratas e quantos se oponham ao PT - desde que não seja optando pela extrema esquerda, claro! - tentem apresentar sempre propostas MELHORES. E que não tenha receio de ter a sua agenda. É difícil? Claro que sim! Mas precisa ser feito.

    Dilma, agora, vai procurar a conciliação. É da natureza do jogo. A conversa é a de sempre: “Os interesses do país pedem etc e tal”. O próprio Lula se lembrará de ser um “conciliador”, convocando os homens que querem o bem do Brasil… Até a próxima disputa. Se os oposicionistas caírem na conversa da tal “agenda comum”, serão jantados de novo daqui a pouco.

    Agenda comum?
    Como sempre, o começo do governo será pautado pela urgência da reforma política, da reforma tributária, da reforma trabalhista - as reformas, enfim, que todos dizem querer fazer e que acabam não sendo feitas. O governo Dilma terá maioria esmagadora na Câmara e no Senado. Mas sabemos todos que essa maioria nominal não diz muita coisa a depender do tema. Sim, a oposição tem de ter as suas próprias propostas e brigar muito por elas no detalhe, comparecendo para o debate.

    Quem quer que vá liderar esse trabalho tem de se mostrar como uma alternativa de poder, não como linha auxiliar do governo, o que o PSDB demonstrou ser muitas vezes. Isso não impediu, como se viu em 2006 e 2010, o eficiente trabalho de satanização promovido pelo PT. Considerados os governos dos estados, e ainda escreverei mais a respeito, as oposições governarão praticamente a metade da população e, vou fazer as contas, mais de 60% do PIB. Têm um base formidável para traçar as coordenadas de seu futuro. E, curiosamente, o seu futuro tem de começar por não ter medo do seu passado, que tem de ser libertado do cativeiro em que o prendeu o PT.

    Por Reinaldo Azevedo

    31/10/2010

    às 21:16

    Futura presidente do Brasil, Dilma ficou muito longe de ter recebido uma carta branca dos brasileiros

    Se entrega, Corisco!

    Eu não me entrego, não! Só na morte e de parabelo na mão!

    Dilma Rousseff, do PT, é a presidente eleita do Brasil. Enquanto escrevo, com 98,74% dos votos apurados, ela tem 55,93% dos votos válidos, contra 44,07% do tucano José Serra — 11,86 pontos de diferença. Em 2006, Lula obteve 60,83%, contra 39,17% de Geraldo Alckmin (21,66 pontos de vantagem); em 2002, o mesmo Lula, disputando com o mesmo Serra, levou com 61,27%, contra a 38,72% (22,55 pontos a mais). A apuração no Nordeste está um tantinho atrasada, mas a diferença tende a ficar aí na casa dos 12 pontos. E não vamos nos enganar quanto ao essencial: quem disputou de novo foi Lula. Desta feita, o resultado tende a bater com o que apontavam Ibope e Datafolha, dentro da margem de erro.

    O que os números acima indicam — e eu ainda provarei a tese para vocês no detalhe? Lula é muito forte, mas não é Deus. A despeito da maciça campanha oficial, da formidável mobilização da máquina, de uma cadeia de mistificações como jamais se viu, do jogo bruto escancarado, o desempenho do candidato de oposição é, sim, muito superior àquilo que esperava o governo. Lula se colou de tal sorte à campanha de Dilma, que esses quase 45% dos brasileiros disseram um “não” também a ele — ao menos à sua brutal interferência no processo eleitoral.

    Há erros aos montes da oposição, sim, que não começaram nesta campanha — remontam a 2002 e seguiram adiante em 2003, 2004, 2005 (muito especialmente!)… até os dias de hoje, culminando com outros tantos cometidos nesta campanha eleitoral propriamente. Já escrevi um texto sobre o futuro da oposição, que vai ao ar daqui a pouco na VEJA Online — e, claro, aqui no blog também. Daqui a pouco ou madrugada adentro, vamos ver o ritmo da coisa, escrevo sobre as campanhas eleitorais.

    De todo modo, o quadro que sai das urnas é muito menos catastrófico para as oposições do que gostariam Lula e os petistas. Ainda que a presidente Dilma vá ter uma maioria folgada no Congresso, recebeu, sim, um vigoroso recado das urnas. Está muito longe de ter recebido carta branca da sociedade.

    Por Reinaldo Azevedo

    31/10/2010

    às 18:16

    Abstenção, por enquanto, e maior do que no 1º turno; porcentagem de brancos e nulos é menor

    A apuração da eleição presidencial já avança, mas o TSE não divulgou, até agora, nenhuma parcial. Com 26% dos votos apurados, a abstenção está um pouco maior do que no primeiro turno (20,22% contra 18,12%). A porcentagem de votos brancos, por enquanto, é menor: 2,41% contra 3,13%; o mesmo ocorre com os nulos: 4,34% contra 5,51%.

    Por Reinaldo Azevedo

    31/10/2010

    às 6:47

    Hoje é o dia! E a nossa luta continua amanhã, como sempre!

    Este blog alcança neste outubro, deve estar acontecendo agora, se é que já não aconteceu, a marca de cinco milhões de páginas visitadas — no mês! Não se chega aí referendando o senso comum (numa ponta) ou o que eu poderia chamar “percepções de exceção” (na outra ponta). Talvez esse dado revele algo parecido com apreço por uma certa originalidade nos dias que correm: clareza! Este blog é claramente, indubitavelmente, sem qualquer sombra de ambigüidade, favorável à democracia e ao estado de direito. Por isso mesmo, acredita, sim, que a eleição de José Serra é o melhor para o Brasil. E sustenta isso, mesmo quando todas as pesquisas de opinião dos ditos “institutos” apontam uma diferença em favor de Dilma Rousseff que pode variar de 10 pontos (Datafolha) a 14,4 pontos (Sensus).

    Este blog, pois, como se nota, não quer ganhar eleições. Também não ambiciona ser “campeão moral” de coisa nenhuma. Não disputa votos. Não disputa nada com ninguém. Não disputa nem leitores com outros blogueiros.  Os mais de cinco milhões de páginas visitadas num mês indicam só a escolha de alguns valores. E a esses valores a página continuará fiel, pouco importa o vencedor. MAS ATENÇÃO PARA O PRINCIPAL: ESTE BLOG CONTINUARÁ A AFIRMAR QUE A ELEIÇÃO DE JOSÉ SERRA TERIA SIDO O MELHOR PARA O BRASIL AINDA QUE DILMA VENÇA. Porque este blog prefere a verdade ao poder. Demagógico? A esta altura, eu poderia estar buscando alguma acomodação. Prefiro parodiar um querido poeta: “Final força é pisar com convicção”.

    Conhecido o resultado, certamente escreverei bastante a respeito, o que se repetirá nos dias, meses e anos seguintes. Há muitos jornalistas que declaram, sobranceiros, não ter um agenda. Há outros tantos que a escondem. Pois eu declaro a minha, já tantas vezes anunciada e enunciada aqui: democracia representativa, liberdades individuais, economia de mercado, livre expressão do pensamento. Elogio tudo o que concorre para fortalecer esse que considero ser um bom mundo e dou porrada em tudo o que — ou “todos aqueles” que — considero obstáculo à sua plena realização. Pode haver algo mais transparente, mais, como eu disse, “claro”? Creio que não!

    Perdem o seu tempo, de um lado, os que tentam me convencer de que a democracia não é um bom caminho porque acabou resultando em Lula, eventualmente em Dilma. Perdem o seu tempo, de outro, os que tentam me convencer de que a democracia não é um bom caminho porque pode pôr termo às conquistas, reais ou supostas, de Lula. A minha democracia — aquela dos valores universais — não tem, em suma, qualquer intimidade com os que pretendem usar as urnas para a imposição de valores que, se revelados à luz do dia, com clareza e com verdade, seriam rejeitados pela maioria. Eu não tenho uma agenda secreta. Eu, de fato, combato aqueles que a têm.

    Sem essa!
    Todos sabem o que penso. Acho, sim, que a atual oposição cometeu alguns erros importantes nessa disputa — cuidei deles em muitos textos e falarei mais a respeito, pouco importa o resultado das urnas. Mas afastem de mim o “empatismo”; o “igualzismo” do “todo mundo está errado”; a afirmação vigarista, “outro-ladista”, covarde, segundo a qual as estratégias de ambos os lados — de Dilma e Serra — se igualaram moralmente. Uma ova! Ninguém me pegará nessa por uma razão simples: não pretendo entrar na fila do gargarejo na hipótese de a petista vencer a disputa. Os valores que ela põe para circular não me interessam e, creio, não são do interesse do país, ainda que milhões possam escolhê-la.

    Eu sou aquele que pode, num dado momento do presente, do passado e do futuro, discordar dos “milhões”. Eu não acho que a verdade dependa do assentimento da maioria. Eu sou o ser esquisito que chega a ter certa simpatia pelos rejeitados. EU SOU UM DEMOCRATA MENOS PELO VALOR AFIRMATIVO DA DEMOCRACIA — O “SIM” À VONTADE DA MAIORIA — DO QUE POR SEU VALOR NEGATIVO: O RESPEITO ÀQUELES QUE DIZEM “NÃO”. Fossem realmente apenas 3% os que refugam o assédio de Lula — ele quer saber quem é essa gente, a exemplo daquele blogueiro pançudo —, eu faria questão de estar entre esses deserdados.

    Não! Não me venham com essa conversa vagabunda de que a “baixaria tomou conta da política”. Eu desprezo mais essa postura do que a do petista cegado por suas verdades, que acredita sinceramente, coitado! — o que até Lula sabe ser falso — que os tucanos representam todos os males do mundo. Como na Epístola à Igreja de Laudicéia, no Apocalipse de São João, declaro:  ”Porque tu és morno; nem és quente, nem és frio, começar-te-ei a vomitar de minha boca”. É preferível ser um petralha a ser um equilibrista. Estar no meio não é prova de virtude; pode ser apenas sinal de confusão mental.

    Como assim?
    “Baixaria dos dois lados”? Por quê? Então agora os crimes de estado cometidos por petistas, que violaram direitos resguardados pela Constituição, deverão ser equiparados — notem o escândalo! — à reação das vítimas? Até Marina Silva, a candidata a Heroína Sem Mácula da Política, resolveu censurar José Serra quando ele denunciou a maquinaria de dossiês que se tinha criado; denúncia plenamente comprovada pelas investigações, com todas as digitais do petismo presentes. Não me venha o outro-ladista com “mornidão”! Ou ainda: “O PT mentiu ao atribuir ao PSDB a intenção de privatizar a Petrobras, mas a oposição fez mal ao acusar Dilma de ser favorável à legalização do aborto”. Errado! Coisa de gente morna! Coisa que se expulsa porque nem quente nem fria.

    O PT mentiu, sim, ao atribuir a intenção privatizante aos tucanos. E mentiu de novo quando culpou a oposição de orquestrar a reação contra a opinião de Dilma sobre o aborto. Era a voz de amplos setores da sociedade identificados com valores cristãos. O PSDB foi, isto sim, surpreendido pela indignação coletiva. Como denunciei aqui desde a primeira hora, os petistas é que deram um jeito de satanizar a reação dos cristãos, acusando uma espécie de conspiração. Era só um jeito de inflamar a sua militância . Ademais, se é absolutamente mentirosa a acusação de que tucanos pretendem, se eleitos, privatizar a Petrobras, é absolutamente verdadeira a defesa que Dilma fez da descriminação e da legalização do aborto. Desculpo-me com meus leitores pela tautologia, mas a tanto sou obrigado: a mentira não pode ser igual à verdade. Se elas se igualam, a verdade perde, e a mentira triunfa.

    Não sei se Serra ganha ou perde a eleição. A se dar crédito aos institutos de pesquisa e considerando os números do primeiro turno, a chance de perder é grande. Se acontecer, à diferença do que dizem os mornos — que são só aquilo que se deve expelir —, terá sido mais pelo receio de dizer todas as verdades do que pela coragem de ter dito algumas delas — mal que, diga-se, acomete a oposição há pelo menos oito anos, mesmerizada que está por pesquisas de opinião que transformaram Lula num ser intocável, ignorando-se o fato óbvio de que a eventual aprovação do governo não deve se confundir com carta branca para falcatruas.

    Hoje, ao raiar do dia 31 de outubro de 2010, quando se realiza o segundo turno das eleições presidenciais, renovo o compromisso com milhares de leitores: pouco importa quem vença a disputa, vocês me encontrarão aqui amanhã, daqui a pouco, nos dias vindouros: ou quente ou frio — morno nunca! Eu tenho lado — e jamais ignorei que o “outro lado” pode ser mais vantajoso, como “eles” sabem muito bem.

    A nossa vitória é a clareza.

    Por Reinaldo Azevedo

    31/10/2010

    às 6:45

    A Fada Sininho bate as asinhas

    Elio Gaspari é a prova de que o vinho nem sempre melhora; às vezes, azeda. Hoje. Seguindo os passos de seu guia, foi buscar no futebol uma ironia que deve ter considerado fina e sutil para retratar a vitória de Dilma, que dá como certa. Escreveu.

    “Dois filósofos do futebol podem socorrer tanto aqueles se julgarem vencedores como os que se sentirem derrotados.
    Aos vencedores: “O melhor time sempre ganha. O resto é fofoca”. (Do técnico escocês Jimmy Sirrel.)
    Aos perdedores: “O melhor time pode perder. O resto é fofoca, boa fofoca”. (Do professor norueguês Steffen Borge, da Universidade de Tromso, comentando a teoria de Sirrel.)”

    Para não ser acusado de ter lado, agora que julga que o lado que escolheu faz tempo já ganhou, então oferece, faceiro, gracejos para os dois. Huuummm… Deixe-me prever: caso Dilma vença, Elio Começará a bater as asinhas lá pelas cercanias de Minas. Suas convicções me fascinam…

    Mas esse democrata, radicalmente convertido à democracia depois da democratização  (ele já escreveu o livro “A Ditadura Aplaudida”, com textos da própria lavra?), escreve ainda:
    A pobreza da campanha durante o segundo turno criou terreno fértil para uma perigosa radicalização. De um lado e de outro surgiram vozes, ainda tímidas, discutindo a legitimidade do mandato. Em alguns casos, vocalizam um paradoxo: o resultado de hoje pode colocar em risco a democracia brasileira. Fica difícil entender como uma eleição pode ameaçar a democracia.

    Gaspari usa um tática argumentativa vigarista que consiste em combater o que o adversário não afirmou para que ele possa, então, sustentar o que bem entende. Digam-me uma só pessoa da oposição que questiona a legitimidade do mandato de Dilma, caso eleita. A eventual eleição de Serra, essa, sim, é questionada. Lula a considera um retrocesso da democracia. Gaspari, o morno!

    Quanto ao mérito da tese — e não estou comparando períodos, mas apenas demonstrando que ele está falando bobagem —, cabe perguntar a Hitler, Mussolini e Chávez se uma eleição pode ou não ameaçar a democracia.

    Mas o mais interessante do seu texto está mesmo no primeiro parágrafo, que poderia ter sido escrito a quatro mãos com Luiz Gonzales, o marqueteiro da campanha tucana:

    “HOJE À NOITE será conhecido o próximo presidente da República. Desde 1989 não se via uma campanha terminar de forma tão divisiva e oca. O estudo do mapa eleitoral permitirá que se chegue a explicações políticas e sociais para o resultado. De todas, a de alta toxicidade e baixa honestidade será aquela que atribuirá a derrota ao marqueteiro.
    Nenhuma explicação superará a mais elementar constatação: o povo foi chamado, cada cidadão teve direito a um voto, eles foram contados, e foi eleito quem teve mais preferências.”

    Como não ocorre a ninguém atribuir a João Santana uma eventual derrota de Dilma, é claro que o derrotado do seu texto é Serra e que o marqueteiro que ele quer blindar é Gonzales — a campanha do PSDB, com efeito, foi horrível, pouco importa o resultado das urnas. A Fada Sininho já correu para oferecer a sua proteção e para chamar de desonestos os que discordam dele. Todo honesto concorda com Gaspari, tá, pessoal?

    Desonesto, meu senhor, é não chamar as coisas e as pessoas pelo nome e ficar plantando fofoca em coluna. Esse estilo oblíquo já era! Mais uma vez: pouco importa o que digam as urnas, o fato é que o PT sempre teve uma candidata muito pior do que a sua propaganda, e o PSDB, uma propaganda muito pior do que o seu candidato.  Gaspari e seus protegidos se acalmem. Esse debate está só no começo, ainda que Serra ganhe, a despeito de sua campanha.

    Ah, e concordo com Gaspari: é preciso ser honesto!

    Por Reinaldo Azevedo

    31/10/2010

    às 6:43

    Afinal, o que queremos?

    Leia editorial do Estadão:
    Encerra-se hoje a mais longa campanha eleitoral de que se tem notícia no País, e certamente em todo o mundo: oito anos de palanque na obstinada perseguição de um projeto de poder populista assentado sobre o carisma e a popularidade de um presidente que, se por um lado tem um saldo positivo de realizações econômico-sociais a apresentar, por outro lado, desprovido de valores democráticos sólidos, coloca em risco a sustentabilidade de suas próprias realizações na medida em que deliberadamente promove a erosão dos fundamentos institucionais republicanos. Essa é a questão vital sobre a qual deve refletir o eleitor brasileiro, hoje, ao eleger o próximo presidente da República: até onde o lulismo pode levar o Brasil?

    Quanto tempo esse sentimento generalizado de que hoje se vive materialmente melhor do que antes resistirá às inevitáveis consequências da voracidade com que o aparelho estatal tem sido privatizado em benefício de interesses sindical-partidários? Tudo o que ambicionamos é o pão dos programas assistenciais e do crédito popular farto e o circo das Copas do Mundo e Olimpíada?

    Lamentavelmente, as questões essenciais do País não foram contempladas em profundidade pelo pífio debate político daquela que foi certamente a mais pobre campanha eleitoral, em termos de conteúdo, de que se tem notícia no Brasil. Mais uma conquista para a galeria dos “nunca antes neste país” do presidente Lula, que nessa matéria fez de tudo. Deu a largada oficial para a corrida sucessória, mais de dois anos atrás, ao arrogar-se o direito de escolher sozinho a candidata de seu partido. Deu o tom da campanha, com a imposição da agenda - a comparação entre “nós e eles”, entre o “hoje e ontem”, entre o “bem e o mal” - e com o mau exemplo de seu destempero verbal.

    Uma das consequências mais nefastas dessa despolitização que a era lulo-petista tem imposto ao País como condição para sua perpetuação no poder é o desinteresse - resultante talvez do desencanto -, ou pelo menos a indulgência, com que muitos brasileiros tendem a considerar a realidade política que vivemos. A aqueles que acreditam que podem se refugiar na “neutralidade”, o antropólogo Roberto DaMatta se dirigiu em sua coluna dessa semana no Caderno 2: “Você fica neutro quando um presidente da República e um partido que se recusaram a assinar a Constituição e foram contra o Plano Real usam de todos os recursos do Estado que não lhes pertencem para ganhar o jogo? (…) Será que você não enxerga que o exemplo da neutralidade é fatal quando há uma óbvia ressurgência do velho autoritarismo personalista por meio do lulismo, que diz ser a ‘opinião pública’? O que você esperava de uma disputa eleitoral no contexto do governo de um partido dito ideológico, mas marcado por escândalos, aloprados e nepotismo? Você deixaria de tomar partido, mesmo quando o magistrado supremo do Estado vira um mero cabo eleitoral de uma candidata por ele inventada? É válido ser neutro quando o presidente vira dono de uma facção, como disse com precisão habitual FHC? Se o time do governo deve sempre vencer porque tem certeza absoluta de que faz o melhor, pra que eleição?”

    Quatro anos atrás, nesta mesma página editorial, dizíamos que “as eleições de hoje são o ponto culminante da mais longa campanha eleitoral de que se tem notícia no Brasil. Desde 1.º de janeiro de 2003, quando assumiu a Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva não deixou, um dia sequer, de se dedicar à campanha para a reeleição. Tudo o que fez, durante seu governo (…) teve por objetivo esticar o mandato por mais quatro anos”. Erramos. O horizonte descortinado por Lula era, já então, muito mais amplo. Sua ambição está custando à Nação um preço caríssimo que só poderá ser materialmente aferido mais para a frente. Mas que já se contabiliza em termos éticos, toda vez que o primeiro mandatário do País desmoraliza sua própria investidura e não se dá ao respeito. Mais uma vez, essa semana, no Rio de Janeiro, respondeu com desfaçatez a uma pergunta sobre o uso eleitoral de inaugurações: “Não posso deixar de governar o Brasil por conta das eleições.” Ele que, em oito anos no poder, só pensou em eleições!

    Por Reinaldo Azevedo

    31/10/2010

    às 6:39

    Ufa! Uma acadêmica que sabe o que diz! “Quem vencer vai ter uma bomba nas mãos”

    Por Gabriel Manzano, no Estadão:
    O discurso acabou, os marqueteiros vão para casa e, a partir de amanhã, a vida como ela é cai sobre os ombros do vitorioso. Um de seus rostos é um Estado endividado, que não tem dinheiro para investir e precisa se entender com o mercado. O outro, um pacote de alianças e acordos políticos a cumprir, sem os quais não governará. “Por isso, não estou tão segura de que Dilma Rousseff ou José Serra estejam oferecendo modelos diferentes de Estado”, adverte a historiadora e pesquisadora da PUC-Rio Maria Celina d’Araújo. “Há limites estruturais, por exemplo, para uma política mais estatizante. E quem vencer terá uma bomba na mão, a bomba do endividamento, do câmbio, dos aeroportos, da Previdência…”

    Estudiosa atenta das instituições e do poder no Brasil, Maria Celina entende que o País “está passando por um processo de novas oligarquias, junto com antigas que parecem ressurgir, e o poder continua precisando delas para ter votos”. Mas a sociedade brasileira “também tem uma vocação para gostar do Estado, uma certa estadolatria. Não suportaria um processo para valer de privatizações. É um dilema.”

    O governo Lula, que vai chegando ao fim, “está mais próximo de Fernando Henrique do que de Getúlio”, afirma a autora, que escreveu cerca de 20 livros sobre os presidentes brasileiros. O antigo caudilho “mudou o modelo, implantou uma política trabalhista”. Lula tomou outra direção: “Abandonou suas promessas fortes, as reformas trabalhista, sindical e previdenciária, ao legalizar as centrais sindicais.” Quem mudou o modelo foi o governo FHC: “O Estado não podia mais ser desenvolvimentista, porque estava falido, e precisou ir se entender com o mercado.”

    Por tudo isso, avisa a pesquisadora, é preciso cuidado para se avaliar como o novo presidente vai governar. “Dilma está ligada a um amplo arco de alianças, da extrema direita à extrema esquerda, e sua autonomia não será tão grande. E o Serra também não é um tucano convencional, liberal, que privatiza.”

    Como é o Brasil que o eleito de hoje vai receber para governar?
    Um país com instituições sólidas, regras democráticas. Isso é muito, se compararmos com nossos vizinhos. Mas há também problemas sérios, que não tiveram espaço na campanha. Por exemplo, o Brasil não tem melhorado em seus indicadores de corrupção - todos os dados mostram que continuamos num patamar lamentável. Da mesma forma, a desigualdade: houve uma ascensão social, mas persistem muitas diferenças, como as de gênero e de etnia. Somos uma sociedade em que o trabalho da mulher vale menos, a presença da mulher no Congresso é pífia, para não falar dos negros.

    A eventual chegada de uma mulher ao Planalto teria um impacto diferente nisso?
    Se Dilma chegar lá, acho que muda pouco. Ela é uma candidata indicada e apoiada por um homem. Não entrou na política por méritos pessoais. E ainda representa um projeto do “continuar fazendo” - é a mulher que obedece ao que foi planejado e implantado por um homem.

    O marketing atrapalhou o debate dos assuntos sérios na campanha?
    Não entendo de marketing político. Mas o que sei é que esse tipo de campanha está ficando anacrônico, repetitivo. São as mesmas receitas, os mesmos recursos gráficos, desde os tempos do Collor. Não se fala de questões fundamentais como câmbio, juros - o Serra até tentou, mas a coisa não evoluiu. E não se discute que temos uma bomba na mão, do endividamento, do câmbio, os aeroportos, a Infraero, a Previdência. Os candidatos não querem tocar nisso porque significa cortar gastos.

    A desculpa é que o eleitorado não gosta de temas complexos, não entende…
    Acho que culpar o eleitor por uma campanha rasteira é um desserviço à democracia. Criticam o eleitor de São Paulo porque o Tiririca foi eleito e nada dizem do partido que o indicou, das instituições que aprovam essas manobras. Ora, a campanha é rasteira porque os marqueteiros acham que tem de mexer com as emoções e não com fatos. E não é só aqui. Nos EUA, na disputa entre Obama e Hillary Clinton dentro do Partido Democrata, cada um partia para desconstruir a candidatura do outro. Cabe à mídia, aos acadêmicos, puxar para que as coisas não sejam assim. Tivemos na campanha um mantra sobre privatização, sobre Petrobrás, uma discussão cheirando a naftalina. Se as privatizações são um problema tão grave, porque o governo Lula, em oito anos, não desprivatizou nada?

    A propósito, a senhora vê na eleição de hoje dois modelos de Estado disputando o poder?
    Não estou tão segura de que sejam dois modelos. No caso da Dilma, há um modelo mais estatizante, o do PT, que é um programa de partido, mas se ela vencer vai levar consigo o peso dos acordos que fez, que vão da extrema direita à extrema esquerda. Sua autonomia de voo não será tão grande. E o Serra também não pode ser visto como um tucano convencional, liberal, ele considera o Estado um importante fator desenvolvimentista.
    Aqui

    Por Reinaldo Azevedo

    31/10/2010

    às 6:35

    O futuro do ex-presidente Lula

    Reportagem de capa da VEJA desta semana — e haverá uma edição especial na primeira semana de novembro já com o resultado das urnas e os desafios do próximo presente — trata do futuro do já quase ex-presidente Lula. Recorrendo à síntese da revista: “Ele sairá da Presidência, mas a Presidência sairá dele?” Vamos ver.  Caso Dilma Rousseff, a sua criatura eleitoral, vença a disputa, talvez venha à luz o “conselheiro amigo”; se o vitorioso for José Serra, resistirá o petista à tentação de chefiar a oposição, ainda o seu maior talento? O que é certo até agora? Ele já criou um instituto, seguindo os passos, também nesse caso, do antecessor, FHC. Leiam trecho da reportagem de Laura Diniz, Sandra Brasil e Otávio Cabral.

    (…)
    A rotina diária, com todos os seus detalhes, será a primeira coisa a amanhecer diferente em 2 de janeiro. Ao acordar, por exemplo. Lula não terá tido a visita noturna do funcionário destacado para dirigir-se ao quarto do presidente nas madrugadas com a função de verificar se o mandatário da nação repousa tranqüilo. Lula gosta de contar do susto que levou na primeira noite que passou no Palácio da Alvorada. “Estava dormindo e, de repente, vi aquele sujeito no meu quarto. Só depois descobri que ele estava passando para ver se estava tudo bem.” Hoje, muitas madrugadas depois, ele se sente tão à vontade no palácio que, ao convidar assessores e amigos para visitá-lo, costuma dizer apenas: “Passa lá em casa”. Quando recebe novas visitas, gosta de exibir as tapetes e mostrar as vastas estantes de livros da biblioteca. “Já li todos”, diz, brincando.

    Das regalias funcionais que fazem parte do poder, e que se vão quando ele termina, Lula deverá sentir especial saudade do Airbus da Presidência, o Aerolula, que recebeu em 2005. Ele não apenas gosta de viajar no jato como costuma se gabar do fato de tê-lo adquirido. “Precisava chegar um cara de coragem para fazer isso”, costuma dizer. Como o funcionário encarregado de checar sua respiração nas madrugadas, outros em breve deixarão de servir-lhe para ocupar-se de seu sucessor, como o médico das Forças Armadas que acompanha os exercícios matinais do presidente e as duas funcionárias encarregadas de assegurar que sua roupa esteja sempre lavada, passada e com os botões em dia. Tudo isso acabará em janeiro. E Lula já decidiu como viverá sua nova fase.

    Embora negue em público, o presidente cultivou planos de comandar algum órgão relevante da política internacional, como a ONU, o Banco Mundial ou a FAO, agência da ONU para agricultura e alimentação. Os projetos, porém, colidiram com a realidade - Lula não conseguiu apoio suficiente para eles. Em maio, o presidente reuniu-se no Rio de Janeiro com o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para expor sua pretensão. Ouviu que ela era inviável, dado que esses cargos costumam ser ocupados por diplomatas de carreira. Além disso, o alinhamento do Brasil com governos totalitários como os de Cuba, Irã e Venezuela enfraqueceu o presidente junto à comunidade internacional que define quem vai para onde. Ban Ki-moon chegou a oferecer a Lula o comando de uma ação que a ONU desenvolverá para combater o aquecimento global, ao lado da alemã Angela Merkel, mas a proposta não animou o presidente. A negativa de Ban Ki-moon não foi suficiente para que Lula desistisse do seu pleito. Meses mais tarde, ele teve uma conversa com o comandante do Acnur (agência da ONU para refugiados), o ex-primeiro-ministro de Portugal Antônio Guterres, mas o resultado foi igualmente desanimador.
    (…)
    Leia a íntegra da reportagem na revista

    Por Reinaldo Azevedo

     

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